sexta-feira, março 30, 2007

Inspirações


Viva o Zé Simão! Eta cabra bom. Me resolveu vários dilemas existenciais. Vou economizar uma grana com terapia, no dia que começar a fazer. Por enquanto economizo 100%.

E tem aquela piada do português que ao chegar na parada de ônibus vê o seu partindo. Corre atrás, até a próxima parada. Não alcança por pouco. E corre atrás novamente. A ladainha se repete por mais algumas estações até que o gajo chega ao destino. Em casa, muito eufórico pela façanha, conta para a esposa:

- Oh Maria, tu não acreditas no que fiz hoje. Imaginas que corri atrás do autocarro (i.e. ônibus, em dialeto lusitano) de paragem (i.e. parada, ibid) em paragem, até cá chegar. Ora pois, economizei o dinheiro da passagem.

A Maria não perde tempo e arremata:

- Mas Joaquim, tu és muito burro mesmo. Por quê não correste atrás de um taxi? Terias economizado muito mais!

Mas como eu dizia,... a idade vem chegando e os cabelos brancos - é verdade, nem todos caíram ainda - e já estava começando a arredondar a idade pra baixo – um pouquinho só vai, todo mundo faz isto - falar que desconheço Atari, dizer que nunca vi LP de vinil, computador com tela de fósforo verde então nem pensar etc. Agora adotei a do Zé Simão: tenho 18 anos. Mais alguns de experiência.

E tem mais. Tinha um problema mal resolvido com religião também. Levava uma meia hora, gastava um monte de metáforas, falava da história da minha vida, da infância em colégio de freiras, tudo pra dizer que era ateu, pero no mucho. É que embora ateu convicto nunca larguei mão de um sal grosso em casa, um banho de arruda de vez em quando, flores para Iemanjá e roupa branca no ano-novo, e outras vicissitudes. Agora estou resolvido, virei ateu místico. Qualquer dúvida sobre o que Diabos isto quer dizer, é só perguntar pro Zé.

Eu até gostava quando dizia que era agnóstico. Achava chique. Até o dia que um amigo me xingou:

Agsnóstico?!? Porra, mas tu é um vira-casaca mesmo. Eu jurava que você ia morrer flamenguista! Pela memória daquele time de ouro, Adílio, Zico, Andrade, Júnior… era mais da metade da seleção brasileira. Aquilo é que era time. Agora tu me vens com esta história de que virou agnóstico. Deve ser um daqueles times de São Paulo que nunca ninguém ouviu falar antes.

Ainda tentei explicar que focinho de porco não é tomada, mas era tarde, ele desligou o telefone na minha cara. Graças a Deus.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa


by Wikipedia

O trigo (Triticum spp.) é uma gramínea que é cultivada em todo mundo. Globalmente, é a segunda-maior cultura de cereais, a seguir ao milho; o terceiro é o arroz. O grão de trigo é um alimento básico usado para fazer farinha e, com esta, o pão, na alimentação dos animais domésticos e como um ingrediente na fabricação de cerveja. O trigo é plantado também estritamente como uma forragem para animais domésticos, como o feno.


PS: Tá vendo? Nada a ver uma coisa com a outra.
Me enganaram este tempo todo.
Deve ter sido um Corinthiano.
Corinthiano é fogo.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa



Lolium temulentum, tipicamente conhecida como joio, é uma planta sazonal que faz parte da familía Poaceae e do género Lolium. O talo da planta pode atingir mais de 1 metro de altura.

PS: Ah bom, finalmente.

Pensamentear

Yo no creo en brujas,
pero que las hay, las hay.

Non credo nelle streghe,
pero' se ci sono, ci sono.

Mas...

Uff, ainda bem que tem o mas… já me livrou de várias.

“A lei é igual perante todos”, mas nem todos são iguais perante a lei, já indica a sapiência popular.

Meu pai, já falecido, por exemplo, queria ter me batizado de Clarêncio. Repito: Clarêncio! É mole?!? Concluo, apelido, Clacla. Já imaginou o trauma de infância?!? Mais um. Depois ainda querem que eu seja normal. Nem pônei eu ganhei quando era menino. Mas a mãe tem uma foto minha sentado num pônei empalhado numa feira agropecuária no interior do Piauí (é pleonasmo…). Já ofereci uma grana boa por esta foto, mas ela disse que é recordação. Recordação é o katzo, que mico! Nunca se sabe onde estas joças podem parar. E ainda tem umas fotos piores do que essa.

Mas voltando ao pai. Queria por que queria me batizar com este nome “singelo”. Mas a mãe já tinha avisado:

Depois do bebê nascido eu exijo ver a certidão de nascimento pra ter certeza que tu não vais fazer uma cagada desta com o nome da criança. Imagina só. Eu carrego o fedelho nove meses na barriga, primogênito, e você quer me aprontar uma destas. Mas nem pensar. Nem que eu tem que sair andando daqui do hospital para retificar.

Mas minha querida, direitos iguais, eu também tenho participação na concepção da criança. Além do mais é um nome tão especial.

Mas tu vai arranjar filho com alguma rapariga por aí para botar este nome. Filho meu NÃO!

Apesar dos protestos do meu pai, e com a benéfica solidariedade dos tios de ambos os lados, escapei da sina. Por via das dúvidas uma Tia de confiança o acompanhou até o cartório. Vai que ele não tinha se dado por convencido.

Clacla ninguém merece, repito. Já imaginou a pentelhação na escola, ou a encheção de saco brincando na rua, ou os dramas toda vez que me apresentasse em alguma repartição pública.

E podia ser pior, e se eu tivesse escolhido uma destas carreiras pomposas, tipo embaixador, juiz, capitão de aeronave? Só penso na aeromoça, contendo o riso, e anunciando:

Senhores passageiros, o nosso vôo de hoje está sobre a responsabilidade (pausa para conter a gargalhada) do Capitão Clarêncio.


E com certeza ia sempre ter um Corinthiano - Corinthiano é fogo - pedindo pra repetir o nome.

Pior do que isso só quando tivesse que procurar o médico para tratar da impotência precoce.

Pois não Senhor…, desculpe, como é mesmo seu nome?

É mole? É mole e não sobe doutor!

PS: mais um da série
“ninguém merece”

quinta-feira, março 29, 2007

More than words


By Extreme
PS: maneira!

quarta-feira, março 28, 2007

Aí eu peguei e nasci! - Zé Simão


Sou filho de árabe com loira e deu macaco na cabeça. E eu não tenho 56 anos. Eu tenho 18 anos. Com 38 de experiência. E eu era um menino asmático que ficava lendo Proust e ouvindo programa de terror no rádio.

Em 69 entrei pra Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Mas eu matava aula com o namorado da Wanderléa pra ir assistir o programa de rádio do Erasmo Carlos. E aí eu desisti. Senhor Juiz, Pare Agora!


E aí eu fui pra swinging London, usava calça boca de sino, cabelo comprido e assisti ao show dos Rolling Stones no Hyde Park. E alguns bicos pra BBC.


Voltei. Auge do tropicalismo. Frequentava as Dunas da Gal em Ipanema. Passei dois anos batendo palma pro pôr-do-sol e assistindo o show da Gal toda noite. E depois diz que hippie não faz nada. O Cazuza tentava se enturmar mas como ele era muito menino a gente não dava a menor bola. Foram os Anos Baianos. E todo Carnaval a gente ia pra Bahia atrás do Caetano. Ia de carona e voltava de caganera! Rarará!


Aí em 87 entrei pra Folha e escrevo colunas desde então. Que eu chamo de telejornal humorístico. Onde abordo os três temas que mais deliciam os brasileiros: sexo, política e futebol. Trio elétrico do brasileiro: real, bunda e bola!




Time do coração:
eu queria ser corinthiano mas sãopaulino!

Opção sexual: no sofá com o cachorro

Pior compra que já fez:
uma caixa de acarajé em pó

Religião:
ateu místico. Aquele que faz o sinal da cruz, toma banho de sal grosso e tem três São Jorges ao lado do computador! E ecumênico por ecumênico eu prefiro o ecumenicuzinho da Madonna!

Livros de cabeceira:
Paul Bowles, Gregório de Mattos e "Carandiru" do Drauzio Varella.

Ojeriza ideológica:
tucanos. TÔ FORA!

Acadêmicos:
acadêmicos por acadêmicos eu prefiro Os Acadêmicos do Salgueiro!

Filmes Inesquecíveis:
todos de Woody Allen e Hitchcok. E tirando "Rocco e seus irmãos" só gosto de cinema americano: não assisto filme estrangeiro. E nem de país que não tenha água potável!

Definição de
filme cabeça: um monte de gente pelada discutindo

Uma boa causa:
liberdade de expressão. Viva Larry Flint!

Filosofia de vida:
nóis sofre mas nóis goza! E gostoso!


Acorda Brasil!

Que eu vou dormir!


http://www2.uol.com.br/josesimao/biografia.htm




PS: nota 11 pra ele!

Tempos modernos

Seu Jackson, coronel antigo da região, não cansa de se assombrar com a “modernidade”. Contou-me de um forró pé-de-serra, pouco tempo atrás.

Lá pelas tantas enxergou uma mocinha dançando que não passava dos quinze anos, pelas suas contas. Ela saracoteava daqui para acolá, nos braços de um e de outro. Eventualmente ela passou perto e ele arriscou a pergunta:

Oh menina, tu já namora?

Ela com a mão nos quadris respondeu:

Oxente, eu já inté fudo!

sábado, março 24, 2007

Uma cúmplice para dizer adeus

Tirei o lenço do bolso num último gesto de compostura que o sol castigante me permitia. Limpei o suor e segui em frente. Empurrei a porta e aboletei-me no balcão. Sem cerimônia ordenei um vermouth local ao garçom. Como que mudo às minhas súplicas, seguiu resoluto. Não obstante, para minha grata surpresa, retornou em um par de minutos. Na sua mão firme um copo longo: gelo, duas fatias de limão, umas gotas do aguardente da região, e vermouth oriundo de um barril maior que eu, acostado à parede dos fundos, e um toque final de água com gás. Sorvi a metade antes de voltar a repousá-lo sobre o porta-copos. Limpei novamente o suor da testa e percebi que ela continuava a me olhar, impassiva.

Havia muito trocáramos as últimas palavras sensíveis. Matínhamo-nos apegados ao nível mínimo de banalidades necessárias. Procurava disfarçar, mas eu via a tristeza escancarada, ali, no fundo dos seus seus olhos.

Com a pouca hombridade que me restava fiz ver ao garçom que nos arranjasse uma mesa próxima à janela. Sentamo-nos logo em seguida. Chamei o garçom e ordenei o que nos trouxesse. Há muito, tal como velhos amantes, não mais dispensávamos horas a fio buscando decifrar o menu e nossos desejos. Unilateralmente ordenava ao garçom o saciamento de nossas fomes e sedes.

Como comumente ocorre nestas horas de profundo prazer, e dor, pouco falávamos. À parte de poucos distúrbios locais de paisanos, outros fregueses e garçons, propus-me a decifrá-la. Seus lindos olhos castanhos, cor-de-mel, obstinadamente evitavam os meus, tanto quanto sua boca evitava dizer algo que chamasse a atenção dos meus ouvidos.

Nossa troca de silêncios foi interrompida pelo garçom. Este também de poucas palavras. Seco o copo de vermouth ordenei-lhe uma jarra de sangria, sem consultar-lhe.

Ainda silenciosos mastigamos os pedaços de polvo, pleno de páprica e azeite extra-virgem. Vez por outra alternávamos com pedaços de batata com um toque de alecrim.

Minha companheira mantinha-se reclusa.

Como um bruxo já conhecedor daquele encanto buscava, com os olhos fechados, descobrir os ingredientes da comida e bebida. Assim como um apreciador de música clássica busca o prazer nos tons individuais de um cello e de um violino, buscava eu o mesmo, ter no palato cada um dos sabores que degustava.

Corri toda a vida. Porém, às vésperas da morte, buscava singularidades. Foram muitos banquetes com plebeus, reis, rainhas e suas respectivas corjas. Paulatinamente, mas com crescente certeza, passei a enojá-los. Convivi com eles, seus servos e oportunos admiradores, tanto quanto pude. Participei de suas orgias, favores e embriaguez. Não mais.

Hoje os recordo com paúra, de mim mesmo.

A mão trêmula que faz o copo cair me traz de volta ao presente. Ela prontamente acode e pede desculpas ao garçom. Este, impiedoso, varre sob meus pés. Sigo saboreando.

Embora pernóstico, diria que transladei da ingestão à degustação, e finalmente ao saboreio, havia pouco. A ingestão primal da fonte de energia foi substituída pelo prazer gastronômico. Este por sua vez completo com os outros sentidos. Recordava um livro de receitas antigo. Das páginas coloridas e seus pratos ostensivamente decorados, saquei a frase: também come-se com os olhos.

A repentina dor no abdômen retirou-me do paraíso. Busquei com sofreguidão os comprimidos no bolso do paletó. Com a dor aumentando as mãos tremiam mais. Ela me fitava assustada. Encontrei alguns. Meti-os apressadamente na boca. Um ou dois caíram. Tomei um gole grande da sangria e respirei fundo. Ela talvez tenha pensado em dizer algo contra as pílulas com o álcool. Fútil comentário para alguém que tem seus dias contados, e agonizantes, pela frente.

Retomei o garfo. Mastigava devagar os últimos pedaços. Saquei a derradeiro fatia de pão do cesto e limpei o azeite que restava no fundo prato.

Dispensei as sobremesas, que me olhavam sedutoras. Ordenei dois cafés, e o meu com um suspiro do aguardente.

Pagamos e buscamos a saída. O calor e o sol de julho castigavam. Em algum termômetro tenho certeza que vi mais de 40 graus marcados. Rumamos ao hotel, não distante dali. Chegamos ao quarto e fui buscar um banho refrescante. Saí enrolado na toalha. Ela entrou em seguida. Vesti a cueca e me escondi debaixo do lençol. Acordei com ela deitando-se ao meu lado. Usava uma destas camisetas longas, com um desenho sem importância. Tinha o cheiro do shampoo apenas, e algo mais que era só seu.

Ajeitei minha cabeça em seu peito. Por tantos anos era ela que repousava no meu peito, enquanto eu contava histórias que ela gostava de ouvir. Esta parecia ser nossa última confidência. Seus dedos acariciavam minha cabeça. Um sorriso doce me escorria dos lábios.

Algum tempo depois acordei, ainda em seu colo, com o toque do telefone. Já aguardando o que me esperava do outro lado da linha atendi. Respondi em pucas palavras que estaria pronto em 10 minutos, e que um dos serviçais subisse para ter com as malas. Pousei o fone no gancho.

Nossos olhos se fitaram mais uma vez. Ela ameaçava deixar uma lágrima cair. Beijei-lhe o rosto e abracei-a com força. Não sei quanto tempo ficamos assim. Eventualmente soltei-a. Fitei-lhe os olhos mais uma vez e me pus a vestir. Ela fez o mesmo enquanto ajeitava as últimas coisas nas malas. À batida da porta mandei que entrassem. Mostrei-lhes as malas e corri ao elevador.

O gerente, cúmplice de outras estadias, me aguardava no lobby. Não pude esconder o sorriso ao ver uma limousine conversível, Rolls-Royce, anos 60, me aguardando. Dois hóspedes que entravam num RR Phantom me olharam com inveja. Apertei-lhe a mão e com uma piscada de olho agradeci a gentileza. Sabíamos que não haveria outras estadias depois desta.

Embarcamos rumo ao aeroporto. Indiquei que baixasse a capota, apesar do calor ainda forte do final da tarde. Mirava o horizonte, seus prédios mouros, e o “castelo que cantava com sua água”, omnipresente sobre a montanha.

Logo chegamos ao nosso destino. Nossos cartões de embarque e o acesso à sala VIP já nos aguardavam. Indiquei as malas no bagageiro e gratifiquei regiamente a ambos. Caminhamos ao portão de embarque. Subindo pelo elevador voltei a sentir a dor, trucidante. Os dedos trêmulos buscavam novamente os sedativos. Encontrados alguns engoli-os mesmo sem ter o que beber. Uma vez na sala VIP me fiz valer de uma taça de champagne, de razoável qualidade. Servi outra taça para ela e fui ao seu encontro.

O seu vôo e o meu estavam programados para decolar em 30 e 35 minutos, respectivamente. Embora não conversássemos a respeito sabíamos que também não voltaríamos a nos ver. Tudo começou um ano antes. Uma indisposição. Uma visita ao médico da família. Exames. Diagnóstico. Choque. Cirurgia. Diagnóstico piorado. Medicamentos, tratamentos, preces etc, tudo em vão, o quadro piorava. A internação do mês anterior foi a pior. O médico, confidente antigo, finalmente contou-me o que já nos era claro, tinha algumas semanas mais de vida, e provavelmente apenas uma ou duas antes da próxima e derradeira internação.

Ela me aguardava no hospital. Visitava-me todos os dias. Muitas vezes trazia algo para que eu saboreasse, sem o conhecimento das enfermeiras é claro. Repeti-lhe o que o médico havia me dito. Sequei suas lágrimas e devagar expliquei o que desejava dela. Uma viagem, a nossa viagem final. Depois disto não nos veríamos mais. Eu retornaria ao hospital e ela ao ex-namorado. Ela não questionou nada.

Agora no aeroporto me detia apenas à admirá-la, escaneva cada milímetro de sua pele, decorava seu sorriso, seu olhar. Tinha-os iguais ao da mãe. Queria ter este retrato indelével de ambas.

O som do alto falante anunciava pela última vez a partida do seu vôo. Levantei com sua ajuda. Abracei-a com firmeza. Sentia suas lágrimas caindo sobre meu ombro. Afastei-a de mim. Toquei-lhe os lábios e indiquei que partisse. Com a bolsa na mão ela se virou e me beijou. Fiquei em pé, respirando seu ar, tocando o espaço que ela havia preenchido. Finalmente meu vôo também foi chamado. Fiz questão de ser o último a entrar no avião. Antes que a porta se fechasse lancei um olhar para o horizonte, um olhar de adeus.

quinta-feira, março 22, 2007

No paraíso não havia pequi

É possível sentir, cheirar, tocar, lamber, chupar, apertar, sorver, se lambuzar e se deleitar. Só não pode morder. Nunca. O perigo é grande. A dor, indizível. Em torno do pequi a virilidade tem limites. Os experientes avançam com desembaraço e precisão sobre a pequena saliência. Os novatos progridem às apalpadelas, cheios de dedos, assustadiços. É com cuidados infinitos que fazem uma pinça com o indicador e o polegar e seguram o globo carnoso. Os sôfregos – ah, os sôfregos… – eles não se agüentam. Com as mãos trêmulas, seguram o fruto delicioso e dão-lhe uma dentada. Começa então o sofrimento, atroz. Parte da emoção de comer pequi está no perigo de encontrar os minúsculos espinhos que separam a polpa amarelo-ouro da branca semente.

De novembro a fevereiro, período da frutificação, a fragrância do pequi toma conta do cerrado, a paisagem que toca doze estados e o Distrito Federal. Em Brasília, há pequizeiros nas superquadras, entrequadras e nas vizinhanças do Palácio da Alvorada. A partir de setembro, a sua flor anuncia o fruto. De tronco tortuoso e galhos com fissuras e cristas sinuosas (como definem os botânicos), as árvores atingem até 10 metros de altura. Em fevereiro, estão carregadas do fruto esverdeado e arredondado como um abacate pequeno, só que mais rechonchudinho. Quando eles caem de maduros, abre-se a temporada de caça, programada para terminar em meados de março – é quando o pequi passa a viver no congelador dos aficionados e dos comerciantes.

Entre o meio da primavera e o quase final do verão, o comércio sazonal do pequi, que o Ministério da Agricultura não se interessa em quantificar, se instala na beira de estradas, nos mercados populares e nas bacias de alumínio das feiras livres. Os caroços são acomodados em latas, que, teoricamente, equivalem a um litro. Custam, em média, quatro reais.

“Não suporto, não posso nem ver de perto.” “Amo, não vivo sem.” “Não posso nem sentir o cheiro.” “É maravilhoso, não há nada igual.” O pequi divide opiniões. É difícil chegar a uma definição precisa do cheiro da fruta. Para alguns, aroma inebriante e dominador. Para outros, insuportável fedor. “Ele tem cheiro de cerrado”, especula a chef goiana Chris Isaac.

Em sua aparição mais freqüente, o pequi é Caryocar brasiliense ou brasiliensis. Do grego caryon (núcleo ou noz), mais kara (cabeça). O adjetivo brasiliense vem por conta de ser brasileiro. O botânico Auguste de Saint-Hilaire encontrou a árvore e a fruta em sua Viagem à Província de Goiás, em 1819. E registrou: “Dou aqui o nome vulgar dessa pequena árvore como foi registrado, de acordo com minhas notas, na Flora Brasiliae meridionalis, mas talvez o mais certo seria escrever piqui, de conformidade com a pronúncia. Trata-se evidentemente da mesma árvore que Casal registrou com o nome de piquiá”. Os índios, que conheciam o fruto há muito mais tempo, nomearam o perigo. Em tupi, o pequi é pele (py) e espinho (qui).

Por dentro, o pequi é uma espécie de ouriço-do-mar elevado à enésima potência. “O espinho penetra fundo e a dor junto com ele”, garante Rita Medeiros, proprietária da sorveteria Sorbê, em Brasília, que vende sorvete de pequi processado com leite, em uso “doce”, em vez do aproveitamento “salgado”, mais comum. O físico Oscar Ferreira de Lima, professor da Universidade Estadual de Campinas, ficou intrigado com os espinhos, que agem como farpas, e chegou à seguinte conclusão: “Olhei o pequi no microscópio várias vezes e, se não posso fazer uma afirmação estatística categórica, é possível dizer que há dezenas de espinhos em cada milímetro quadrado de pequi”. Dedicado proprietário de dois pequizeiros, o professor Ferreira de Lima já foi obrigado a pinçar espinhos da língua de um amigo. Durante uma hora de trabalho delicadíssimo, o especialista em supercondutores se improvisou em enfermeiro.

Em maio de 2001, o então senador Saturnino Braga caiu de boca num prato com pequi e viu seu idílico passeio à cidade histórica de Pirenópolis se transformar em fato nacional. Sua foto, com os lábios deformados pelo fruto, foi para as primeiras páginas dos jornais e, dali, para cartuns e caricaturas. A fama negativa do vegetal cresceu. “O goiano aproveita o desconhecimento sobre o pequi para se divertir. A expectativa é ver a reação à mordida”, conta Wilson Hargreaves, culto ex-livreiro, conhecedor de hábitos urbanos e rurais. Seria um tipo de hospitalidade perversa. Felipe Ribeiro, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, e especialista em cerrado, concorda que comunidades tradicionais podem usar o conhecimento em causa própria – como um saber que os dominantes não dominam.

Há quem atribua poderes afrodisíacos ao fruto. “É comum ouvir dizer que, nove meses depois da safra, nascem uns bebês fortes pra danar”, relata a bióloga Semíramis de Almeida, pesquisadora aposentada da Embrapa Cerrados. O que há de correto é que o gorduroso e oleaginoso pequi, rico em vitamina A, é um alimento possante.

http://www.revistapiaui.com.br/2007/mar/culinaria.htm

segunda-feira, março 19, 2007

Só Deixo Meu Coração Na Mão de Quem Pode


Só deixo meu coração na mão de quem pode
Fazer da minha alma suporte para uma vida insinuante
Insinuante anti tudo que não possa ser

Bossa Nova Hard Core
Bossa Nova Nota Dez

Quero dizer, eu to pra tudo nesse mundo
Então, só vou deixar meu coração, a alma do meu corpo, na mão de quem pode

Na mão de quem pode e absorve
Tanto no céu que no inferno
Inspiração de mutação
Da vagabunda intenção
De se jogar na dança absoluta da matança do que é tédio, conformismo, aceitação

E eu fico aqui vou te levando nessa dança
Sobre o mundo
Pode tudo do amor
Pode tudo do amor

Porque eu não quero teu ciúme que é o cúmulo
Ciúme é o acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo, projetado
Assim jogado como lama anti-erótica na cara do desejo mais intenso de ficar com a pessoa

Eu não to a toa
Eu sou muito boa

Eu sou muito boa pra vida
Eu sou a vida oferecida como dança
E eu não quero "te dar gelo"
Diabos que o carregue

Vê se aprende, se desprende
Vem pra mim que sou a esfinge do amor
Te sussurrando
Decifra-me, decifra-me

Só deixo minha alma, só deixo o coração
Só deixo minha alma na mão de quem pode

Vê se aprende, se desprende

Só deixo minha alma, só deixo meu coração
Na mão de quem ama solto!


Katia B / Marcos Cunha

P.S.: valeu Fabiano


domingo, março 18, 2007

Saint Patrick’s Day


Engana-se o mundo. E eu também até ontem. Loucos não são os gauleses de Goscinny & Uderzo, mas os irlandeses. Sim, todos aqueles malucos que falam gaélico ou um inlgês ainda mais incompreensível. É esquisito.

Ontem foi dia de St. Patrick, padroeiro da turma. Parece que todos ganham induto cristão e bebem ainda mais (sim, isto é possível. Está cientficamente provado, hic...).

Havia uns fantasiados de duende, outros de lata de Guinness, mas nenhum sóbrio. Além de um balde de Guinness por freguês, anunciam um outro quitute no menu, anotem aí, The ultimate fry up (a última fritura de todos os tempos, livre-tradução):

  • Ovos
  • Bacon
  • Cogumelos fritos
  • Black Pudding (conhece sarapatel? Primo dele)
  • Fígado frito
  • Linguiça frita
  • Feijão frito
  • Batata frita
  • Mas os tomates são apenas grelhados, não precisa se preoucupar.

E para acompanhar o baixo teor de carboidratos, a torrada é separada.

Não tem como a dieta Atkins recusar esta.



O dragão, a rolha e o Dumbo


- Então brother, conta aí como foi a festa na casa do teu amigo.

- Bom demais... rendeu até altas horas, várias gatas.

- E namorada nova do cara, gata?

- É,... ela é bacana.

- Bacana?!.... sei. Fala aí cara.

- Pô, é que ela tem uma beleza assim, tipo diferente, tá ligado?

- Beleza diferente, tô ligado,... tipo dragão né?!

- É tipo isso aí... meio exótica a beleza da mina.

- Sei, exótica... conta mais aí.

- Primeiro que a mina deve ter o mesmo peso do brother.

- Pô, mas o cara é meio grande, ele não é lutador de jiu-jitsu?

- Pois é, pra você ver... o mesmo peso mas tipo uns dez centímetros a menos. Captou a dimensão do problema?

- Captei, tipo rolha de poço de petróleo...

- Tipo isso aí mermo.

- E a cara da mina? Dá pra escapar?

- É o seguinte, lembra da minha cara de ressaca no primeiro dia de carnaval?

- Brother, feia daquele jeito mermo?!?

- Não, pior. Imagina que com aquela cara feia eu pulasse do décimo andar.

- Que mals hein?

- E pra piorar a onda a mina ainda tava de mini-saia pink, parecia o Dumbo no picadeiro.

- Pô véio, nojenta a parada.

- Pô véio, nojento mermo.


PS: mais um da série,
“ninguém merece”.

sábado, março 17, 2007

Jardim da fantasia

Bem-te-vi, bem-te-vi
Andar por um jardim em flor
Chamando os bichos de amor
Tua boca pingava mel
Bem te quis, bem te quis
E ainda quero muito mais
Maior que a imensidão da paz
Bem maior que o sol
Onde estás?
Voei por este céu azul
Andei estradas do além
Onde estarás meu bem
Onde estás ?
Nas nuvens ou na insensatez
Me beije só mais uma vez

Paulinho Pedra Azul


PS: pra quem não sabia,
ele fez esta depois da morte da noiva...

sexta-feira, março 16, 2007

O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante







By Peter Greenaway


P.S. Gula, Luxúria, Avareza, Ira,
Soberba, Vaidade, Orgulho.



Delicioso filme...



Livre-tradução, busco

Magritte

Também cansada,

A caça descansava

Nos braços do caçador,

Em paz.

quarta-feira, março 14, 2007

Um cerrado dos seus olhos

By Fabíola Morais

Tinha um coração único, aberto a muitos dado a poucos. Expressava-o de uma forma ainda mais singular, uma assinatura só sua. Seria um pequi irrigado com veias? A carne é suculenta, mas cuidado com seus espinhos, sempre explicam aos novatos.

Dos amigos e amantes em comum surgiam histórias de todos os tempos e de todas as formas, sempre belas. Um dia finalmente nossos olhos se cruzaram: entendi tudo, era ela. Tinha e tem um jeito só seu de olhar para o cerrado. Brasilienses e goianos têm esta coisa de olhar para o cerrado com ternura, com lentes só suas. No seu caso mais colorido e [des]focado do que os outros mortais, felizmente. Enxergamos muito mais do que “garranchos retorcidos e secura”, vemos beleza em linhas tortas e o ciclo da vida brotar diante dos nossos olhos todas as vezes que começa a chover. Ali por agosto ou setembro mais ou menos, os gramados e parques que mais parecem desertos sem vida brotam verdes, lindos, vigorosos com as primeiras chuvas. Ressucitam das cinzas, das queimadas. É mágico. Se fôssemos mais inteligentes teríamos uma festa da primavera, pagã, com certeza. Nossos Deuses seriam o Sol e a Chuva. Eros e Baco seriam muito bem vindos também, quiçá igualmente idolatrados.

Também enxergava um Rio de Janeiro de um jeito distinto, dali de cima de Santa Tereza se vê melhor, diria. Valia-se de morar num lugar “abafado”, coisas da família, não procure entender. Era feliz por saber de suas andanças, em sempre fraternal companhia, e por saber que nossos caminhos se cruzariam mais algumas vezes. Ela também enxergava girafas e outros bichos pela cidade. Imaginava que se tivesse mais tempo em sua companhia também poderia vir a vê-las. Será?!?


segunda-feira, março 12, 2007

Impressões

by Suzanna

Subo no ônibus. Pago e me viro. Busco rapidamente um assento vago. Uma chinesa “bonitinha” (é metáfora...) me atrai. Sento ao seu lado. O olfato curioso busca descobrir-lhe o perfume. Incrédulo inspiro uma segunda vez, para ratificar o veredictum inicial. Indubitavelmente: alho.

PS: mais um da série,
“ninguém merece”

domingo, março 11, 2007

Inspirações

by MoMaStalker

Conheci uma rapunzel outro dia. Escondia-se numa torre para que ali nenhum sentimento lhe tocasse. Por via das dúvidas lhe fiz chegar um cão, que também lhe guardasse.

Talvez por sua influência hoje faça o mesmo. Meu escudo: uma tela de cristal líquido.

sábado, março 10, 2007

Inspirações




  • Tipping

  • By Malcolm Gladwell


    O pensamento econômico de hoje deveria se preoucupar mais em entender as transições, as rupturas de paradigmas. Entender o que acontece um pouco antes destas inflexões, e como podemos evitar, ou nos aproximar mais rápido daquele ponto.


    Descobrir o que acontece na sequência imediata e atinar quais “teclas apertar” para maximizar o bem-estrar da sociedade.





    PS: um dos livros mais geniais e originais que já li.
    Difícil é descrevê-lo.



    Sambando com o Mestre Yoda


    Troféu joinha!




    Impressões


    By Suzanna

    Entrou no metrô uma chinesa baranga com um casaco azul de pompom tão esquisito, que mais parecia um urso panda fazendo propaganda de fralda.

    Sorriso de Flor - Rafa Ponde



    PS: tava procurando outra coisa,
    mas a batida é boa.

    Livre-tradução, busco



    Tem piano que bate pino.

    Supino subindo.

    Sopro soprado.


    Pensamentear



    PS: mais um da série,
    “ela não é tão feia assim, você é que não bebeu o suficiente.”

    Marquesitice


    “Aquela porra fedia testosterona... a catinga de suor de macho tava entranhada no aço... se virgem respirasse aquilo perdia o cabaço...”


    Desta forma poética, o nobre fidalgo descrevia sua visita ao submarino brasileiro aportado ali em Lisboa. A seu favor pesavam os Dãos da tarde e os Imperiais da noite.


    Pensamentear

    sexta-feira, março 09, 2007

    Livre-tradução, busco



    A mina me deixou cheio de estamina, adrenalina,
    era pura cilibina,
    mas parecia gelatina.




    Lego Paradox


    Na casa de uma amiga em São Paulo vi um quadro lindo, em preto-e-branco, o retrato de um Picasso já velho, feito todo de Lego. Wünderbar! Tempos depois vi uma impressora jato de tinta e outras coisas complexas construídas a partir do simples Lego.

    Suponho que todos conheçam Lego, aquelas pecinhas de plástico colorido que se encaixam umas às outras. Invenção de uns dinamarqueses malucos. Simples e belo.

    Tenho a impressão que o mundo também já foi mais simples e belo um dia. Ao longo dos séculos, principalmente do lado ocidental do nosso planeta azul, complicamos tudo o que estava ao nosso alcance, fossem relações amorosas, amizades, o que vestir ou o que comer.

    O mundo seria melhor se fosse mais simples, cogito ergo sum.

    Em economês, regras demais, complicações em excesso, burocracia: destroem valor. Em “bom português”: não servem pra porra nenhuma.

    Assim convoco-o, ilustre leitor (há mais de um???) deste bufão que vos escreve, para a grande cruzada do século XXI: vamos desconstruir o que encontrarmos pela frente!

    De prédios faremos tijolos,
    de códigos de leis faremos simples mandamentos,
    do padrão de mouse com dez botões adotaremos o padrão Apple, um botão.
    E finalmente, dos romances modernos, com seus longos dramas entrelaçados, faremos versos simples de um Mário Quintana ou de um Fernando Pessoa: “Aqueles que atravancam o meu caminho, eles passarão, eu passarinho; Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.”

    Morte aos infiéis!



    Pensamentear




    A vida é bela,
    nós é que complica ela.


    Marcus Vinicius Romano

    Cada qual com seu cada qual

    O ex-Presidente americano Bill Clinton narra em sua autobiografia seus encontros com o Boris Yeltsin, ex-Presidente russo. E de uma forma muito eufemística relata que “ouviu dizer” que Yeltsin era muito chegado numa branquinha nacional – parece que era difícil mesmo encontrar o cara sóbrio – mas que este fato nunca influenciou negativamente nas suas tratativas bilaterais.

    Imagino a alegria do Yeltsin ao ler esta “limpada de barra” por parte do Clinton. Penso nele ligando de madrugada para o Clinton, bêbado que nem gambá – nunca ouvi dizer que gambás fossem alcoólatras, vai entender – para agradecer a gentileza.


    - Bill?

    - Sim, quem é?

    - Pô mermão, aqui é o Boris, hic...

    - Oi Boris, tudo bem?

    - Tô de boa... hic... liguei pra agradecer... você foi um gentleman... tô te incomandando?

    - De forma alguma, estou com uma nova assistente explicando os trâmites aqui do escritório.

    - Então,... hic... valeu... você limpou bonito minha barra... até a patroa gostou...

    - Humm...

    - Pois é... hic... era a pressão do trabalho que me fazia tomar outras e umas... sabe como é né... hic... pra dar uma relaxada...

    - Uiii....

    - Então, hic... já dei uma diminuída na bebida... só uma por dia...

    - Ahh...

    - Quer dizer... hic... uma garrafa... antigos vícios, nesta idade... hic... difícil...

    - Uff....

    - Bill?!? Tá aí?!?

    - ...

    - Vou desligar... te ligo outra hora... spaciba, again,...hic...


    Antes que pousasse o fone no gancho, do outro lado um gemido, gozei....



    PS: e quem disse que Churchill, Yeltsin e o nosso sapo-barbudo não tinham nada em comum?!?

    Pensamentear



    Life is full of choices.

    Lego Paradox



    Adoro Apples! Pelo menos as três que conheço melhor.

    A fruta, com seus vários vermelhos mais exóticos – as verdes que me perdoem, mas vermelho é fundamental – é um convite à sedução. Vermelho forte por fora, suculenta e refrescante por dentro, hummm... tesão. E o centro com suas sementes encapsuladas no vazio. Um convite ao erotismo. E ainda tem aquela história antiga da Eva, o arquétipo da mulher sedutora. Num não sem número de quadros com o corpo [semi]nu, aquele olhar perdido dos apaixonados e uma maçã mordida na mão... o gosto ninguém descreveu até hoje mas lhe sou eternamente agradecido por ter nos removido daquele enfadonho paraíso. Imagino que devia ser uma chatice viver ali.

    Tem então a Big Apple, o nome carinhoso da minha cidade, New York. Cinco dos melhores anos da minha vida passei ali. O apelido peculiar, para quem não sabe, é da época em que os músicos de blues e jazz migravam do sul ( e.g. New Orleans), para tentar a vida ali em shows de bar em bar. Esta doce amante usou de todos os ardis para me seduzir, e me fazer “de gato e sapato”. Vivi os momentos mais intensos da minha vida e experiências que carrego até hoje. Houve quem me ajudasse, desse um ombro amigo, e abrigo, quando mais precisei. Meu lugar preferido? Central Park, forever. Sempre morei em Manhattan em uma dúzia de endereços diferentes. Houve um apartamento que dividia com um amigo americano ali no Greenwich Village, próximo à Washington Square. Várias noites voltava dos bares da redondeza com a trupe para tomar a última cerveja, comprada na deli da esquina, e ouvir CDs – não havia MP3s ou iPods ainda – do Paralamas e Legião. Havia um bar preferido da turma, Olive Tree Cafe, a uma esquina lá de casa. Tinha mesas de ardósia preta, com lápis de giz-de-cera para rabiscar. A cerveja barata era servida em jarras e ao fundo filmes preto-e-branco do Carlitos. Divino! No basement funcionava uma diminuta casa de shows que se gabava de ter oferecido um dos primeiros shows do Jimi Hendrix, quando ninguém sabia quem era aquele cabeludo que tocava guitarra em transe.

    Finalmente há a Apple do Steve Jobs. De uns tempos pra cá venho descobrindo o prazer da simplicidade. Simple is beautiful. É o meu motto para o século XXI. É que o mundo que deveria ser mais simples foi engendrado para ser esta coisa complicada em que vivemos. É como Lego, aquelas pecinhas de plástico simples, geniais, que podem ser combinadas para fazer engenhocas complicadíssimas. Já vi fotos de impressoras, aviões, robôs, etc, feitos de Lego. Mas enquanto houver budistas, Apple e outros simplificadores do mundo, a esperança continua.


    PS: não me surpreendi quando outro dia li que os criadores do Google, outra invenção simplificadora genial, até hoje “brincam” de Lego no “trabalho”.

    Grito de Carnaval Frustrado



    Hoje estufo o peito e lanço um desafio entre os amigos foliões que me acompanham ladeira abaixo e ladeira acima em Salvador:

    “quem for macho e der conta que me acompanhe na minha maratona carnavalesca. E preparem-se, começo na terça-feira solidário à pata-amada do Camaleão no Campo Grande. E quase ininterruptamente sigo até o arrastão da Timbalada, que só se encerra ali na quarta-feira de cinzas em Ondina, quando o Carlinhos Brown mandar parar. Dá mais de 24 horas de folia.”

    E com ousadia arremato:

    “porque o Carnaval mesmo só começa na terça, de quinta até segunda é mero aquecimento, preparação, para o Grand Finale.”

    Este ano, apesar do troféu de bronze ofertado, não houve sequer inscrições. Viajei na quarta à noite resignado, e com a certeza de que o Código Penal recém renovado, depois de anos vagando pelos escaninhos do Congresso, merecia já um adendo. Haveria que permitir a eutanásia nos casos terminais de ressaca como a que vivia naquela noite de quarta-feira de cinzas (providencial este nome...).

    PS: um primo querido há muito já defendia esta idéia. Dizia que nos casos de ressaca de licor de ovos ou licor de menta a eutanásia era uma forma mais humana de abreviar a dor. Sábias palavras.

    quarta-feira, março 07, 2007

    Marquesitice



    Numa mão o Drambuie com gelo, na outra o que restava de um Montecristo. As baforadas se confundiam com os sons daquele pub inglês. Falava de porres, porres ritualísticos. As proparoxítonas sempre chamam a atenção, é fato. Mas os porres que conhecia nesta categoria eram os homéricos, iniguláveis, únicos, catastróficos e mais alguns outros. Era a primeira vez que me expunha a um tal porre ritualístico. Enquanto segurava meu Porto e o meu Montecristo, afinava o ouvido. Ele continuava, entre soluços embriagados:

    O negócio é o seguinte, porre ritualístico é aquele estágio da bebedeira quando você faz uma catarse grupal. Manda tirar as crianças de perto. Bota todo no mundo no recinto, tranca a porta e ninguém sai enquanto sobrar algo a ser dito. Certos índios, quando existe alguém atravancando a tribo, criando celeuma, tomam um porre ritualístico e dão um sumiço no cara. No dia seguinte ninguém pergunta nada, uns já nem se lembram e a vida continua.

    Fiquei sem saber em que porre me meter. Na dúvida pedi o copo de Drambuie emprestado e o isqueiro da vizinha gorda. Depois de alguns goles a fumaça começava a fazer sentido.



    Suores



    Ah arrependimento...
    não devia ter tomado banho nesta manhã,
    teria nossos suores e hormônios mais tempo comigo.


    No contra-fluxo da pororoca



    O amigo e colega de apartamento chegou em casa excitado por descrever sua primeira viagem de trabalho por aquela renomada empresa americana de consultoria.

    - Pois é Zerundis, passei a vida inteira como estudante. Tu não imaginas o constrangimento que era toda vez que chegava no hall do hotel e me deparava com aquele cartãozinho de check-in. Logo ali no meio, o campo, “profissão”, e apesar dos quase trinta tinha que escrever: estudante. Ontem me vinguei, lasquei lá com letras quase viris: Consultor, com C maiúsculo mesmo.

    Mas como dizia o profético Zé Simão, tucanaram o negócio. Já não há mais garis, somente consultores de limpeza pública; nem tampouco limpadores de fossa, mas consultores de higiene domiciliar; vendedor de côco na praia já era, são consultores de hidratação agora; telefonistas ou operadoras de telemarketing então, nem pensar. Quando ligamos para um daqueles malfadados “0800” esperamos para ser atendidos com aquela musiquinha de ante-sala de ginecologista e a gravação padrão: “todas as nossas consultoras no momento estão atendendo outros clientes. Assim que terminarem de estar resolvendo as questões deles estaremos falando com você. E não vão desligando porque a sua ligação está sendo muito importante para nós.” E viva o gerundismo…

    Sigo no contrafluxo da pororoca. Quando vem a minha vez de preencher o tal cartão não me arrisco mais a ser confundido, lasco lá: estudante. É mais seguro.