sábado, abril 21, 2007

(...)

Acordei ao seu lado, ou deveria dizer, sob ela. Tinha a cabeça repousada no meu peito. Ela ajeitou o lençol sobre si. Me dei conta do frio. Ar-condicionado forte, lençóis úmidos de nós mesmos. Virei-me para desligar o ar. Estiquei o braço e alcancei o botão sem acordá-la. Mirei o espelho no teto, quarto de motel. Nos recebia com suas vantagens de logística e sua impessoalidade asséptica. Lamentei que nossos encontros, freqüentes, tivessem que se dar ali. Mas eu morava em prédio antigo, sem garagem, entrada única, porteiro omnipresente, e fofoqueiro. A óbvia diferença de idade certamente chamaria a atenção. Estaríamos expostos. Além do mais, seu rosto angelical, traços finos e sorriso inocente sugeriam uma idade ainda menor. Poderia ser minha filha, diriam, mas não era. Não os tinha. Órfã de antigos colegas de trabalho, acidente de ônibus. Excursão para a praia. Perdeu os freios na descida da serra. Nenhum sobrevivente. Alguns menos afortunados ainda agonizaram por vários dias em hospitais. Deveria estar naquele ônibus também. Noitada grande na véspera, dormi demais. Acordei com o telefonema de um amigo que soube que eu perdera aquele ônibus. Julgava-me morto até então. Após a morte foi criada pela avó. Esta displicentemente zelosa, e nos últimos tempos conivente passiva com nossos encontros. Havia muito perdera a vergonha daquele enlace. Escorreu depressa, ampulheta de alta vazão. Nunca compreendi quando e onde tudo começou. Mesmo se um dia fosse julgado por este crime de amor, mesmo que o juiz me intimasse a responder, ou que o promotor reiterasse a acusação, ou que arcanjos ou santos me inquirissem no final dos tempos, no juízo final, apocalíptico, cristão, nem lá poderia responder. Não sei dar conta, senhor merítissimo. Não posso precisar, senhor promotor. Não encontro resposta na alma, senhor arcanjo. Que me leves o Diabo, senhor santo! Não havia jeito, por mais que escrutinasse a mente. Procurei olhares fortuitos, sorrisos tímidos, toques inusitados, mas nada que pudesse dar data do início daquela paixão que me consumia a carne e o espírito. Desde a morte dos pais, embora pouco presente, me investi na figura de tio. Vez por outra ligava para a avó para ter notícias suas. Ajudava um pouco nas despesas. Levava-a aos cinemas, lanchonetes e zoológico, como compete aos tios. Vi a puberdade brotrar-lhe. Os primeiros sutiãs. O celular que se transfomou em extensão do corpo. A forma como começou a olhar os outros garotos da mesma idade. A primeira visita ao ginecologista. Certo dia, ao ver os olhares trocados com outro guri, senti ciúmes. Como uma revelação satânica me dei conta da mudança: tornara-se mulher, objeto de desejo. A partir deste dia comecei minhas penitências. Evitei contatos. Não respondia emails. Martirizava-me, penintenciava-me por aquele desejo proibido. Procurei preces, terapia, à toa. Nas terapias discutia fábulas. Rememorava que nos primeiros longas da Disney, as personagens Pateta, Mickey ou até o próprio Pluto, se deparavam entre diabos e anjos, sugerindo-lhes escolhas diferentes, ao pé-do-ouvido. Ao contrário dos coloquiais happy-endings de Hollywood, no meu caso, o Diabo venceu a peleja. Um dia reencontrei-a num bar. Festa de amigos seus. Parei para vê-la. Brevemente, pensei. Como um viciado terminal, a abstinência da sua presença me consumia. Como um alcóolatra em rehabilitação cometi o pecado terminal: uma dose apenas. Embriaguei-me dela. Poucos convidados, bar simples, patê de atum, bolo caseiro e cerveja gelada. Havia um violeiro. Acho que tocava bem. Era boa pinta e as moças disponíveis, solteiras ou não, clamavam por uma fração do seu pensamento. Ele, falsamente alheio, dedilhava um 7-cordas. Todas menos ela. Obstinadamente seguia não apenas seus passos mas também seus olhares. Na minha embriaguez buscava alcançar seus pensamentos. Devaneios. Dancei alguns sambas com ela. A formação de balé não acompanhava meu falso carioquês. Mas ainda assim trazia seu corpo junto ao meu. Passei a entender a expressão sublime amor. Fui ao banheiro. Na volta não a vi mais. Procurei ansioso. Sentia o ar faltar, e o coração bater mais depressa. Eventualmente ela emergiu de um canto escuro, um rapaz a acompanhava. Senti ciúmes. Cogitei em ir até ela e iniciar uma discussão. Futilidade. Prostei-me resignado. Ela se aproximou. Jeito maroto, olhar de falsa timidez. Dançamos mais. Bebia mais. Já não disfarçava a vontade de tê-la nos braços. De olhos fechados trazia-a junto a mim. Fantasiava a realidade de tê-la comigo. Despedidas. Carona oferecida. Carona aceita. Partimos. Caminhamos até o carro. Abri a porta para ela. Fitei-a sem dizer palavra. A lua cheia iluminava. Seus olhos brilhavam. Pensei em roubar-lhe o primeiro beijo ali mesmo. Ela parecia corresponder. Confuso, nada fiz. Uma música qualquer no rádio. Seguia a baixa velocidade. Fazia das minhas para que o ponteiro dos segundos seguisse mais arrastado. Segurava sua mão. A minha transpirava. Desliguei o rádio. Restou o barulho do vento apenas, e nosso silêncio. O turbilhão de pensamentos me assolava, a culpa, a vergonha, e o desejo. Chegamos à sua casa. Calada, ela me pegou pela mão e me fez entrar. A vó viajara na véspera. O anjo me guiava na casa escura. Fomos até seu quarto. Acendeu uma vela. Fechou a porta. Beijou-me. Senti as pernas tremerem. Beijava-me mais. Confuso, ébrio, excitado. Fez sinal para que levantasse os braços. Tirou minha camisa. Acariciava o peito, brincava com os mamilos. Agachada abriu o zíper da calça, me tocou novamente... Deitamos já nus na cama pequena. Era como sob medida para nossos corpos unidos. Não sei descrever o que se passou. Era como se uma revelação divina tivese sucedido. Num clarão vi sua face contraída, seu corpo suado em movimento, e um grito de prazer. Acordei no dia seguinte na mesma posição em que nos encontrávamos naquele motel. Nossos encontros se tornaram quase que diários. As horas e os minutos não faziam mais sentido. Meus momentos se definiam apenas pela sua presença ou pela sua ausência. Pensei em fugir para terras distantes, Passárgada talvez. Ajeitei sua cabeça no meu peito. Um sorriso escorria dos lábios. Não pensei mais sobre o futuro ou até onde poderíamos levar nosso amor proibido. Hoje estávamos ali. Bastava. Fechei os olhos.

Adormeci.


PS: “A chapeuzinho-vermelho
sempre quis ser comida
pelo lobo-mau.”

Maurício Dantas, o bem-assombrado.