Sábado, Maio 02, 2009

by Martha Medeiros

Tempo

"O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada. O tempo apenas tira o incurável do centro das atenções."

Divã.
 
"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos. 

Tudo perda de tempo. 

Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoraçao ou seu desprezo. 

O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia".

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

Sim, algumas fotos falam mais do que mil palavras...



By Roberto Neumiller
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Sábado, Janeiro 31, 2009

DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL




em Lhasa, Tibet

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos,  crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.

Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !"

Frei Betto

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

O site de musica dos meus sonhos!


WOW!!! Bonito e gostoso de usar...


http://musicovery.com/


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Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Mr Nice





Uma autobiografia otima!...

http://www.howardmarks.name/books/

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

Bicho


 
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
 
Quando achava alguma coisa,
Não examinada nem cheirava:
Engolia com voracidade.
 
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
 
O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira 1947

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Berlin


Berlin é fantástica!











Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

O Rei Roberto - Eu te darei o céu...


E ainta tem umas tomadas aéreas lindas do RJ anos 70...





Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Gentileza gera Gentileza....


Bom, quem não é carioca ou não mora no Rio de Janeiro provavelmente não conheceu o Profeta Gentileza (04/1917 - 05/1996) que pregava o entendimento entre os homens pintando grandes painéis nas colunas dos viadutos cariocas: "Gentileza gera gentileza!"

Em 2000, Marisa Monte, entristecida com a destruição dos painéis do Profeta, hoje tombados e restaurados pela Prefeitura do Rio de Janeiro, compôs esta linda canção:

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca

Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza

Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta


Sexta-feira, Novembro 21, 2008

Born into brothels





Fantástico filme!... sim, é possível ver um mundo melhor....


Quarta-feira, Novembro 12, 2008

"Bush Speechless", ou, a besta solta...




A ausência de palavras fala por si só....



video




PS: ok, confesso, é montagem.... mas que bem poderia ser verdade, poderia....

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Arte poética - Ferreira Gular






Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz

e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte -

some-se aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz

Nada que se pareça
a pássaro empalhado, múmia
de flor
dentro do livro

e o que da noite volte
volte em chamas

ou em chaga

vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só

ilumina a cidade inteira



Terça-feira, Outubro 28, 2008

Cafe de los Maestros -


Resgatando o Tango, DIVINO!!!

"se quando você escuta um tango bem tocado não sentes um tremelique no peito, dedica-te a outra coisa"... de um dos Maestros do filme





Fados - Carlos Saura



LINDO!!!






Estante Virtual - Sebos

Ótimo site para compra de livros usados... um portal de sebos Brasil a fora... 3B (Bom, Bonito e Barato) :D.... (clique no link abaixo)...


Desconhecido

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Autor desconhecido

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Aninhas e suas pedras


Não te deixes destruir...

Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre,
sempre.

Remove pedras e planta
roseiras e faz doces.

Recomeça.


Faz de tua vida mesquinha
um poema.

E viverás no coração dos
jovens e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de
todos os sedentos.

Toma a tua parte.


Vem a estas páginas
e não entraves seu uso aos que têm sede.

(Outubro, 1981)
Cora Coralina

Picasso e os mestres, Paris, museu Le Grand Palais



Na minha singela opinião ele é simplesmente o melhor artista plástico de todos os tempos... ninguém conseguiu ser tão brilhante, com tantos expressões distintas... e ele ainda fez Guernica!... se mais pessoas vissem aquilo, talvez tivéssemos menos guerras....


http://www.rmn.fr/Picasso-et-les-maitres

Amores Liquidos

O título do livro do sociólogo polonês Zigmunt Bauman é sugestivo e, sobretudo, apropriado para um sentimento que não se submete docilmente a definições. Professor emérito de sociologia nas Universidades de Varsóvia e de Leeds, na Inglaterra, ele tem vários livros traduzidos para o português, e o tema recorrente em sua obra são os vínculos sociais possíveis no mundo atual, neste tempo que se convencionou denominar de pós-modernidade.

A noção de liquidez, quando se refere às relações humanas, tem um sentido inverso ao empregado nas relações bancárias, a disponibilidade de recursos financeiros. A liquidez de quem tem uma conta polpuda no banco, acessível a partir de um comando eletrônico é capaz de tornar qualquer desejo uma realidade concreta. É um atributo potencializador. O amor líquido, ao contrário, é a sensação de bolsos vazios.

É preciso deixar claro que Bauman não se propõe a indicar ao leitor fórmulas de como obter sucesso nas conquistas amorosas, nem como mantê-las atraentes ao longo do tempo, muito menos como preservá-las dos possíveis, e às vezes inevitáveis, desgastes no decorrer da vida a dois. Não há como assegurar conforto num encontro de amor, nem garantias de invulnerabilidade diante das apostas perdidas, nunca houve. Quem vende propostas de baixo risco são comerciantes de mercadorias falsificadas.

A área de estudo principal de Bauman é a sociologia, o campo do pensamento que vai ser o ponto de partida e o foco fundamental do retrato sobre a urgência de viver um relacionamento plenamente satisfatório dos cidadãos pós-modernos. Digamos que as dificuldades vividas por um casal refletem o estilo que uma comunidade mais ampla estabelece como padrão aceitável de relacionamento entre seus vizinhos, entre os que habitam um espaço comum. Bauman é realista. Sabe que “nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social”. Portanto, partindo do seu campo específico de estudo, ele faz uma radiografia das agruras sofridas pelos homens e mulheres que têm que estabelecer suas parcerias no mundo globalizado.

Mundo que ele identifica como líquido, em que as relações se estabelecem com extraordinária fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, em constante e frenético movimento. Em seus livros anteriores, já traduzidos e disponíveis para o leitor brasileiro, Bauman defende a idéia de que esse processo de liquefação dos laços sociais não é um desvio de rota na história da civilização ocidental, mas uma proposta contida na própria instauração da modernidade. A globalização, palavra onde estão contidos os prós e os contras da vida contemporânea e suas conseqüências políticas e sociais, pode ser um conceito meio difuso, mas ninguém fica imune aos seus efeitos. A rapidez da troca de informações e as respostas imediatas que esse intercâmbio acarreta nas decisões diárias; qualidades e produtos que ficam obsoletos antes do prazo de vencimento; a incerteza radicalizada em todos os campos da interação humana; a falta de padrões reguladores precisos e duradores; são evidências compartilhadas por todos os que estão neste barco do mundo pós-moderno. Se esse é o pano de fundo do momento, ele vai imprimir sua marca em todos as possibilidades da experiência, inclusive nos relacionamentos amorosos. O sociólogo Zygmunt Bauman mostra como o amor também passa a ser vivenciado de uma maneira mais insegura, com dúvidas acrescidas à já irresistível e temerária atração de se unir ao outro. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, e, no entanto, nunca os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter o rumo da relação.

O apelo por fazer escolhas que possam num espaço muito curto de tempo serem trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes, o que explica o sucesso do que o autor chama de casais semi-separados. Ou então, mais ou menos casados, o que pode ser praticamente a mesma coisa. Não dividir o mesmo espaço, estabelecer os momentos de convívio que preservem a sensação de liberdade, evitar o tédio e os conflitos da vida em comum podem se tornar opções que se configuram como uma saída que promete uma relação com um nível de comprometimento mais fácil de ser rompido. É como procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro. A concentração no movimento da busca perde o foco do objeto desejado. Insatisfeitos, mas persistentes, homens e mulheres continuam perseguindo a chance de encontrar a parceria ideal, abrindo novos campos de interação. Daí a popularidade dos pontos de encontros virtuais, muitos são mais visitados que os bares para solteiros, locais físicos e concretos, onde o tête à tête, o olho no olho é o início de um possível encontro. Crescem as redes de interatividade mundiais onde a intimidade pode sempre escapar do risco de um comprometimento, porque nada impede o desligar-se. Para desconectar-se basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias, e sem prejuízos. Num mundo instantâneo, é preciso estar sempre pronto para outra. Não há tempo para o adiamento, para postergar a satisfação do desejo, nem para o seu amadurecimento. É mais prudente uma sucessão de encontros excitantes com momentos doces e leves que não sejam contaminados pelo ardor da paixão, sempre disposta a enveredar por caminhos que aprisionam e ameaçam a prontidão de estar sempre disponível para novas aventuras. Bauman mostra que estamos todos mais propensos às relações descartáveis, a encenar episódios românticos variados, assim como os seriados de televisão e seus personagens com quem se identificam homens e mulheres do mundo inteiro. Seus equívocos amorosos divertem os telespectadores, suas dificuldades e misérias afetivas são acompanhadas com o sorriso de quem sabe que não está sozinho no complicado jogo de esconde-esconde amoroso.

A tecnologia da comunicação proporciona uma quantidade inesgotável de troca de mensagens entre os cidadãos ávidos por relacionar-se. Mas nem sempre os intercâmbios eletrônicos funcionam como um prólogo para conversas mais substanciais, quando os interlocutores estiverem frente a frente. Os habitantes circulando pelas conexões líquidas da pós-modernidade são tagarelas a distância, mas, assim que entram em casa, fecham-se em seus quartos e ligam a televisão.

Zygmunt Bauman explica que hoje “a proximidade não exige mais a contigüidade física; e a contigüidade física não determina mais a proximidade”. Mas ele reconhece que “seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento, mas constante recuo da proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso”. As relações humanas dispõem hoje de mecanismos tecnológicos e de um consenso capaz de torná-las mais frouxas, menos restritivas. É preciso se ligar, mas é imprescindível cortar a dependência, deve-se amar, porém sem muitas expectativas, pois elas podem rapidamente transformar um bom namoro num sufoco, numa prisão. Um relacionamento intenso pode deixar a vida um inferno, contudo, nunca houve tanta procura em relacionar-se. Bauman vê homens e mulheres presos numa trincheira sem saber como sair dela, e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela. Por isso movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos com a esperança mantida às custas de um esforço considerável, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor. A conclusão não pode ser outra: “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”.

Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zigmunt Bauman, mostra-nos que hoje estamos mais bem aparelhados para disfarçar um medo antigo. A sociedade neoliberal, pós-moderna, líquida, para usar o adjetivo escolhido pelo autor, e perfeitamente ajustado para definir a atualidade, teme o que em qualquer período da trajetória humana sempre foi vivido como uma ameaça: o desejo e o amor por outra pessoa.

O mais recente título do sociólogo polonês, que recebeu os prêmios Amalfi (em 1989, pelo livro Modernidade e Holocausto), e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra), é uma leitura precisa e eloqüente, um convite a uma reflexão aberta não apenas aos estudantes e interessados em trabalhos acadêmicos. O seu texto claro, apesar de fortemente estruturado numa erudição consistente, não deixa de abrir espaço para o leitor comum, interessado em compreender como as estruturas sociais e econômicas dos tempos atuais, tentam dar conta da complexidade do amor que, com a permissão de citá-lo mais uma vez, é “uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.

Nota do Editor
Ensaio gentilmente cedido pela autora. Publicado no caderno "Fim de Semana", da Gazeta Mercantil, em 31 de julho de 2004.

Para ir além


Sugestao: GoiasTexas


Zeitgeist - The movie



Sugestao: GoiasTexas

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Fernando Pessoa

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares

É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos"

Fernando Pessoa

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

New York Times - Editorial anti-Bush


Não é  o primeiro, nem o ultimo artigo a detalhar "o pior Presidente dos EUA", ainda mais vindo do NY Times, que assim como vários outros veículos de mídia da terra do Tio Sam, ignoraram o seu dever jornalístico de questionar os fatos, p.ex. quando da invasão do Iraque, atrás das nunca encontradas armas de destruição de massa, mas ainda assim ta ótimo de ler!... pena que também estejamos rindo da nossa própria parcela de desgraça ;(

October 1, 2008, 9:45 PM

The Legacy

Among the many dispiriting things to come out of Bob Woodward’s quartet of books on George W. Bush is his observation that the president has not changed since he first started talking to Woodward in 2001.

No growth. No evolution. No regrets.

“History,” Bush replied, when asked by Woodward how he would be judged over time. “We don’t know. We’ll all be dead.” Broke, as well.

It would have been nice to let Bush’s two terms marinate a while before invoking Herbert Hoover and James Buchanan from the cellar of worst presidents. But then — over the last two weeks — he completed the trilogy of national disasters that will be with us for a generation or more.

George Bush entered the White House as a proponent of a more humble foreign policy and a believer that government should get out of the way at home. He leaves as someone with a trillion-dollar war aimed at making people who’ve hated each other for a thousand years become Rotary Club freedom-lovers, and his own country close to bankruptcy after government did get out of the way.

It’s a Mount Rainier of shame and folly. But before going any further, let’s allow his supporters to have their say.

“He’s going to have an unbelievably great legacy,” said Laura Bush in an ABC interview, citing wars in Iraq and Afghanistan. “Fifty million people liberated from very brutal regimes.”

Fred Barnes argues that Bush is a visionary on a par with Ronald Reagan and Franklin D. Roosevelt. “Bush is a president who leads,” he wrote in a 2006 book. “He controls the national agenda, uses his presidential power to the fullest and then some, prepares far-reaching polices likely to change the way Americans live, reverses other long-standing polices and is the foremost leader in world affairs.”

Finally, from Karl Rove, the Architect. Bush will be viewed “as a far-sighted leader who confronted the key test of the 21st century,” he said.

After wading through books with words like “fiasco,” “hubris” and “denial” in the title, historians will go to first-hand sources, the people who worked with Bush daily. There they will find Paul O’Neill, the president’s former Treasury secretary. In 2002, he sounded an alarm, saying Bush’s rash economic policies could lead to a deficit of $500 billion. This, after Bush had inherited a budget surplus, prompted many to scoff at O’Neill.

He was wrong, but only in one respect – the projected deficit, even without a financial bailout, will almost certainly be higher.

This means a lot, for every bridge not built, every Pell grant not given to a kid who may never go to college without one, every national park road left to crumble, every sick person who cannot afford to see a doctor in a country that wants to be known as the best on earth.

Historians will also go to Scott McClellan, the former White House press secretary. Bush may not be a “high functioning moron,” as Paul Begala called him recently. He is “plenty smart enough to be president,” McClellan wrote this year. But McClellan, in his job as the president’s mouthpiece, found him chronically incurious. He also said Bush deliberately misled the country into war, and in that effort, the news media were “complicit enablers.”

Historians will recall that in each of the major disasters on Bush’s watch, there were ample warnings — from the intelligence briefing that Osama bin Laden was determined to strike a month before the lethal blow, to the projections that Hurricane Katrina could drown a major American city, to the expressed fears that letting Wall Street regulate itself could be catastrophic.

Voluntary regulation. That phrase now joins “heckuva job, Brownie” and “mission accomplished” among those that will always be associated with the Bush presidency.

It’s painful now to realize, just as the economy craters and the world looks aghast at the United States, that the other cancer from the Bush presidency – his failure to even start the nation on the road to a new energy economy – gets short-changed during the triage of his final days.

Bush has hinted that his legacy will be about the war. So be it. He never caught bin Laden, the mass murderer who launched the raison d’etre of the Bush presidency.

But he did topple a paper army in Iraq, opening the drainage for our currency, blood and global reputation. It may go down as the longest, even costliest war in our history.

In a survey of scholars done earlier this year, just two of 109 historians said the Bush presidency would be judged a success. A majority said he would be the worst president ever.

But if you don’t trust those elites in academia, consider the president’s own base.

Bush leaves with his party in tatters. In the 28 states that register by affiliation, Democrats have picked up more than 2 million new voters this year while Republicans have lost 344,000. It seems only fitting that it was the last of the Bush dead-enders in Congress earlier this week who jumped ship when presented with the final horrendous hangover from this man who doesn’t drink.

If ever there was an argument for voting against politicians who are confident about their cluelessness, Bush is it. So it was heartening to see that a majority of the country, in some polls, now views Sarah Palin as unqualified to be president.

We may have learned something, even if Bush has not.



The Story of Stuff - A história das coisas


Vídeo ÓTIMO, sobre como as coisas são feitas, e desfeitas, nos nossos tempos... 



22 minutos...


Sexta-feira, Setembro 12, 2008

Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Os dois mestres num momento de ébria intimidade :)



Um jeito diferente de ver o mundo...


Livro sobre redes sociais e ciberativismo, genial!... e não se assuste com o estilo guerrilheiro do cabra

Apriosionados por promessas




Sinopse
O documentário retrata a situação de trabalhadores do campo aliciados e escravizados em fazendas e carvoarias, e sugere quais são hoje os principais desafios do combate para a erradicação do trabalho escravo no Brasil.



Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Amazing Science... make it simple, stupid!



Quarta-feira, Setembro 03, 2008

O Encantador de palavras


A poesia está guardada nas palavras - é tudo que

eu sei.

Meu fado é o de não entender quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.


Não cultivo conexões com o real.


Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,


Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias:

(do mundo e nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.


Fiquei muito emocionado e chorei.


Sou fraco para elogios.


by Manoel de Barros

Sexta-feira, Abril 25, 2008

Trainspotting

Choose life!


De um dos filmes mais geniais que ja vi.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

Sons


Com o travesseiro junto à boca seus ruídos quase não alcançavam os vizinhos.


Tinha as costas largas, os olhos azuis e um olhar de rara alegria.

Ojos negros



Olhos negros profundos, azulejos alicateados nas paredes do fundo, e um conjunto de vozes, ruídos e dialetos distintos completam o ambiente. Seus cabelos igualmente negros mexiam com o vento. Acho que foi por isso que vim até aqui.

Delic


Delic, deli, declicatessen..... um provedor de diferentes artigos de sabores raros, para os mais distintos paladares, diriam os antropófagos daquela vizinhança.

El tiempo pasa

Y la novia grita:

-- Usted es una bestia!

Yo no contesto, ni protesto... es la edad, la neurosis empeora.

Livre-tradução, busco

Creo que creo,
en lo que creo,
que no creo...


dito espanhol

Pensamentear


Se não fosse pela inspiração a tela do artista continuaria eternamente branca.

Quarta-feira, Março 19, 2008

Janela






Daqui da minha janela, desde seus olhos azuis com que enxergava o mundo, me contou que a capela da igreja da frente poderia bem ser do Sacre-Coeur, e que aquilo tudo ali embaixo tinha um ar de Montmartre. Sorri e levei-lhe um pouco mais de vinho com meus lábios. Deixei uma gota escorrer e lambi-lhe o pescoço. Sem dizer palavras nos acostamos na cama fria. Por cuidado mantive a janela aberta, e sonhamos juntos com Paris.

Cortazar

El Río, by Julio Cortázar

Y sí, parece que es así, que te has ido diciendo no sé qué cosa, que te ibas a tirar al Sena, algo por el estilo, una de esas frases de plena noche, mezcladas de sábana y boca pastosa, casi siempre en la oscuridad o con algo de mano o de pie rozando el cuerpo del que apenas escucha, porque hace tanto que apenas te escucho cuando dices cosas así, eso viene del otro lado de mis ojos cerrados, del sueño que otra vez me tira hacia abajo. Entonces está bien, qué me importa si te has ido, si te has ahogado o todavía andas por los muelles mirando el agua, y además no es cierto porque estás aquí dormida y respirando entrecortadamente, pero entonces no te has ido cuando te fuiste en algún momento de la noche antes de que yo me perdiera en el sueño, porque te habías ido diciendo alguna cosa, que te ibas a ahogar en el Sena, o sea que has tenido miedo, has renunciado y de golpe estás ahí casi tocándome, y te mueves ondulando como si algo trabajara suavemente en tu sueño, como si de verdad soñaras que has salido y que después de todo llegaste a los muelles y te tiraste al agua. Así una vez más, para dormir después con la cara empapada de un llanto estúpido, hasta las once de la mañana, la hora en que traen el diario con las noticias de los que se han ahogado de veras.

Me das risa, pobre. Tus determinaciones trágicas, esa manera de andar golpeando las puertas como una actriz de tournées de provincia, uno se pregunta si realmente crees en tus amenazas, tus chantajes repugnantes, tus inagotables escenas patéticas untadas de lágrimas y adjetivos y recuentos. Merecerías a alguien más dotado que yo para que te diera la réplica, entonces se vería alzarse a la pareja perfecta, con el hedor exquisito del hombre y la mujer que se destrozan mirándose en los ojos para asegurarse el aplazamiento más precario, para sobrevivir todavía y volver a empezar y perseguir inagotablemente su verdad de terreno baldío y fondo de cacerola. Pero ya ves, escojo el silencio, enciendo un cigarrillo y te escucho hablar, te escucho quejarte (con razón, pero qué puedo hacerle), o lo que es todavía mejor me voy quedando dormido, arrullado casi por tus imprecaciones previsibles, con los ojos entrecerrados mezclo todavía por un rato las primeras ráfagas de los sueños con tus gestos de camisón ridículo bajo la luz de la araña que nos regalaron cuando nos casamos, y creo que al final me duermo y me llevo, te lo confieso casi con amor, la parte más aprovechable de tus movimientos y tus denuncias, el sonido restallante que te deforma los labios lívidos de cólera. Para enriquecer mis propios sueños donde jamás a nadie se le ocurre ahogarse, puedes creerme.

Pero si es así me pregunto qué estás haciendo en esta cama que habías decidido abandonar por la otra más vasta y más huyente. Ahora resulta que duermes, que de cuando en cuando mueves una pierna que va cambiando el dibujo de la sábana, pareces enojada por alguna cosa, no demasiado enojada, es como un cansancio amargo, tus labios esbozan una mueca de desprecio, dejan escapar el aire entrecortadamente, lo recogen a bocanadas breves, y creo que si no estaría tan exasperado por tus falsas amenazas admitiría que eres otra vez hermosa, como si el sueño te devolviera un poco de mi lado donde el deseo es posible y hasta reconciliación o nuevo plazo, algo menos turbio que este amanecer donde empiezan a rodar los primeros carros y los gallos abominablemente desnudan su horrenda servidumbre. No sé, ya ni siquiera tiene sentido preguntar otra vez si en algún momento te habías ido, si eras tú la que golpeó la puerta al salir en el instante mismo en que yo resbalaba al olvido, y a lo mejor es por eso que prefiero tocarte, no porque dude de que estés ahí, probablemente en ningún momento te fuiste del cuarto, quizá un golpe de viento cerró la puerta, soñé que te habías ido mientras tú, creyéndome despierto, me gritabas tu amenaza desde los pies de la cama. No es por eso que te toco, en la penumbra verde del amanecer es casi dulce pasar una mano por ese hombro que se estremece y me rechaza. La sábana te cubre a medias, mis manos empiezan a bajar por el terso dibujo de tu garganta, inclinándome respiro tu aliento que huele a noche y a jarabe, no sé cómo mis brazos te han enlazado, oigo una queja mientras arqueas la cintura negándote, pero los dos conocemos demasiado ese juego para creer en él, es preciso que me abandones la boca que jadea palabras sueltas, de nada sirve que tu cuerpo amodorrado y vencido luche por evadirse, somos a tal punto una misma cosa en ese enredo de ovillo donde la lana blanca y la lana negra luchan como arañas en un bocal. De la sábana que apenas te cubría alcanzo a entrever la ráfaga instantánea que surca el aire para perderse en la sombra y ahora estamos desnudos, el amanecer nos envuelve y reconcilia en una sola materia temblorosa, pero te obstinas en luchar, encogiéndote, lanzando los brazos por sobre mi cabeza, abriendo como en un relámpago los muslos para volver a cerrar sus tenazas monstruosas que quisieran separarme de mí mismo. Tengo que dominarte lentamente (y eso, lo sabes, lo he hecho siempre con una gracia ceremonial), sin hacerte daño voy doblando los juncos de tus brazos, me ciño a tu placer de manos crispadas, de ojos enormemente abiertos, ahora tu ritmo al fin se ahonda en movimientos lentos de muaré, de profundas burbujas ascendiendo hasta mi cara, vagamente acaricio tu pelo derramado en la almohada, en la penumbra verde miro con sorpresa mi mano que chorrea, y antes de resbalar a tu lado sé que acaban de sacarte del agua, demasiado tarde, naturalmente, y que yaces sobre las piedras del muelle rodeada de zapatos y de voces, desnuda boca arriba con tu pelo empapado y tus ojos abiertos.

http://www.geocities.com/juliocortazar_arg/
De Final del juego Cortázar, Julio; Ceremonias, Barcelona, Seix Barral, 1994


Deezer.com

Pra quem quiser escutar música boa...

Anonimato


by Gisli Por

O anonimato é um privilégio de cada um de nós... respeitemo-lo.

Domingo, Dezembro 09, 2007

Livre-tradução, busco

por Escher


Desenhamos máquinas,
para desenhar computadores,
para desenhar máquinas,
para desenhar computadores,
para não desenharmos mais?!?



Vozes da Seca





O 'Velho Lua', o Rei do Baião




Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do poder
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chover
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem comer
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barragem
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudagem
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiagem
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa coragem

Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mão



Composição: Luiz Gonzaga / Zé Dantas




Extraia o sumo: CD Luiz Gonzaga e Fagner ABC do Sertao 1988





PS: já faz muitos anos que o 'Velho Lua' escreveu isto...

mas parece que foi ontem...

Sábado, Dezembro 08, 2007

Jardins de Iemanjá




por Julio Kon







E conta que Caminha avisou ao Rei:



"Aqui se plantando tudo dá".



E no mês de fevereiro



Há jardins de flores no mar



São os jangadeiros do Rio Vermelho,



Os jardineiros de Iemanjá





Inspirado em Jorge Drexler

Mestre Marçal









Mestre Marçal, um dos pais do samba. Conta-se que um dia foi ao hospital fazer exames do câncer de pulmão que acabou matando-o. Tirou a dentadura para fazer os exmaes de raio-x, e acabaram perdendo-a. Na saída ele disse para as enfermeiras:


"mas eu não posso sair daqui sem o meu sorriso".





Acharam a dentadura depois, numa caixa de sapatos.


Extraia o sumo: CD Mestre Marçal, TV Cultura Programa Ensaio


Yin Yang




From a successful Chinese man:

Six wonderful attitudes that I learned from Chinese and Western cultures:


Tolerance & Proactivity
Humility & Self-confidence
Empathy & Courage


Food chain, reversed


O rato disse ao gato que avissasse ao cão:

não venhas ter comigo, meu coração frio há de te fazer mal.


O cão retrucou ao gato que fez saber ao rato:


e o meu é quente, há de bastar para nós dois.


Do parador, o gato viu os dois partirem juntos rumo ao infinito.

Peter Drucker





Peter Drucker, one of the most insightful minds in a very long time:



The 21st century will be the century of choices, (… not the century of the internet).




The best way to predict the future is to create it.


Plus Ultra




Passou muito tempo mas descobri que o mundo é de fato redondo. Ainda bem, antigamente devia dar um medo danado viajar longe de casa, atravessar mares que podiam acabar a qualquer instante.

Macchapputre





Macchapputre, the son,

embraced by Annapurna, the mother.
Segundo a crença nepalesa

Once upon a time, at a mountain in Nepal





From Setu, a holyman:


You are very lucky to be here. This is a heavenly place. You should be thankful to be here. Because of your parents and ancestors you are able to be here today. So, be also thankful for them.
* * *
You need to be respectful to women. Treat your wife, your girlfriend, with the same respect as if she was your mother. There is reincarnation. Sometimes mothers return as girlfriends. You never know, so respect them.
* * *
It begins with one man, one heart, and one woman, another heart. Then, they meet, they fall in love, they marry, and two hearts become one. Then a child borns, and it becomes two hearts again. And the cycle of life continues.

* * *
Wise man is good man, but not the best man.

Livre-tradução, busco






Becos escuros.
Chuva fina.
Casa em demolição.
Pistas esburacadas.
Perdido.
Frio.
Com medo.
Nas calçadas, cães dormindo e ratos acordados.

Alma Feminina


By LalliSig


Quanto mais conheço,
menos entendo,
e mais admiro.
Duvido,
Que conhecerei menos,
que entenderei mais,
e que admirarei menos.

Nus







by Lauren Rabbit





Osso expostos.



Vísceras, veias multicolores, órgãos ali abertos de frente aos olhos curiosos.



Tudo devidamente codificado, etiquetado, à vista, organizados em vitrines.



Ali mais à frente uma delas guarda nosso couro, vazio de nós mesmos.



O que sobrou, desnudo de nós mesmos.


Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Felizes no Nepal




आनंद
anand, felicidade

आनंदी
anandi, feliz
Quiçá um jeito diferente de ser feliz.


Groene ogen


by Tristan Savatier


Old wishes, antique desires.
Green gems.
The background, red veins.
The frame, your eyes.

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Fusion cuisine: às vezes dá certo, às vezes não... (1)

Ok, reconheço que já se passaram vários anos desde o dia que minha mãe me mostrou a luz do dia; tarde de sol em Brasília, diga-se.

Volta e meia me encontro falando de coisas do 'meu tempo'. Haja vista que 'meu tempo' continua a ser meu, bem-vivido, creio. Todavia, algumas primaveras já se passaram, admito.

Não obstante anseio pelas vindouras. É como costumo dizer nos meus encontros soteropolitanos de verão: este carnaval foi bom demais! Melhor do que este só o do ano que vem.

Mas como eu dizia... no 'meu tempo' chamava-se de mistureba. Hoje é mais polido falar de fusion cuisine. Mas como já avisava a cultura popular: às vezes dá certo, noutras vezes...

Um dia misturaram farinha, dendê, cebola e castanha-de-caju (suponho que o camarão seco veio depois...), e inventaram o vatapá. O qual, imagino, tenha significado literalmente: "vá tapar a tua fome com estes únicos restos que tenho na cozinha".

Adoro cozinhar peixes com frutas cítricas, e farofa de milharina com maracujá, que são sempre sucesso.Todavia, felizmente, imagino, nunca vi acarajé de brigadeiro, e só de imaginar...

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Fusion cuisine: às vezes dá certo misturar, noutras vezes… (2)


Ou foi o sol no caminho de volta, ou foi o pepino no caminho de baixo. Fato consumado, é que passado quarenta anos desde aqule fatídico dia o 'Velho' não podia nem olhar para o dito sem ânsia de vômito. E logo ele que gabava-se à mesa de "comer de tudo", ou melhor, quase tudo.

É como eu dizia, às vezes dá certo misturar, noutras vezes…

Para alguém que como ele julgava fatada de bode, ou salmão defumado, iguarias únicas, a pecha do pobre pepino soava grotesca.

Empunhando a curiosidade ímpar e sagacidade que possuem as crianças, lancei ainda cedo o questionamento ao ‘Velho’ sobre o porquê da birra contra aquela inocente leguminosa de sabor tão delicado.

Entre várias caretas ele me contou a paródia. Adolescente, morava no interior da Bahia. Era festa do padroeiro da cidade. Decidiu, junto com os amigos, caminhar até a fazenda do pai, e voltar com alguns cavalos para participar do desfile. Depois de algumas horas de caminhada, debaixo do sol sertanejo que por aquelas bandas alcança, e sobre a areia que consome um pedaço mais cada vez que o pé afunda, uma combinação maldita, frisou, chegaram à fazenda. Para quem tinha a esperança de encontrar a mulher do caseiro, e uma galinha gorda que aplacasse a fome, a visão da casa fechada e vazia foi trágica. Arrombada a porta só encontraram banha, sal, farinha, e o tal do pepino. Enquanto alguns buscavam os cavalos e cuidavam das selas, o ‘Velho’, que já era dado a cozinheiro desde aquele tempo, ficou por ali mesmo misturando no fogão de lenha o pouco que havia. Pronta a gororoba, se puseram ávidos a ingerir aquilo que acalmaria a fome trucidante. E assim foi feito, até o último pedaço.

No caminho de volta ainda podiam contar com o sol sobre a cabeça, mas salvavam-se os pés, ora substituídos pelas patas eqüinas. Quando alcançaram a cidade, ansiosos por um banho, e uma farda bonita para o desfile, despediram-se. E cada um para o seu lado seguiu, com vistas a encontrarem-se mais tarde à frente do desfile.

Bem, este era o plano, sussurrou o velho, enxugando o suor da testa, trazido pela lembrança amarga. Conseguiu chegar em casa ainda a tempo de alcançar o banheiro. Poderia ter sido mais humilhante, imagine só a cena ainda piorada de calças com aquelas manchas inconfundíveis que por vezes juntam-se ali pelas costuras e dobras, grifou ele. Horas, e dias, se seguiram àquele martírio inicial. Epasmos, contrações, dores, suores, tonturas, febres etc, dava quase um compêndio médico a ladainha. Ora por vias gástricas abaixo, ora pelas vias superiores, fato é que quase nada sobrou naquele corpo magro ao fim dos dias de sofrimento.

Com o tempo conseguiu recuperar-se da paúra da farinha, banha e sal. No entanto, a mera menção da palavra ‘pepino’, diga lá a visão de um deles, era suficiente para fazer o estômago dar umas cambalhotas.


"És um senhor tão bonito, tempo, tempo, tempo"... (CV)




Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô. Vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal. Mesmo assim, durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares. Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.


A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte. A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife.

(...)

Tempo.
Talvez um luxo para a mulher que surgiu apressada na escada rolante daquela manhã no metrô de Washington, segurando a mão de seu filhinho de 3 anos. O menino aparece no vídeo virando a cabeça várias vezes, tentando olhar para o violinista, enquanto é puxado pela mãe. Queria parar um pouco para ouvir a música. Mas a mãe estava sem tempo.

por Marcia Bindo

Domingo, Novembro 18, 2007

Outono





As folhas caídas, árvores nuas, e outras cobertas com distinto matizes de amarelo, me dão conta de que já é outono. Pássaros também quase não os vejo mais, restam apenas os pombos . É outono, avisam com a sua ausência. O sol destas
paragens, no entanto, ainda esquenta meu couro. Vale.

Sábado, Novembro 17, 2007

Orgias

- Alô?

- Alô cara, beleza?!?

- Ôpa, tava esperando tua ligação. Tudo certo pro bacanal?

- Tudo sobre controle. Acabei de passar o último treino com o pessoal todo reunido.

- Faltou alguém?

- Um casal de anões, três odaliscas núbias e o dromedário.

- Pô, logo o dromedário?

- Pois é, só tinha camelo disponível.

- Mas aquele camelo brocha do ano passado foi uma tragédia.

- Eu lembro, não teve catuaba, pílula azul, chute no saco ou zebra virgem que desse jeito no desgraçado.

- Mas zebra virgem também, fala sério...

- Tu esperavas o quê? Que eu arranjasse uma camela virgem às duas da manhã?!?

- Tudo bem que nós tentamos. Ainda bem que tinha aquele teu primo tarado que arranjou a zebra virgem. Ele vem este ano de novo?

- Tá maluco? Esqueceu que tivemos que acorrentar aquele doido no estábulo?

- É verdade. Quando chegamos lá ele já tinha violentado duas ovelhas, faturado a égua e estava encarcando no pobre do jumento.

- É mesmo, nem o jerico escapou.

- E o tarado ainda papou a zebra virgem no dia seguinte.

- É, já que o camelo não quis...

- E o trabalho que deu para devolver para o circo, tu lembras?

- O veterinário sem saber se a zebra estava grávida e que bicho ia nascer dali. Ia ser teu sobrinho...

- Pô, nem brinca com estas coisas.

- E a segurança?

- Confirmado, forças especiais do lado de fora, e 98 eunucos na área interna.

- Mas não eram 100?

- Dois não passaram no teste, sentiram cócegas.

- E qual maluco você arranjou para fazer o teste com os eunucos?

- Lembra daquela bicha desvairada que era meu vizinho?

- O que foi fantasiado de ambulância no revéillon na tua casa?

- O próprio, com aquela lanterna piscando na testa, imitando sirene, e a roupa branca e vermelha aberta atrás.

- E ele correndo pela casa com a sirene e a lanterna, enchendo o saco de todo mundo que estivesse fantasiado de médico ou doente, e mandando entrar na ambulância pela porta dos fundos.

- Até teu cunhado que estava de Frankstein ele pertubou.

- Pois é, nem o Frank escapou.

- E o quê que você ofereceu para ele aceitar o trampo?

- Uma grana e disse que ele podia ficar com cada pinto que ele achasse no teste.

- Então ele se deu mal. O que diabos ele vai fazer com dois meio-eunucos?

- Sei lá, mas ele também ficou desconsolado e pediu uma caixa de pilhas para o vibrador e um balde de graxa.

- Pô, balde de graxa é demais.

- E você queria que eu fizesse o quê, que eu fosse no lugar dos eunucos? Tá maluco?

- Você tem razão. Te vejo à noite. Viva as odaliscas núbias!

- Abraços. Viva as núbias!

PS: inspirado no Veríssimo.

Mapamundi



Mapa mundi baseado em Ptolomeu, Geografia.

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Som Barato

GENIAL ESTE BLOG!

Tem uma enormidade de música brasileira de excelente qualidade, incluindo algumas raridades, gravações originais etc. Tudo de bom, sem vírus e gratuito!
Altamente recomendável.

Extraia o sumo

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

La Solera

Duas salas pequenas, com azulejos quiçá feitos à mão. A vibração decrescente das cordas indicava que há pouco haviam sido dedilhadas; um tempo só seus de ser. As palmas, compassadas ao sapateado, davam conta de um outro tempo. A voz peculiar, cigana, entoava uma música idem. Alguns presentes produziam um bater de palmas solidário. Abstive-me, absorto, e mirei apenas o que me sobrava do Jerez na taça. Vozes outras, curtas, baixas, entrecortavam o pouco silêncio que deixavam escapar. Todos embriagados do sabor flamenco dali. Os cantores e tocadores se revezavam entre aparições, inspirações e improvisos. Compreendi um pouco mais de ti.

Linda Um e Linda Dois


Havia duas, uma loira e uma morena, igualmente soberbas. Pensava em matemática, herança antiga, vício antigo. Houve quem já a considerou a "mãe de todas as ciências". Felizmente há o mundo além das ciências, ditas exatas. Há cheiros, gostos e amores, que rogo, nunca possam ser transladados para insípidos algoritmos. Além da beleza ímpar que ambas possuíam, nada mais podia inferir, nem de onde vinham nem para onde iam. Na ausência de inspiração melhor ocorreu-me chamar-lhes apenas de 'Linda Um e Linda Dois'. Saliento que neste caso Dois não é maior do que Um. E que se preservem os limites da matemática.

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Sons do Nepal




Som de montanha, floresta, vento e cachoeira.
Som de silêncio.

Som de fogão à lenha, comida caseira, de roxy sendo destilado.

Som de satisfaçaão.

Som de poluição, lixo, tráfico, bandas cover.

Som de ruídos.

Som de afagos, beijos, gemidos.

Som de prazer.

O belo





Que salud haya, porque belleza me sobra.
Dito cubano

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Madrid

Hoy te miré desnuda en la noche. Sí, por la primera vez. Tenía flores en tus venas y aires casi di verano, mientras el otoño que si acercaba. La miraba desnuda, encantado con las cosas que ti cercaban. Me acercaba de tu Buen Retiro y tu Prado, pasé por el Sol y la Mayor. Por supuesto que tenía la expectativa más grande de todo más que podría de haber en el sol que empezaba por (des)cubrirte, como mi alma.


Resignação


Cala-te.

Encerras teus conflitos.

Acatas o que é teu, e sempre foi.

Vens saber da “dor e delícia de seres o que é".


Terça-feira, Setembro 18, 2007

Princesa

Roupas rotas, corpos idem.

Dois cães brincam.

Vários homens conversam, conversa solta.

Uma estátua desconexa do seu tempo de glória a tudo assiste e nada diz.

A ponte sobre o rio completa a moldura daquela noite.

Alguma luz pousa sobre nossos corpos ali sentados.

Um miúdo com os pais quer dizer algo.

Pais silenciosos, absortos em suas drogas.

A música polifônica cessa.

Partimos rumo à tasca.

Ergue-se a princesa disfarçada de tigresa.

O vento sopra sua capa, e traz-me o perfurme de maracujá.

Talvez um beijo negro me aguarde.

Talvez.

Seios

Tento, sem muito sucesso, e com pouco esforço real, desviar meus olhos daquela blusa de flanela azul. É bastante fina, sem ser transparante. O bico dos seus seios, belos, bem formados, destaca-se na calmaria azul. Nos braços, por sobre as ombreiras, entrevejo traços de uma tatuagem, algo com um ramo, uma flor. Parece cobrir-lhe um pouco da nudez. Por quê, se tão bela?!? No rosto sóbrio, um brinco no nariz chama a atenção. Mas o olhar tranquilo me faz sorrir. Da TV, grudada na parede próxima, o comentarista grita um gol qualquer. Aproveito a distração dos presentes para mirar-lhe longamente os seios, imaginar-lhes a cor, a textura, o sabor. Inspirado em alguma perversão, nalguma fantasia erótica, sonho em abocanhá-los, com paixão. Penso em tocar-lhes, beijar-lhes, com carinho, mas sem abster-me de mordiscar-lhes com severa paixão. Julgo ainda sugá-los, metê-los de uma só vez na boca e pôr-me a brincar com a língua ao seu redor. Dura pouco o sonho. Levanta-se. Permito que vá sem dirigir-lhe palavra alguma. Um outro grito do comentarista me traz de volta à “realidade televisiva”.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Merci


It’s 9AM. The alarm is punctual. It buzzes and ends my fuzzy dreams. I search for the snooze button. I reach it. I look for you on the bed. I cannot find your shoulder, your lips, the smell of your body. Reluctantly I open my eyes and stare at the ceiling, while scanning my mind for your memories. I am lucky, there are plenty of them to fill up the space. The dirty ceiling of that cheap hotel is suddenly filled by the immensity of your blue eyes.

The alarm plays again. I repeat the movement of silencing it; now and then, few times. I resist leaving the bed. The half-sleep image of your eyes is by far a more pleasant sentiment. Eventually, the relentless alarm convinces me to move my body away from the bed. That linen, that mattress, that pillow, do not contain any of your fragrance, which helps me to get up.

I finish packing my small bag. I leave my camera outside. The millions of pixels containing your smile should suffice to comfort me until the next destination, until I can touch the real thing again.

In the back of my mind one question only: “When are you coming for dinner?”

Slow food, slow love, whatever time it takes… I feel like telling you a million words, if you could listen to tem, but I decide for one only: “Merci”.

Blue eyes

She was awaiting for me, sitting at the bar. The skirt was above the knees. The glasses framed the blue eyes. The short hair was harmoniously messed up. Two fingers were playing with her eyebrows. The lips produced a beautiful smile when she saw me. I was late, as usual. As I approached her, half kissing, half apologizing, she simply kissed back to me and smiled. I was not sure if she heard my apologies, but it obviously didn’t matter anymore. We took off the shoes, walked into the lounge and found a corner for us among the pillows and candles. A live band in the building across the street was courteous to play it loud, enough for our not so distant ears. The live tunes mixed well with the local lounge music, the talking around us and our half spoken words. The vibe was great. We had just come from a local restaurant. Before that, we traveled on the dirty streets of that poor city. Before that we chatted at lobby of the hotel that hosted our bodies. And further away from the present, there was emptiness; we hadn’t met each other yet.

The plans for the day, the next week, were as simple as our conversations, our desires. We decided to get away from the city, somehow, and go to the mountains. Few expectations and plans, simple simple, easy easy.

Left my cigarette in her hands, and kissed her again. The eyes were not open. My hands found their frame on her fingers, and my head over her shoulders. Closed my eyes.

De Brasília para Lhasa

Peço uma cerveja local, Lhasa Beer – beer from the top of the world, a uns 3.500 metros de altitude a frase faz sentido. Durante o dia o céu é azul, com poucas nuvens. À noite, o brilho das estrelas compete com o da lua. Ao redor, montanhas. Em algumas enxerga-se o cume coberto de neve que esnobam do sol de verão. O céu me faz lembrar de Brasília, igualmente belo e limpo. No nosso “vale”, porém, a única montanha é na estrada para Sobradinho, e apesar do frio de julho não consta que tenha nevado alguma vez no Posto Colorado.

Day or night?

The golden stars were shining, something to do with hydrogen being converted to helium, I recall. Their bright light was present in most of the space. The black light covered the rest of the darkness, untouched by the stars. Would it be day or night outside? I asked my realm.

Ephemerous

The band finished playing. I took the chance and sat down. Cleaned the sweat and ordered a beer. My eyes scanned around me. Not far from my table I spotted her, two couples and her, alone. The waitress delivered her fancy cocktail. Our eyes crossed. I stared at her and she at me. I thought about approaching her. But the fear of rejection was still greater than the expectation of joy. I ordered a second beer, while searching for her eyes again. But the friends had her attention now. I decided to go to the bathroom. I guess it was the subtle hope that the alcohol would tilt the fear-pleasure scale. When I returned the table was empty, the check paid. She was gone without a name, without a trace. I finished my beer, dropped few bills from my wallet, and closed the door of the bar behind me, alone.

Espelho


Fragmentos de espelho presos ao teto.

Fragmentos de meu corpo ali refletidos.

Penso em juntar as peças.

Tarefa difícil, falta sempre um pedaço.

Talvez se eu quebrasse um pouco os cantos.

Talvez se eu aparasse as arestas.

Deveria usar apenas tamanhos padrões.

Deveria acabar com estes pedaços feitos sobre medida.

Confundir-me na multidão, mais um . na multidão.

Contraditório encontro


Acontecia todos os anos, mais ou menos, quase sempre, ao redor da mesma data. Havia quem trouxesse presentes caros. Havia os que trouxessem bebidas, frias ou quentes, e ainda, por vezes, caipirinhas de carambola e rapadura. Havia quem trouxesse o que de comer, fruto de laborioso misturar de ervas, castanhas, azeite e suor. Havia ainda quem trouxesse sorriso, simples, sincero, amigo. Havia de todas as tribos ali presente, diferentes dialetos de uma mesma língua-mãe. Vinham de todas as partes, intenções contraditórias, por vezes; razões uníssonas, no entanto. Juntavam-se ali todos ali para vê-la e poder dizer: Feliz aniversário!

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

Neruda




Com muita humildade
Fiz estes sonetos de madeira
Dei-lhes o som desta opaca e pura susbtância (...)



Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor

Sabor Nordestino


Se me queres cajuí
Desejo ser doce e raro
Deixar no teu corpo o cheiro
Dos cajueiros nordestinos

Desejo ser cajuína
Saciar tua sede
Com os beijos sonoros
Dos passarinhos empapuçados

Desejo ser “pé de tonel”
Embriagar teus sentidos
Aquecer teu corpo
Com meu pequeno caju em flor

Lília Diniz
Poetisa maranhense

Segunda-feira, Maio 28, 2007

The End


Os vestígios dos antigos dissabores românticos se escondiam entre cartas apaixonadas, discos do Pixinguinha deixados para trás, ou eventualmente uma foto emoldurada na sala. Hoje nossas reminiscências de amor são encontradas em pedacinhos de silício dentro da máquina digital.

Esqueci-me de deletar os zeros-e-uns que contêm o teu sorriso.


Domingo, Maio 27, 2007

In my dreams only


Sitting in a chair, going through my own reminiscences, found her image. If she was still alive, she might have written:

I tried to hide my desires for him behind my fears and concerns, until today. Today we made love again. It was not like the first time. The intensity, the flesh, the passion, the sweat, were all the same. The pleasure of his kiss, the warmth of his hands, the incredible feeling when he first went inside, the sensation of looseness that followed, were also the same. But today we had more time to know each other, to savour each other, to discover each other.
The night didn't start well. A senseless discussion about a senseless matter. I argued with him, and repeatedly made clear that I didn't want his countless kisses, his close attention and his soft touches. I lied. I was confused. My heart, still divided between past and future, held the infamous bridge that caught me. I was a prisoner of my own sentiments, aspirations and desires.
I finally succumbed to his charm. It was something in his eyes that I could not elucidate, but which still made me ebrious.
The bridge still existed. But a dash of courage and a sac of desire made me cross it. And once again I gave myself to him; every inch of my body belonged to him; every portion of me was touched by him; sometimes by his strong hands, other times by his tongue that covered my body; still in other occasions the rest of his body rubbed over me as if cleaning myself from previous encounters, as if in preparation for a divine ritual.
My soul had displaced off my body, in a state of mercurial ecstasy. Sometime later, I returned, and could only notice the wet body of my warrior laying over mine, still breathing vividly in my ears.
But I must confess, she never died. And she has never lived, only in my sweetest dreams.

Quinta-feira, Maio 17, 2007

Blood diamond




Sempre achei o DiCaprio um ator medíocre, até ver este filme.


Terça-feira, Maio 08, 2007

Orgias

- Alô?

- Alô cara, beleza?!?

- Ôpa, tava esperando tua ligação. Tudo certo pro bacanal?

- Tudo sobre controle. Acabei de passar o último treino com o pessoal todo reunido.

- Faltou alguém?

- Um casal de anões, três odaliscas núbias e o dromedário.

- Pô, logo o dromedário?

- Pois é, só tinha camelo disponível.

- Mas aquele camelo brocha do ano passado foi uma tragédia.

- Eu lembro, não teve catuaba, pílula azul, chute no saco ou zebra virgem que desse jeito no desgraçado.

- Mas zebra virgem também, fala sério...

- Tu esperavas o quê? Que eu arranjasse uma camela virgem às duas da manhã?!?

- Tudo bem que nós tentamos. Ainda bem que tinha aquele teu primo tarado que arranjou a zebra virgem. Ele vem este ano de novo?

- Tá maluco? Esqueceu que tivemos que acorrentar aquele doido no estábulo?

- É verdade. Quando chegamos lá ele já tinha violentado duas ovelhas, faturado a égua e estava encarcando no pobre do jumento.

- É mesmo, nem o jerico escapou.

- E o tarado ainda papou a zebra virgem no dia seguinte.

- É, já que o camelo não quis...

- E o trabalho que deu para devolver para o circo, tu lembras?

- O veterinário sem saber se a zebra estava grávida e que bicho ia nascer dali. Ia ser teu sobrinho...

- Pô, nem brinca com estas coisas.

- E a segurança?

- Confirmado, forças especiais do lado de fora, e 98 eunucos na área interna.

- Mas não eram 100?

- Dois não passaram no teste, sentiram cócegas.

- E qual maluco você arranjou para fazer o teste com os eunucos?

- Lembra daquela bicha desvairada que era meu vizinho?

- O que foi fantasiado de ambulância no revéillon na tua casa?

- O próprio, com aquela lanterna piscando na testa, imitando sirene, e a roupa branca e vermelha aberta atrás.

- E ele correndo pela casa com a sirene e a lanterna, enchendo o saco de todo mundo que estivesse fantasiado de médico ou doente, e mandando entrar na ambulância pela porta dos fundos.

- Até teu cunhado que estava de Frankstein ele pertubou.

- Pois é, nem o Frank escapou.

- E o quê que você ofereceu para ele aceitar o trampo?

- Uma grana e disse que ele podia ficar com cada pinto que ele achasse no teste.

- Então ele se deu mal. O que diabos ele vai fazer com dois meio-eunucos?

- Sei lá, mas ele também ficou desconsolado e pediu uma caixa de pilhas para o vibrador e um balde de graxa.

- Pô, balde de graxa é demais.

- E você queria que eu fizesse o quê, que eu fosse no lugar dos eunucos? Tá maluco?

- Você tem razão. Deixa pra lá. E as diversões, alguma novidade?

- Tem algumas, mas eu estou apostando naquela inspirado nos quadrinhos.

- Vai ser um sucesso. Vai ter gente fazendo fila para pegar um anão besuntado,...

- E mergulhar no caldeirão de fondue!

- Só quero ver depois do fondue...

- Ou pior, se o anão cair dentro do pote.

- Como anão sofre.

- Pois é. Te vejo à noite. Viva as odaliscas núbias!

- Abraços. Viva as núbias!

PS: inspirado no Veríssimo.


Sexta-feira, Maio 04, 2007

Nada


Guernica, by Picasso


Dizia-se dele: era tão triste e tão preguiçoso que gastou a vida inteira para matar-se. Não buscou outro que o fizesse. Entreteu-se a si mesmo com o sórdido trabalho. O fazia com pouca continuidade, sem nenhuma paixão, esforço ou desejo. Fazia-o porque havia de ser feito, diria a si mesmo se ousasse ter perguntado. Mas nunca o fez, e não mais o fará. Não era de arroubos, ousadias ou destemperamentos. Tinha sobretudo uma preguiça de sê-lo, ou de qualquer outra coisa ser. Preferia o nada. Nada ser, nenhum título a ostentar, nem amores passados ou presentes. Do ócio, a manutenção, mínima necessária. Abandonara o nome também, há muito, era assim mais fácil não explicar de onde vinha, muito menos para onde iria. Assim levou, assim foi levando. Buscava nada aprender, para nada ter que lembrar. Pouco esforço fez para manter as imagens, gostos, cheiros do passado. Tudo era passado. O passado era etéreo, mercurial, foi-se logo também. O passado não é e nunca lhe foi nada. Nada de devaneios sobre origem, tramas, ideais, ilusões. Nada. Na derradeira hora ainda pensou em buscar um copo d’água gelada, mas de que serviria matar a sede? Desperdício do tempo que escorria, últimas gotas. Ou seriam os últimos grãos de areia na ampulheta? Foi, no dia em que a tristeza alegrou-se, vencera a preguiça. O sol raiou, o sol se pôs, também não deu pela sua falta ao partir. Quem daria? Amigos nunca os teve, parentes não passavam de um espaço vazio no escaninho da sua mente. Espaços vazios, espaços vazios, espaços vazios... a única presença que ocupava era de seu corpo magro, maltrapilho, cuja silhueta e cheiro fétido abriam espaço onde passava. Talvez dissessem algo dele, ou para ele, mas nunca os escutava. Eram do lado de lá, do lado de fora de si, sem importância, sem ter que ser. Se parasse teria que ouvir, replicar, ouvir novamente. Não, não seria o caso. Para quê afinal? Não era nunca nada. Nada, nunca. Não tinha com bichos ou crianças. Não tinha que ter com ninguém. Infanticídio teria sido mais curto, mas não disse a nenhum que o fizesse. Não podia ter com outros. Tinha um muro, onde se recostava, onde descansava sua preguiça de nada ser. E deste não fazia questão de sair. Levava-o dentro de si. Talvez tenha sido seu maior esforço em vida, seu muro imaginário. Dos poucos pensamentos que engendrou, houve uma pequena curiosidade, passageira, do corpo que carregava, e das chagas e pústulas que se seguiram. Como ousava funcionar, dar de si, sem sua autorização, sem seu consentimento? E não havia sequer uma alavanca fácil de empurrar que desligasse o motor... seguia como o bondinho com seus fios e cabos ligados a algo que o fazia andar, sem nenhum motor à vista que cuspisse fumaça. Nunca soube como, nunca quis saber destas coisas. Coisas sem importância para alguém como ele. Sabia não ser nada especial, nem especial em nada. Se livros tivesse lido diria ou pensaria em palavras, mas estas demoravam em chegar, em ler, em experimentar. Manuseva imagens, sons e cheiros, simples como o resto de si. Nada tinha na memória, que lembrar, nada tinha na alma, que sentir. Não sentia frio, tristeza, fome, solidão, nada. Se pensasse talvez imaginasse que fosse a mesma arbitrariedade que fazia seu corpo funcionar, sem o seu consentimento. E tirar-lhe a vida, desligar a máquina, baixar a alavanca que não sabia existir, demandaria esforço, e de nada valeria. Nada fez para viver, nada fez para morrer. Foi, um dia.


Copo vazio, cadeira vazia




Copo Vazio

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.

É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.

Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

by Gilberto Gil


Anda fogo! Corre chama! Queima tudo! Leva a cinzas o que já foi carne. Transforma em calor e pó o que já foi vida. Hoje sei que nada sei. E de nada saber não sei se há vida pós-morte. Hoje senti tua falta. Senti falta das tuas palavras, dos sonhos, dos risos, das lágrimas. Falta das alegrias compartilhadas, das tristezas embriagadas. Ainda tenho o teu cheiro de carne queimada nas entranhas. Não sei se nunca chegarei a tirá-lo de dentro de mim. Talvez não, quem sabe tua última lembrança. Não é fraterno e carinhoso como teu abraço mas vale assim mesmo. É uma sinapse apenas. Uma dentre bilhões de outras que me fazem recordar a senha do banco, ou a cor do meu carro. Mas essa me faz sorrir. Não, não sei se há morte após a vida, mas meu sonho é mais doce com esta ilusão de nos encontrarmos novamente.




Deus Sol, Deusa Lua



ny Robert LaDuke


Não confies na lua, ela não tem horas certas de ser como o sol. É mutante em suas formas, cores e trajetórias. Não lhe cabe o sentido de ser, de vir, luzir e se ir. Há dias que vem. Há dias que falta. Há dias que brilha forte. Há dias em que aparece discreta, quase sem querer aparecer. Dê-se ao sol, que este há de te cuidar melhor, com calor, com atenção, com destino certo, com horário certo. E se quiser mesmo voltar a vê-lo no mesmo lugar terás que esperar um ano apenas. E o que é um ano para uma vida inteira? Um tempo breve de ser. Vem comigo, vamos ter com o sol. Esquece-te de embriagar-se com a lua que engana ser grande quando esbanja-se na noite. Deixa-a lá. Esquece-se dela. Não te acalentarás o corpo ou a alma frios. Ilude-te. Vives-tu da realidade que o sol traz. Vem comigo. Vamos caminhar sob o sol e dar-lhe nossa pele para que doure, tal qual plantas e suas folhas, ou como os pássaros lhe dão seu canto cedo, mesmo antes dele cá vir. Vem comigo ser o sol. Vem brilhar.

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Aganjú

Te esperei na lua crescer
Ví cadeira boa sentei
Espirrei na tua gripei
Por ficar ao léo resfriei

Você me agradou me acertou
Me miseravou, me aqueceu
Me rasgou a roupa e valeu
E jurou conversas de deus

Aganjú, Aganjú, Aganjú
Aganjú, Aganjú, Aganjú

Quem sabe a labuta quitar
Sabe o trabalho que dá
Batalhar o pão e trazer
Para a casa o sobreviver

Encontrei na rua a questão
Cem por cento a falta de chão
Vou rezar prá nunca perder
Essa estrutura que é você

Aganjú, Aganjú, Aganjú
Aganjú, Aganjú, Aganjú


by Carlinhos Brown


PS: E na versão lounge da Bebel (Latin remix) ficou um arraso!

http://radio.terra.com.br/busca/musicas.php?musica=Aganj%FA

Conectado com Deus


by Michelangelo


Procissão

by Gilberto Gil

“(...)
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao Deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar.”



Fui ter com os Deuses. Não que houvesse um plebiscito mundial para escolher um representante da humanidade para tal tarefa, nem tampouco era eu candidato oficial. Ocorreu naturalmente, rodada de bar, os amigos ali reunidos, copos pela metade, sobriedade idem, engedraram a trama. Começou com um Corinthiano – Corinthiano é fogo – “vai lá, fala com Deus, você fala bem em público, conhece muita gente, tenta ver o que você arranja, qualquer melhoria é bem-vinda. Como está é que não dá”. Outros se seguiram, e à medida que as garrafas secavam o coro aumentava. Mais gente ia juntando. O portuga dono do bar, feliz com o movimento extra, começou até a me oferecer uns bolinhos frescos de bacalhau, por conta da casa. O negócio virou quase comício, gente se amontoava à porta para ver o que se passava. A maior parte dos transeuntes quando se inteirava que tinha um que se propunha a interceder junto à galera do andar de cima, pedia uma gelada e gritava alguma coisa de apoio lá do fundo. Quando ouviam que não tinha dízimo a ser recolhido, pediam mais uma e apoiavam mais efusivamente a empreitada. Eu dizia que não, argumentava que havia melhores quadros no partido, fiz das minhas para me livrar da tarefa, mas não teve jeito, fui aclamado quase que por unanimidade. À exceção de um que se embriagava de gin e gritava: “ruim, por ruim, vote em mim”. Saí de lá chumbado, mas eleito, aclamado. Não me deixaram sequer pagar minha parte do induto ao portuga. Fiquei na dúvida se o faziam por apego à causa, ou se já vislumbravam alguma possibilidade de tráfico de influência.

Cheguei em casa trôpego e ansioso por dividir a novidade. Comuniquei a nomeação à patroa. Ela não deu muito ouvido e avisou que tinha lasanha no forno. Continuou assistindo a novela.

No dia seguinte peguei o terno no fundo do armário e mandei para a tinturaria para tirar o cheiro de naftalina. Tinha duas preoucupações, como escolher os pedidos, e como achar a galera. Demandas não faltavam: o Flamengo estava na pindaíba, segundo os jornais americanos a floresta amazônica ia ficar do tamanho da floresta da Tijuca, Fidel ainda estava vivo, a África continuava uma lástima, o Bush foi reeleito, o sapo barbudo idem, o aquecimento global prometia praia em Brasília (jóia!), mas o fim de Ipanema (nunca!), e a lista não tinha fim. A outra preoucupação obviamente era achar um jeito de contactar a galera: Mãe Meninha do Gantois faleceu há muitos anos, o oráculo de Delfos aposentou-se (stress?), as companhias telefônicas pararam de distribuir catálogos onde antigamente se encontrava quase tudo. No desespero lembrei do sobrinho que era gerente numa empresa de informática em Brasília. Liguei para o garoto à cata de alguma sugestão. Ele recomendou o Google. Falei que lembrava do AltaVista, MetaCrawler, Netscape e outros. Ele explicou que já tinham levado o mesmo fim que Delfos.

Meio desconfiado, e sem entender as forças ocultas que existiam por detrás deste novo oráculo, ataquei-o assim mesmo. Segui as coordenadas do sobrinho e achei o dito. Sem muita cerimônia digitei lá: how can I talk to God? (não sabia se o cara era monoteísta ou não, mas resolvi ser conservador na pergunta). As respostas, digo, links, que se seguiram, foram mais ou menos as seguintes:


God can change your life

Jesus Christ

Prayer site for children

iGod Chat with God

I Can Talk To God

Kids Talk About God - An Online Service Helping Christians Inspire ...

I want to talk to God and ask why!

BBC - Press Office - George Bush on Elusive Peace

God and Evolution

Nine Ways Not to Talk about God, by Raimon Panikkar


Após apertar alguns botões aqui e acolá optei pelo iGod (não vi nenhum logo da Apple, mas ainda assim fiquei na dúvida se tinha o dedo do Steve Jobs na parada).

Anunciava no sutiã - aquele negócio que suporta o título, não o outro suporte - em inglês, “arrependimento facilitado”. Gostei. Tinha umas coisas meio atrasadas mesmo. Apertei o botão onde dizia: aperte aqui. Abriu uma janela que anunciava: você está falando com Deus. Tentei algumas coisas antes, para testar. O diálogo foi assim, em inglês:

- Eu: Detesto o Bush (I hate Bush).
- Deus: Honestamente acho que você deve se sentar, tomar um calmante e repensar as coisas (I honestly think you should sit down, take a stress pill, and calmly think things over). Eu: É eu sei, é duro aguentar o cara.

- Eu: Eu detesto o Lula (I hate Lula).
- Deus: Por quê você o detesta tanto?
(Why do you hate it so much?) Ai eu pensei: Tá maluco?!? Você é terapeuta, Deus ou cego?

- Eu: Espero que o Flamengo ganhe. (I hope Flamengo wins).
- Deus: Por quê você tem esperanças? (Why do you hope for it?)
Ai eu pensei: É eu sei, tá difícil.

- Eu: Você pode facilitar as coisas para nós? (Can you make things easier for us?)
- Deus: Sim eu posso facilitar muitas coisas para vocês. (Yes I can make things easier for us).
Ai eu pensei: Massa! Agora estamos conversando.

- Eu: Como? (How?)
- Deus: Eu me programei a mim mesmo para isto. (Myself programmed me for it)
Ai eu pensei: Convencido. Só quero ver depois.

- Eu: Garantido? (Guaranteed?)
- Deus: Como você ouviu falar sobre Deus?
(How did you hear about God?)
Ai eu pensei: Iiii, desconversou.

- Eu: Na bíblia. (In the bible).
- Deus: Foi muito tempo atrás. (That was a long time ago).
Ai eu pensei: Tô sabendo, mas ainda não lançaram uma edição atualizada.

- Eu: E o aquecimento global? (What about global warming?)
- Deus: Pensarei a respeito e depois te respondo. (I will think about it and get back to you.).
Ai eu pensei: Fugiu da raia de novo.

- Eu: Conversamos mais tarde. (Talk to you later)
- Deus: Te vejo mais tarde! (
See you later!)


Fiquei animadíssimo com o contato inicial. Pensei em voltar logo ao boteco do portuga, juntar o eleitorado e fazer uma prestação de contas parciais do meu desempenho até o momento. Mas talvez fosse melhor pegar o terno na lavanderia antes, dadas as novas responsabilidades tinha que cuidar mais do visual. No caminho da tinturaria, imbuído do espírito de legislador divino, devidamente conectado, fiquei imaginando o primeiro salário, o aumento retroativo, o jeton, a montagem do gabinete, a base de apoio. Havia muito trabalho pela frente. Acabei decidindo ir para a praia mesmo. De lá eu ligaria para o gabinete, avisaria que não iria ao plenário hoje, enfim, começaria o trabalho. Não tinha como falhar.


P.S.: tente você mesmo o iGod.
Mas por favor não espalhe.
Ainda estou solidificando a carreira parlamentar.

Livre-tradução, busco




by John Doyle


Olhava

O olhar

No espelho.

Mas não eram os teus

Os olhos

Que eu olhava.

Olhava assim mesmo.

Embriaguez do olhar

De que querer olhar

Os teus olhos.


Segunda-feira, Abril 30, 2007

Um ex muita coisa


Quando criança eu era comunista. Não rias, é verdade. Sonhava com um mundo melhor, com um governo mais justo e honesto. Coisa de menino asmático que ficava em casa lendo os russos Gorky (A mãe), Chekov, o inglês George Orwell (A revolução dos bichos), Graciliano Ramos (Vidas Secas) e outros autores que falavam da tal “opressão da classe trabalhadora por burgueses e/ou monarcas”. A trilha sonora que me acompanhava nesta época, ali pelos meus dez ou doze anos de idade, era composta primordialmente de Chico Buarque (várias músicas), e Geraldo Vandré (apenas uma, repetida incessantemente). Influência benigna de uma Tia querida que se gabava de ter todo os LPs do Chico.

Ainda vivíamos numa ditadura. Eu percebia algumas coisas, muitas não entendia. Uns anos mais tarde, comunista mais aguerrido, acabei me metendo com movimentos estudantis. Organizava passeatas, protestos, mas ainda não pintávamos nossas faces. Esta bela inovação veio bem depois, pela mão de outros estudantes secundaristas.

Iniciava o movimento na minha escola, no começo da Asa Sul, e puxava o cordão até o final da Asa, parando em cada uma das muitas escolas secundárias no percurso. Depois voltávamos às centenas pela W3 rumo ao Congresso. Corri da polícia, seus gases e cães algumas vezes. Era mais rápido e tinha mais sorte naquela época, nunca me alcançaram.

Em Brasília havia panelaços, buzinaços e outros protestos pseudo-organizados. Não havia “torpedos ou instant messaging” naquela época, não sei como fazíamos.

Fogo-fátuo: geração espontânea dos gases emanados de um corpo em decomposição. O sistema já apresentava sinais claros de findar-se. Houve a emenda das Diretas-Já, que perdemos, e a última eleição do colégio eleitoral, que vencemos.

Havia um pulha, desconectado do tempo, Newton Cruz, comandante do CMP (Comando Militar do Planalto). Num dos buzinaços ali na esplanada desceu do seu gabinete no Ministério do Exército, pegou um dos soldados de prontidão na entrada, e caminhou até a avenida. Parou um dos muitos carros que buzinavam ali. Ordenou ao pobre soldado que apontasse a metralhadora que trazia para o rosto do pobre motorista. Armada a cena, troça do motorista: toca esta merda da buzina agora, toca se você for homem! Ato de covardia insana. O motorista tocou a buzina assim mesmo.

Vencemos a ditadura, e perdemos o Tancredo. No dia da sua internação, véspera da posse, dormia na casa da Tia, pronto para as celebrações do dia seguinte. De madrugada o primo me acorda anunciando que o Tancredo tinha sido internado. Mandei que ele parasse de inventar histórias e me deixasse dormir. Ele insistiu com a história maluca. Eventualmente acordei e fui até à sala. Assistíamos a TV incrédulos. Ainda incrédulos fomos até a entrada do Hospital de Base. Confirmamos a internação. Ninguém acreditava naquilo. Morreu meses depois.

Muita coisa se passou desde então. Já tinha abandonado o comunismo há tempos, mas o PT cuidou de enterrar o sonho.


Domingo, Abril 29, 2007

Chapa-quente




Carbon Emissions 2000

By WorldMapper

"... the world need[s] to differentiate between the survival emissions of the poor and luxury emissions of [the] rich." Sunita Narain, 2002


Chapa-quente


Troféu joinha!





Glauco, Folha, 15/4/2007


A sombra, minha sombra



Tai Chi in Hong Kong

by Lonely Planet

Pelo canto do olho vejo-a, bem perto de mim, seguindo meus passos, um a um, sem tropeçar. Não sei dançar direito, mas com ela nunca ocorreu-me de errar os passos ou pisar-lhe os pés. Já me acompanha há vários anos, quase desde quando eu vim ao mundo, cogito. Não lembro de nada desta época. Minha mãe diz que foi cesariana, e me mostrou o hospital. A súbita claridade deve ter me assustado. Mas não lembro. Contudo, imagino que já estivesse ali ao meu lado. Quando era criança brincava de fugir dela, tentava ser mais rápido, perder-me de si. Depois de várias tentativas infrutíferas consegui um dia descobrir-lhe a fraqueza. Corria rápido pela casa e me escondia num canto escuro. Ela sumia. Com o passar dos anos fui me acostumando com sua presença. Era uma amiga solidária, escutava minhas estórias, meus devaneios, em silêncio. Às vezes parecia concordar ou discordar, balançando a cabeça. Era monocromática, negra, com tons de cinza, mais claros ou mais escuros. Como eu, preferia o sol à noite. Era mais presente nestas ocasiões. Na busca de mim mesmo pensei em usá-la para tentar me compreender. Deveria ser mais fácil, uma cor, duas dimensões apenas. Pensei e penso em descrever-lhe por uma equação matemática, algum algoritmo. Talvez ajude a minha busca. E se não conseguir descobrir as respostas restará a algum que a queira estudar, na prateleira empoeirada de alguma biblioteca. Quando me for irá comigo, fiel, numa caixa escura. Dirá adeus antes da tampa se fechar.


Sexta-feira, Abril 27, 2007

Auto-carros e paragens


As veias levam o sangue, vida e oxigênio ali contidos.

Este vai e volta.

Os auto-carros passam de paragem em paragem, num ciclo.

Alguns passageiros descem, outros sobem.

Aguardo pelo auto-carro que a levou, sentado naquela paragem.

Desejo e afeto ali contidos...



Quinta-feira, Abril 26, 2007

Te dire


"Te dire cosas
que nunca dije

Te abrire una puerta
Que nunca te he abierto

Te susurrare al oido
Como nunca nadie

Para decirte
Que te quiero.

Y amarte
Y sonarte
Y beberte,
Como un rio
En mis manos

Y con mi cuerpo
Desnuda.

Te amo
Y te espero.

Y te dire cosas de otro tiempo
Y otros lugares.

Como la nina que fue
Y el hombre que eres.

Como la busqueda incansable
Que adorna mis huesos.

Y te dire cosas...
Sin decirle al viento."


by Martinez

Uma índia, um olhar, um encontro, uma despedida




Cambodia


"Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente
Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido cada dia mais curto" (...)

Minha História
by Chico Buarque


.

O telefone toca. Aguardo um instante antes de decidir se estou sonhando ou acordado. Prefiriria a primeira opção, mas o segundo toque não deixa dúvidas. Estico o braço na direção do som. Tateio e consigo encontrá-lo. Alô. Sim. É, mais um dia. Obrigado, valeu tchau. Ah, que horas são? Merda. Quer dizer, obrigado. Tchau. Repouso-o sobre o gancho. Resolvo abrir um olho, um pedacinho apenas. Último dia naquela cidade. No dia seguinte deveria pegar o barco e descer o rio, tempo de ir-me daquelas bandas. Com preguiça, e com ressaca, consigo chegar até o banheiro. Minutos mais tarde é possível emergir com uma aparência quase humana. Me visto, pego a carteira e o bloco de notas. Pego um taxi com destino à feira local. Meu guia de viagem indicava um bom local para visitar e recomendava comer em alguma das barraquinhas da redondeza. Chego ainda meio zonzo, mas consigo encontrar uma lanchonete onde o taxi me abandonou. Peço um suco de frutas da região, uma daquelas que não se parecem com nada que você já experimentou antes. Pego e pago. Saio. O calor e a umidade castigam minha carne desidratada. Começo a caminhar pela feira. Frutas esquisitas, odores idem. Caminho devagar, o corpo ainda se recupera. Levanto os olhos do copo de suco e a vejo. Estava numa barraca de peixes, comprava alguns. Tinha a pele morena, cabelos negros compridos, bunda grande, seios menores. Havia várias índias como ela por ali, mas tinha algo mais, nao sabia o quê. Caminhei na sua direção, quase hipnotizado. Imagino que o coração continuou a bater, que meus olhos piscaram, que o pulmão seguia inspirando e respirando, mas isto é mera suposição. Parecia uma daquelas cenas de filme em que tudo fica em silêncio e a lente vai se aproximando da personagem. Não via muito mais além dela. Pareciam figuras distorcidas, imagens fora de foco. Perto dela tropecei numa criança. Despertei. Fiquei sem graça, pedi desculpas à crianca e à mãe. Ela parecia achar graça também. Obviamente percebeu que eu não era daquelas bandas. Um gringo bobo, quiçá. Aproveitei para vê-la mais de perto. Usava óculos escuros grandes e nenhuma maquiagem. Lábios, olhos bochechas, queixo, nariz, testa, orelhas, cabelo. Escrutinava tudo. Ela meio acanhada, sorriu. Consegui dizer oi. Ela replicou o monossílabo. Pensei em dizer algo, mas nada conseguia ser elaborado. "Deu pau no sistema", diria algum primo. Ocorreu-me de perguntar-lhe sobre os peixes que comprava. Pergunta tola, mas eu não conseguia produzir nada melhor do que aquilo naquela hora. Estava anestesiado ainda, pela sua beleza, integral, charmosa, cheirosa, discreta. Seus lábios se moviam, parecia responder minha pergunta. Procurei escutar. Do pouco que meus tímpanos fizeram chegar ao cérebro, o resto se perdeu por aí, entendi que tinha ou trabalhava num restaurante. Aproveitei a deixa e disse que estava com muita fome, e inquiri sobre o restaurante. Ela explicou que era um pouco longe dali, no bairro fulano de tal. O nome me fez lembrar de algo. Abro o caderninho de anotações e confirmo que havia uma igreja naquele bairro também por visitar, segundo o guia. Invento uma estória que estou indo para aquelas bandas visitar a tal igreja. Ela finge acreditar. Ofereço para ajudar a carregar as sacolas. Relutante ela aceita. Passamos em mais algumas barracas onde ela compra mais alguns itens. No caminho me contou que era filha única, e junto com a mãe mantinham um pequeno restaurante. Não era muita coisa mas dava para pagar as contas. Estudava pela manhã, sonhava ser bióloga. Tinha esta curiosidade pela vida que brota, cresce e um dia se vai. Mexia nos cabelos enquanto falava. Eu ficava absorto, às vezes escutava o que ela dizia, outras vezes não fazia questão. O corpo respondia confuso, cheirava seus olhares, olhava sua boca, ouvia seu perfume... Anunciou que estavam encerradas as compras e que deveria buscar um lotação para chegar em casa. Fez menção de despedir-se. Acordei assustado do meu transe. Disse que não e me ofereci para irmos de taxi. Argumentei que estava indo mesmo para aquelas bandas, e que as sacolas estavam muito pesadas. Ela tentou dizer que não, mas eu já havia alcançado um taxi, e aguardei-a com a porta aberta. Com um riso tímido ela aceita e entra no taxi. Indica ao motorista o endereço. Chegamos, pago e abro a porta. O lugar é simples. Algumas mesas de metal, daquelas oferecidas pelas companhias de cerveja, panos quadricalados cobrindo-lhes a nudez, saleiros e paliteiros de plástico sobre os panos. A mãe, uma índia que ainda trazia os traços da beleza de outrora, aguardava sentada nos degraus. Ela nos apresenta. A mãe me olha com um certo ar de desconfiança. Pergunta de onde sou, e franze o cenho quando replico. Fico sem entender porque. Ela percebe e vem ao meu resgate. Na mão traz o cardápio, nos lábios um sorriso. Menu simples como o resto do lugar. Sem olhar peço um daqueles peixes frescos que acabamos de comprar, à moda da casa, o que quer que isto seja. A mãe responde entre dentes que vai levar muito tempo para preparar. Replico que não tenho pressa. E que afinal estava ali para visitar a tal da igreja. A mãe vira as costas e parte rumo à cozinha. Ela sorri incomodada pela rispidez da mãe. Não ligo. Fico apenas olhando para seus lábios, brilhantes, carnudos, morenos como o resto da sua pele. Ela me indica o caminho da igreja e diz que quando voltar o peixe estará pronto. Nos despedimos. Ela sorri mais uma vez antes de virar-se e ir ter com a mãe na cozinha. Sigo na direção que ela me indicou. Fico vagando pelas esquinas olhando para dentro, revendo o filme que gravara na mente, com suas imagens. Encontro um boteco. Me aboleto no balcão simples e peço uma cerveja gelada. O dono me traz junto com um copo, que talvez já tenha sido de geléia ou requeijão. Um pedacinho do rótulo ainda não havia sido lavado. Bebo rápido a primeira, peço uma segunda, depois uma terceira. Faço as contas e penso que já é hora de voltar ao restaurante. Peço a conta ao dono. Jogo as moedas sobre o balcão. Antes de sair, e para certificar-me, pergunto ao dono onde é o restaurante. Ele indica com o dedo e complementa com duas frases curtas. Era próximo. Sigo naquela direção. Meus pensamentos ainda monotemáticos, ela apenas. Viro a última esquina e a vejo em pé à porta. Ela acena e sorri. Retribuo. Não em resposta a ela, mas por mim mesmo. Estava feliz, infantilmente feliz. Chego. O lugar está vazio, é cedo para as jantas e tarde para os almoços, mas não me tocava com nada disto. Não sabia bem ao certo se ainda tinha fome, mas também de nada valeria a observação. Ela vem da cozinha trazendo os pratos. Caminha de uma forma elegante. Percebo que trocou de roupas e tomou banho. Ainda trazia os cabelos úmidos. Tinha uma camiseta curta, ombros nus, e uma saia azul leve, com alguns bordados e algumas miçangas, um pouco cigana. Coloca os pratos sobre a mesa e me deseja bom apetite. Sorri. Olho para seu rosto e me dou conta, não tinha mais os óculos escuros, no lugar das pupilas e da íris apareciam duas safiras azuis, transparentes, brilhantes. Fico de boca aberta olhando para eles. Penso em dizer algo mas as palavras me faltam novamente. Ela sorri e sai. Fico olhando para lugar nenhum, perdido, ébrio. Algum tempo depois ela retorna. E rindo pergunta se eu vou comer alguma coisa. Os pratos estavam sobre a mesa, como ela os havia deixado. Tento me recompor, me sirvo e começo a comer. Processo mecânico sem nenhuma importância. A alma se saciava dos seus olhares. Olho novamente para ela e com frases incompletas falo alguma coisa dos seus olhos. Meio sem jeito ela explica que foi herança do pai. E ao fim da frase nota que foi a única herança do pai. Sinto uma gota de amargura escorrer daquele comentário. Perguntei sobre os pais. Parece incomodada com a pergunta. Olha para o chão. Conta que nunca conheceu o pai. Deste tinha apenas as histórias da mãe e uma foto onde apareciam abraçados. Explicou-me que os pais se conheceram um dia na rua. Ele, um gringo de passagem por ali, engenheiro de um projeto próximo. Namoraram alguns dias, até que ele partiu. Pegou o barco, como os outros homens daquele lugar, e desceu o rio. Nunca mais voltou. A mãe, que não sabia da vida que já carregava no ventre, despediu-se dele no porto. Foi a última vez que se viram. Foi assim que ela me contou. Sentia a tristeza ali nos seus olhos azuis. Pensei em dizer algo. Finalmente conversamos sobre a escola e os planos. Ela também sonhava em um dia descer o rio, conhecer o mundo do outro lado. Falava de descer o rio e ir ter no mar, imenso ouviu dizer, e se perder no mar. E um dia voltar para contar tudo à mãe. Consegui terminar de comer enquanto conversávamos. Bebia dos seus olhos. Percebia que também olhava para mim, um olhar distinto. Tento perguntar o que fazer por ali, a que horas ela estaria disponível, onde poderíamos caminhar. Ela disfarça. Eu insisto. Ela responde que não há muito o que fazer. Bairro humilde, sem grandes atrações. Respondo que não tenho pressa. Ela finalmente dá a entender que poderíamos ir até a sorveteria, que fechava depois do seu restaurante. Disse que sim. Combinamos para mais tarde. Relutante, pago e parto. Vejo seus olhares doces, e o ar de reprovação da mãe, antes de virar a esquina. Aceno. Volto ao bar de antes. Continuo a beber. Uma mesa de sinuca velha. Pego um dos tacos e coloco meu nome na lista de próximas. Jogo algumas partidas, venço a maioria, sigo bebendo. A certa altura o dono do bar indica que são horas de fechar. Pergunto as horas: merda! Esqueci. Pago e corro até a sorveteria. Encontrei-a quase partindo, olhos tristes. Chego até ela esbaforido, peço desculpas. Ela sorri e aceita. Entramos, pedimos os sorvetes e fomos caminhar na beira do cais. É noite de lua cheia. Sua pele morena reluz. Seus olhos azuis concorrem com o brilho da lua. Brilham mais que as estrelas, sem dúvida. Continuamos a caminhada. Preencho o silêncio com minhas histórias, minhas viagens, as coisas que existem do lado de lá do rio. Ela escuta, acha graça. Gosto do seu gosto. Faço menção de pegar-lhe a mão. Ela não faz menção de correr. Procuro um canto no muro do cais. Me viro para ela e sem dizer palavra beijo-lhe. Ela retribui. Sinto o gosto doce dos lábios, e o perfume da sua pele se entranha pelas minhas narinas. Abraço-a mais forte. Ela também. Ficamos ali não sei quanto tempo, um tempo curto, curto demais para minha existência. Não falamos mais palavras, deixamos que as mãos e o resto de nossos corpos o façam. Ela me pega a mão e diz com os olhos que devo segui-la. Caminho tortuoso, becos escuros, aperto mais a sua mão. Chegamos à sua casa. É tarde e todos parecem dormir na vizinhança. Ela entra devagar e indica com a mão que a espere. Volta rápido com um cobertor largo. Não entendo, a noite é quente. Me leva para detrás da casa. Sobe por uma escada pequena, enferrujada. Vou atrás. Alcançamos a laje. Ela abre o cobertor, deita e me convida com os braços abertos. Vou ao seu encontro. Aperto-a mais. Ilusão de fundir nossos corpos, talvez. Carinhos e beijos. Buscamos silêncio, interrompidos por alguns gemidos, exclamações de nossas almas. Aos poucos retiramos as vestes que nos cobrem. Ficamos nus. Os carinhos seguem. A lua, lá de cima, nos olha. Deveria estar sorrindo também. Beijos, carinhos, gemidos... me ajeito para dar meu corpo a ela... fazemos amor. Acordo no dia seguinte. Ela ao meu lado. Os raios do sol, poucos, lilazes, vermelhos, refletem sobre o rio, que enxergo dali de cima. A lua foi esconder-se. Beijo-a mais uma vez. Ela sorri sem abrir os olhos. Me abraça. Fazemos amor novamente. Penso que o Sol também deve estar sorrindo. Catamos nossas roupas. Descemos a escada. Ela me acompanha até a esquina. Emito as primeiras palavras em muitas horas. Explico que vou ao hotel, pegar minhas coisas e embarco mais tarde. Ela abaixa a cabeça em silêncio. Abraço-a. Sinto a camisa molhada, das suas lágrimas. Os olhos azuis se cobrem de uma cor vermelha. Beijo-a longamente, uma última vez. Parto. Saco um taxi até o hotel. No caminho a confusão de pensamentos me assola. Sigo mecânico, a rota mais fácil que não passa pelo coração. Peço ao taxi que me espere. Subo, pego minhas coisas, pago o hotel e retorno ao taxi. Indico-lhe o caminho do porto. Pago o taxi. Procuro meu barco. Dezenas de pessoas passando com suas malas e mercadorias. Alguns chegando, outros partindo. A mesma viagem. Vou ao barco. Ordeno aos neurônios que silenciem o coração. Doce ilusão. Meus pensamentos não se descolam dela. Era como uma imagem semi-transparente, tudo o que meus olhos viam, daquele cais, daqueles barcos, tinha um anteparo, uma imagem, seu sorriso, seu olhar. Subo no barco. Procuro meu lugar. Largo as coisas lá. O barco anuncia a partida. Vou ao convés. Busco o ponto mais alto. Olho para a cidade. Olho para o cais. Vejo-a ali, acenando para mim. Algumas lágrimas molham o rosto de ambos. Não tenho certeza se é alguma artimanha da minha mente, ou se de fato ela está ali aos pés do cais. Aceno assim mesmo. Com o vento soprando na sua direção envio beijos. O barco solta as suas amarras e começa a se distanciar do ancoradouro. Busco a popa. Grito para ela:

“Eu volto, um dia...”

Angkor....:) Esplendoroso! +++ fotos












Quarta-feira, Abril 25, 2007

Bad connection





By Fabiola Morais






I tried to contact her, send emails, forwarded links, wrote posts,... tried to reach her eyes, looked for her ears, tried to reach her heart, attempted to touch her soul... bad connection... my life is full of bad connections... maybe is the technology... will revert to drums... and smoke signals... will send letters, handwritten... will disguise myself as another myself... will search in my soul for one whom she has not met yet... who knows... maybe yes, maybe no... same same, but different...:( ... the heart is exquisite but worth pursuing... who knows, one day....:)

O ano em que não casei



Brooklyn Bridge
by Daniel Norman




“(...)Precisei de roupa nova
Mas sem prova de salário
Combinamos eu pagava,

Você fez o crediário
Nosso caso foi pra cova
E a roupa pro armário”


SPC, by Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho





Faz tempo. Morava na Big Apple, época de vacas magras, ou magérrimas, como diria um companheiro daquela época. Vendia o almoço para comprar a janta, algumas vezes por mês. Fazia um bico de garçom numa trattoria. A tesouraria da faculdade era como os bancos de então, não se importava com a origem do dinheiro.


Peguei o turno do almoço no fim de semana. Era quase castigo. Pouco movimento e poucas gorjetas. Além de alguns turistas sentaram-se à mesa duas mulheres, pouca semelhança física e alguma diferença de idade. A mais jovem me atraiu logo na chegada. Magra, alta, elegante, seios médios, cabelo castanho-vermelho, sorriso lindo. Talvez fosse modelo, pensei. O verão convidava a usar roupas mais leves e mais curtas. Ela era consonante. A outra também atraente, mas de uma outra forma, mais elegante, mais sóbria, seios e decotes, também maiores.


Com o pouco movimento fiquei por ali conversando fiado, na esperança que pudesse apurar algo, além da gorjeta. Apesar dos calculados esforços dirigidos à mais jovem, percebi que surtiam efeitos com a mais velha. “Não tens tu vai tu mesmo”, diria algum primo. Trocamos telefones. Eventualmente me deixaram saber que eram mãe e filha. Surpresa.


Liguei uns dias depois. Combinamos de sair. Fomos a algum canto. Bebemos algumas coisas. Trocamos algumas conversas. Dormiu no meu apartamento.


O rolo progrediu. Víamo-nos com mais assiduidade. Passei a gostar dela. Dividíamos confidências e afagos. Ela me contou do casamento, gravidez na adolescência, casamento precoce, outra filha, durou poucos anos.


Eventualmente me convidou para conhecer sua casa. Morava num apartamento grande, em TriBeCa. À época, divorciada, duas filhas, dois quartos. Comecei a dormir lá de vez em quando. Algum tempo depois consegui um estágio numa corretora de valores ali perto, no World Financial Center, ao lado das Torres Gêmeas. Conveniente localização, comecei a dormir lá com mais regularidade, já tinha até escova de dentes guardada.


Vários uniformes: gravata borboleta no restaurante, jeans velho na universidade e terno no estágio. Orçamento de estudante, tinha um terno apenas. Juntei uns trocados, aproveitei uma liquidação no centro, e com sua ajuda comprei um terno italiano, de linho, bege, chique e de bom preço. Guardava o terno em sua casa, era mais conveniente.


O relacionamento já contava com alguns meses de sobrevida. Um domingo ensolarado saímos para passear. Atravessamos a Brooklyn Bridge a pé, um dos meus passeios preferidos. Alcançamos o Brooklyn Heigths e o Promenade. Caminhávamos de mãos dadas. O sol ia se pondo, enxergávamos os dois rios, Manhattan, as torres, a estátua e umas crianças brincando. Ela se vira para mim com um sorriso nos lábios e pergunta:


- Você quer casar comigo?


Gostei da brincadeira e respondi em tom de piada:


- Claro, mas primeiro você tem que pedir a mão à minha mãe.


Ela também achou graça e riu. Continuamos a caminhada e a troca de banalidades. Minutos mais tardes ela repete a pergunta e eu repito a resposta. Seguimos rindo. O sol já se pondo e ela repete pela terceira vez, com um tom mais solene:


- Então, você aceita ou não aceita casar comigo?


- Você está falando sério?, perguntei incrédulo.


- Nunca falei tão sério na minha vida, respondeu.


Gaguejei qualquer coisa... depois fiquei mudo... eventualmente falei que estava surpreso e que precisava refletir antes de responder. Ponderei que gostava muito dela, mas nos conhecíamos a pouco tempo. Ela não titubeou:


- Se não der certo a gente separa depois.


Fiquei mais confuso. Caminhamos mais e acabei indo para casa, sozinho. Cheguei em casa ainda confuso. Não conseguia dormir direito. Tentei ordenar os pensamentos. Era uma crise. Resolvi convocar o conselho, os quatro irmãos-amigos que moravam ali. Tínhamos o hábito de nos reunirmos pelo menos uma vez por mês para cozinhar e contar mentiras. Ficou marcado para o Domingo seguinte a próxima reunião. Fiquei encarregado da cozinha e eles do meu destino: casar ou não casar, eis a questão.


Por ordem acadêmica, o conselho era composto de um mestrando em administração de empresas, um mestrando em psicologia, um graduando em engenharia eletrônica e de sistemas, um doutorando em economia e um doutorando em neurociências. Time da pesada. A origem em comum, Brasília, com a pequena exceção de um quase goiano que morava noutra cidade. Mas o acolhemos assim mesmo.


Aos poucos foram chegando para o almoço, enquanto eu concluía os preparativos. Eventualmente, todos presentes, abri a sessão. Expus como pude meu dilema: o saco escrotal andava bem vazio, e eu gostava dela, embora não a amasse, e se nos casássemos poderia ter o Green Card, o valor da faculdadade seria reduzido à metade, seria mais fácil arranjar emprego e mais um monte de vantagens práticas. Com a vida dura que levava tinham ainda mais peso estas considerações.


Debates viris se seguiram. Posições, citações, previsões, quase xingamentos, ofensas e perdões de ambas as partes. Eu assistia a tudo aquilo como juiz de mim mesmo, e poucas intervenções em campo.


Já era noite. Algumas garrafas vazias pelo chão. Os ímpetos já mais embriagados, e tranquilos. Era chegada a hora do veredito final. Pedi a contagem dos votos. Merda: 2X2. Pensei em trocar alguns membros do conselho, mas não dava. As amizades ali reunidas davam mais de cem anos, coisa difícil de se achar. Tinha que decidir eu mesmo, e sabia também que embora tivesse votos de apenas dois, teria o apoio dos quatro.


Não revelei meu voto. Precisava de uma noite de sono pelo menos. Começaram as despedidas dos conselheiros. O psicólogo, o primeiro a sair, arremata o jogo, na prorrogação: “se você resolver virar cafetão mesmo e casar só por causa do dinheiro, pelo menos capricha no uísque da festa de casamento.”


Certeiro como de costume. Fui dormir solteiro.


Comentei a decisão à pretendente, e tentei negociar um prazo para nos conhecermos mais e tal e coisa. Umas semanas depois acabamos o namoro num bate-boca de orelhão. Coisa esquisita. Meus alfarrábios que ficavam na sua casa nunca foram resgatados.


Até hoje, infelizmente, ainda tenho que ouvir este samba aí de cima da boca do quase goiano...


PS: a Maurício Dantas, o bem-assombrado,
Mais três fiéis mosqueteiros.

Terça-feira, Abril 24, 2007

IINN – Neurociências


Imagine que você fosse um neurocientista renomado, um dos mais conceituados no mundo. E que você tivesse um prédio de pesquisa, com vários laboratórios, algumas dúzias de estudantes de pós-doutorado, doutorado e mestrado trabalhando para você. Imagine que você fosse professor titular de uma das dez maiores universidades americanas, com vários artigos publicados nas mais renomadas revistas científicas. E que um dia a insanidade lhe acometesse e você resolvesse fundar um centro de pesquisa internacional numa pequena cidade do nordeste. E que esta loucura fosse contagiosa e você arranjasse mais dois mosqueteiros.

Alguns te chamariam de visionário, e muitos te chamariam de louco, certo?!?

Pois que vivam os loucos!

Miguel Nicollelis, Claudio Mello e Sidarta Ribeiro, os três mosqueteiros.

O primeiro é palmeirense, e professor da Duke University. Os outros dois, de melhor estirpe, flamenguistas, vêm de Brasília, da UnB. O último, pós-doutor em neurobiologia, é diretor de pesquisas do centro, professor de capoeira e escritor nas horas vagas...

PS: eles são loucos mesmo,
querem abrir outros centros de pesquisa no nordeste...

Pela última vez


Tranquei a porta. Empurrei-a na cama. Arranquei suas roupas. Com uma mão segurava o travesseiro. Este escondia seus gritos. Com a outra abria suas pernas. Estas tremiam. Ela dizia que não. Talvez. Mordia seu pescoço. Lambia sua orelha. Beliscava seus seios. Bebia seu suor. Um só corpo. Urramos uníssonos.

Pela última vez.