quarta-feira, outubro 24, 2007
La Solera
Linda Um e Linda Dois
Havia duas, uma loira e uma morena, igualmente soberbas. Pensava em matemática, herança antiga, vício antigo. Houve quem já a considerou a "mãe de todas as ciências". Felizmente há o mundo além das ciências, ditas exatas. Há cheiros, gostos e amores, que rogo, nunca possam ser transladados para insípidos algoritmos. Além da beleza ímpar que ambas possuíam, nada mais podia inferir, nem de onde vinham nem para onde iam. Na ausência de inspiração melhor ocorreu-me chamar-lhes apenas de 'Linda Um e Linda Dois'. Saliento que neste caso Dois não é maior do que Um. E que se preservem os limites da matemática.
segunda-feira, outubro 22, 2007
Sons do Nepal
sexta-feira, outubro 05, 2007
Madrid
Hoy te miré desnuda en la noche. Sí, por la primera vez. Tenía flores en tus venas y aires casi di verano, mientras el otoño que si acercaba. La miraba desnuda, encantado con las cosas que ti cercaban. Me acercaba de tu Buen Retiro y tu Prado, pasé por el Sol y la Mayor. Por supuesto que tenía la expectativa más grande de todo más que podría de haber en el sol que empezaba por (des)cubrirte, como mi alma.
Resignação
Cala-te.
Encerras teus conflitos.
Acatas o que é teu, e sempre foi.
Vens saber da “dor e delícia de seres o que é".
terça-feira, setembro 18, 2007
Princesa
Roupas rotas, corpos idem.
Dois cães brincam.
Vários homens conversam, conversa solta.
Uma estátua desconexa do seu tempo de glória a tudo assiste e nada diz.
A ponte sobre o rio completa a moldura daquela noite.
Alguma luz pousa sobre nossos corpos ali sentados.
Um miúdo com os pais quer dizer algo.
Pais silenciosos, absortos em suas drogas.
A música polifônica cessa.
Partimos rumo à tasca.
Ergue-se a princesa disfarçada de tigresa.
O vento sopra sua capa, e traz-me o perfurme de maracujá.
Talvez um beijo negro me aguarde.
Talvez.
Seios
Tento, sem muito sucesso, e com pouco esforço real, desviar meus olhos daquela blusa de flanela azul. É bastante fina, sem ser transparante. O bico dos seus seios, belos, bem formados, destaca-se na calmaria azul. Nos braços, por sobre as ombreiras, entrevejo traços de uma tatuagem, algo com um ramo, uma flor. Parece cobrir-lhe um pouco da nudez. Por quê, se tão bela?!? No rosto sóbrio, um brinco no nariz chama a atenção. Mas o olhar tranquilo me faz sorrir. Da TV, grudada na parede próxima, o comentarista grita um gol qualquer. Aproveito a distração dos presentes para mirar-lhe longamente os seios, imaginar-lhes a cor, a textura, o sabor. Inspirado em alguma perversão, nalguma fantasia erótica, sonho em abocanhá-los, com paixão. Penso em tocar-lhes, beijar-lhes, com carinho, mas sem abster-me de mordiscar-lhes com severa paixão. Julgo ainda sugá-los, metê-los de uma só vez na boca e pôr-me a brincar com a língua ao seu redor. Dura pouco o sonho. Levanta-se. Permito que vá sem dirigir-lhe palavra alguma. Um outro grito do comentarista me traz de volta à “realidade televisiva”.
quinta-feira, agosto 23, 2007
Merci
It’s
The alarm plays again. I repeat the movement of silencing it; now and then, few times. I resist leaving the bed. The half-sleep image of your eyes is by far a more pleasant sentiment. Eventually, the relentless alarm convinces me to move my body away from the bed. That linen, that mattress, that pillow, do not contain any of your fragrance, which helps me to get up.
I finish packing my small bag. I leave my camera outside. The millions of pixels containing your smile should suffice to comfort me until the next destination, until I can touch the real thing again.
In the back of my mind one question only: “When are you coming for dinner?”
Slow food, slow love, whatever time it takes… I feel like telling you a million words, if you could listen to tem, but I decide for one only: “Merci”.
Blue eyes
She was awaiting for me, sitting at the bar. The skirt was above the knees. The glasses framed the blue eyes. The short hair was harmoniously messed up. Two fingers were playing with her eyebrows. The lips produced a beautiful smile when she saw me. I was late, as usual. As I approached her, half kissing, half apologizing, she simply kissed back to me and smiled. I was not sure if she heard my apologies, but it obviously didn’t matter anymore. We took off the shoes, walked into the lounge and found a corner for us among the pillows and candles. A live band in the building across the street was courteous to play it loud, enough for our not so distant ears. The live tunes mixed well with the local lounge music, the talking around us and our half spoken words. The vibe was great. We had just come from a local restaurant. Before that, we traveled on the dirty streets of that poor city. Before that we chatted at lobby of the hotel that hosted our bodies. And further away from the present, there was emptiness; we hadn’t met each other yet.
The plans for the day, the next week, were as simple as our conversations, our desires. We decided to get away from the city, somehow, and go to the mountains. Few expectations and plans, simple simple, easy easy.
Left my cigarette in her hands, and kissed her again. The eyes were not open. My hands found their frame on her fingers, and my head over her shoulders. Closed my eyes.
De Brasília para Lhasa
Peço uma cerveja local, Lhasa Beer – beer from the top of the world, a uns 3.500 metros de altitude a frase faz sentido. Durante o dia o céu é azul, com poucas nuvens. À noite, o brilho das estrelas compete com o da lua. Ao redor, montanhas. Em algumas enxerga-se o cume coberto de neve que esnobam do sol de verão. O céu me faz lembrar de Brasília, igualmente belo e limpo. No nosso “vale”, porém, a única montanha é na estrada para Sobradinho, e apesar do frio de julho não consta que tenha nevado alguma vez no Posto Colorado.
Day or night?
The golden stars were shining, something to do with hydrogen being converted to helium, I recall. Their bright light was present in most of the space. The black light covered the rest of the darkness, untouched by the stars. Would it be day or night outside? I asked my realm.
Ephemerous
The band finished playing. I took the chance and sat down. Cleaned the sweat and ordered a beer. My eyes scanned around me. Not far from my table I spotted her, two couples and her, alone. The waitress delivered her fancy cocktail. Our eyes crossed. I stared at her and she at me. I thought about approaching her. But the fear of rejection was still greater than the expectation of joy. I ordered a second beer, while searching for her eyes again. But the friends had her attention now. I decided to go to the bathroom. I guess it was the subtle hope that the alcohol would tilt the fear-pleasure scale. When I returned the table was empty, the check paid. She was gone without a name, without a trace. I finished my beer, dropped few bills from my wallet, and closed the door of the bar behind me, alone.
Espelho
Fragmentos de espelho presos ao teto.
Fragmentos de meu corpo ali refletidos.
Penso em juntar as peças.
Tarefa difícil, falta sempre um pedaço.
Talvez se eu quebrasse um pouco os cantos.
Talvez se eu aparasse as arestas.
Deveria usar apenas tamanhos padrões.
Deveria acabar com estes pedaços feitos sobre medida.
Contraditório encontro
Acontecia todos os anos, mais ou menos, quase sempre, ao redor da mesma data. Havia quem trouxesse presentes caros. Havia os que trouxessem bebidas, frias ou quentes, e ainda, por vezes, caipirinhas de carambola e rapadura. Havia quem trouxesse o que de comer, fruto de laborioso misturar de ervas, castanhas, azeite e suor. Havia ainda quem trouxesse sorriso, simples, sincero, amigo. Havia de todas as tribos ali presente, diferentes dialetos de uma mesma língua-mãe. Vinham de todas as partes, intenções contraditórias, por vezes; razões uníssonas, no entanto. Juntavam-se ali todos ali para vê-la e poder dizer: Feliz aniversário!
quarta-feira, agosto 08, 2007
Neruda
Sabor Nordestino
Se me queres cajuí
Desejo ser doce e raro
Deixar no teu corpo o cheiro
Dos cajueiros nordestinos
Desejo ser cajuína
Saciar tua sede
Com os beijos sonoros
Dos passarinhos empapuçados
Desejo ser “pé de tonel”
Embriagar teus sentidos
Aquecer teu corpo
Com meu pequeno caju em flor
Lília Diniz
Poetisa maranhense
segunda-feira, maio 28, 2007
The End
Os vestígios dos antigos dissabores românticos se escondiam entre cartas apaixonadas, discos do Pixinguinha deixados para trás, ou eventualmente uma foto emoldurada na sala. Hoje nossas reminiscências de amor são encontradas em pedacinhos de silício dentro da máquina digital.
Esqueci-me de deletar os zeros-e-uns que contêm o teu sorriso.
domingo, maio 27, 2007
In my dreams only
Sitting in a chair, going through my own reminiscences, found her image. If she was still alive, she might have written:
I tried to hide my desires for him behind my fears and concerns, until today. Today we made love again. It was not like the first time. The intensity, the flesh, the passion, the sweat, were all the same. The pleasure of his kiss, the warmth of his hands, the incredible feeling when he first went inside, the sensation of looseness that followed, were also the same. But today we had more time to know each other, to savour each other, to discover each other.The night didn't start well. A senseless discussion about a senseless matter. I argued with him, and repeatedly made clear that I didn't want his countless kisses, his close attention and his soft touches. I lied. I was confused. My heart, still divided between past and future, held the infamous bridge that caught me. I was a prisoner of my own sentiments, aspirations and desires.I finally succumbed to his charm. It was something in his eyes that I could not elucidate, but which still made me ebrious.The bridge still existed. But a dash of courage and a sac of desire made me cross it. And once again I gave myself to him; every inch of my body belonged to him; every portion of me was touched by him; sometimes by his strong hands, other times by his tongue that covered my body; still in other occasions the rest of his body rubbed over me as if cleaning myself from previous encounters, as if in preparation for a divine ritual.My soul had displaced off my body, in a state of mercurial ecstasy. Sometime later, I returned, and could only notice the wet body of my warrior laying over mine, still breathing vividly in my ears.
quinta-feira, maio 17, 2007
terça-feira, maio 08, 2007
Orgias
- Alô?
- Alô cara, beleza?!?
- Ôpa, tava esperando tua ligação. Tudo certo pro bacanal?
- Tudo sobre controle. Acabei de passar o último treino com o pessoal todo reunido.
- Faltou alguém?
- Um casal de anões, três odaliscas núbias e o dromedário.
- Pô, logo o dromedário?
- Pois é, só tinha camelo disponível.
- Mas aquele camelo brocha do ano passado foi uma tragédia.
- Eu lembro, não teve catuaba, pílula azul, chute no saco ou zebra virgem que desse jeito no desgraçado.
- Mas zebra virgem também, fala sério...
- Tu esperavas o quê? Que eu arranjasse uma camela virgem às duas da manhã?!?
- Tudo bem que nós tentamos. Ainda bem que tinha aquele teu primo tarado que arranjou a zebra virgem. Ele vem este ano de novo?
- Tá maluco? Esqueceu que tivemos que acorrentar aquele doido no estábulo?
- É verdade. Quando chegamos lá ele já tinha violentado duas ovelhas, faturado a égua e estava encarcando no pobre do jumento.
- É mesmo, nem o jerico escapou.
- E o tarado ainda papou a zebra virgem no dia seguinte.
- É, já que o camelo não quis...
- E o trabalho que deu para devolver para o circo, tu lembras?
- O veterinário sem saber se a zebra estava grávida e que bicho ia nascer dali. Ia ser teu sobrinho...
- Pô, nem brinca com estas coisas.
- E a segurança?
- Confirmado, forças especiais do lado de fora, e 98 eunucos na área interna.
- Mas não eram 100?
- Dois não passaram no teste, sentiram cócegas.
- E qual maluco você arranjou para fazer o teste com os eunucos?
- Lembra daquela bicha desvairada que era meu vizinho?
- O que foi fantasiado de ambulância no revéillon na tua casa?
- O próprio, com aquela lanterna piscando na testa, imitando sirene, e a roupa branca e vermelha aberta atrás.
- E ele correndo pela casa com a sirene e a lanterna, enchendo o saco de todo mundo que estivesse fantasiado de médico ou doente, e mandando entrar na ambulância pela porta dos fundos.
- Até teu cunhado que estava de Frankstein ele pertubou.
- Pois é, nem o Frank escapou.
- E o quê que você ofereceu para ele aceitar o trampo?
- Uma grana e disse que ele podia ficar com cada pinto que ele achasse no teste.
- Então ele se deu mal. O que diabos ele vai fazer com dois meio-eunucos?
- Sei lá, mas ele também ficou desconsolado e pediu uma caixa de pilhas para o vibrador e um balde de graxa.
- Pô, balde de graxa é demais.
- E você queria que eu fizesse o quê, que eu fosse no lugar dos eunucos? Tá maluco?
- Você tem razão. Deixa pra lá. E as diversões, alguma novidade?
- Tem algumas, mas eu estou apostando naquela inspirado nos quadrinhos.
- Vai ser um sucesso. Vai ter gente fazendo fila para pegar um anão besuntado,...
- E mergulhar no caldeirão de fondue!
- Só quero ver depois do fondue...
- Ou pior, se o anão cair dentro do pote.
- Como anão sofre.
- Pois é. Te vejo à noite. Viva as odaliscas núbias!
- Abraços. Viva as núbias!
PS: inspirado no Veríssimo.
sexta-feira, maio 04, 2007
Nada
Dizia-se dele: era tão triste e tão preguiçoso que gastou a vida inteira para matar-se. Não buscou outro que o fizesse. Entreteu-se a si mesmo com o sórdido trabalho. O fazia com pouca continuidade, sem nenhuma paixão, esforço ou desejo. Fazia-o porque havia de ser feito, diria a si mesmo se ousasse ter perguntado. Mas nunca o fez, e não mais o fará. Não era de arroubos, ousadias ou destemperamento
Copo vazio, cadeira vazia
Copo Vazio
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.
É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.
Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
by Gilberto Gil
Anda fogo! Corre chama! Queima tudo! Leva a cinzas o que já foi carne. Transforma em calor e pó o que já foi vida. Hoje sei que nada sei. E de nada saber não sei se há vida pós-morte. Hoje senti tua falta. Senti falta das tuas palavras, dos sonhos, dos risos, das lágrimas. Falta das alegrias compartilhadas, das tristezas embriagadas. Ainda tenho o teu cheiro de carne queimada nas entranhas. Não sei se nunca chegarei a tirá-lo de dentro de mim. Talvez não, quem sabe tua última lembrança. Não é fraterno e carinhoso como teu abraço mas vale assim mesmo. É uma sinapse apenas. Uma dentre bilhões de outras que me fazem recordar a senha do banco, ou a cor do meu carro. Mas essa me faz sorrir. Não, não sei se há morte após a vida, mas meu sonho é mais doce com esta ilusão de nos encontrarmos novamente.
Deus Sol, Deusa Lua

Não confies na lua, ela não tem horas certas de ser como o sol. É mutante em suas formas, cores e trajetórias. Não lhe cabe o sentido de ser, de vir, luzir e se ir. Há dias que vem. Há dias que falta. Há dias que brilha forte. Há dias em que aparece discreta, quase sem querer aparecer. Dê-se ao sol, que este há de te cuidar melhor, com calor, com atenção, com destino certo, com horário certo. E se quiser mesmo voltar a vê-lo no mesmo lugar terás que esperar um ano apenas. E o que é um ano para uma vida inteira? Um tempo breve de ser. Vem comigo, vamos ter com o sol. Esquece-te de embriagar-se com a lua que engana ser grande quando esbanja-se na noite. Deixa-a lá. Esquece-se dela. Não te acalentarás o corpo ou a alma frios. Ilude-te. Vives-tu da realidade que o sol traz. Vem comigo. Vamos caminhar sob o sol e dar-lhe nossa pele para que doure, tal qual plantas e suas folhas, ou como os pássaros lhe dão seu canto cedo, mesmo antes dele cá vir. Vem comigo ser o sol. Vem brilhar.
quarta-feira, maio 02, 2007
Aganjú
Te esperei na lua crescer
Ví cadeira boa sentei
Espirrei na tua gripei
Por ficar ao léo resfriei
Você me agradou me acertou
Me miseravou, me aqueceu
Me rasgou a roupa e valeu
E jurou conversas de deus
Aganjú, Aganjú, Aganjú
Aganjú, Aganjú, Aganjú
Quem sabe a labuta quitar
Sabe o trabalho que dá
Batalhar o pão e trazer
Para a casa o sobreviver
Encontrei na rua a questão
Cem por cento a falta de chão
Vou rezar prá nunca perder
Essa estrutura que é você
Aganjú, Aganjú, Aganjú
Aganjú, Aganjú, Aganjú
by Carlinhos Brown
http://radio.terra.com.br/busca/musicas.php?musica=Aganj%FA
Conectado com Deus

by Michelangelo
Procissão
by Gilberto Gil
“(...)
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao Deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar.”
Fui ter com os Deuses. Não que houvesse um plebiscito mundial para escolher um representante da humanidade para tal tarefa, nem tampouco era eu candidato oficial. Ocorreu naturalmente, rodada de bar, os amigos ali reunidos, copos pela metade, sobriedade idem, engedraram a trama. Começou com um Corinthiano – Corinthiano é fogo – “vai lá, fala com Deus, você fala bem em público, conhece muita gente, tenta ver o que você arranja, qualquer melhoria é bem-vinda. Como está é que não dá”. Outros se seguiram, e à medida que as garrafas secavam o coro aumentava. Mais gente ia juntando. O portuga dono do bar, feliz com o movimento extra, começou até a me oferecer uns bolinhos frescos de bacalhau, por conta da casa. O negócio virou quase comício, gente se amontoava à porta para ver o que se passava. A maior parte dos transeuntes quando se inteirava que tinha um que se propunha a interceder junto à galera do andar de cima, pedia uma gelada e gritava alguma coisa de apoio lá do fundo. Quando ouviam que não tinha dízimo a ser recolhido, pediam mais uma e apoiavam mais efusivamente a empreitada. Eu dizia que não, argumentava que havia melhores quadros no partido, fiz das minhas para me livrar da tarefa, mas não teve jeito, fui aclamado quase que por unanimidade. À exceção de um que se embriagava de gin e gritava: “ruim, por ruim, vote em mim”. Saí de lá chumbado, mas eleito, aclamado. Não me deixaram sequer pagar minha parte do induto ao portuga. Fiquei na dúvida se o faziam por apego à causa, ou se já vislumbravam alguma possibilidade de tráfico de influência.
Cheguei em casa trôpego e ansioso por dividir a novidade. Comuniquei a nomeação à patroa. Ela não deu muito ouvido e avisou que tinha lasanha no forno. Continuou assistindo a novela.
No dia seguinte peguei o terno no fundo do armário e mandei para a tinturaria para tirar o cheiro de naftalina. Tinha duas preoucupações, como escolher os pedidos, e como achar a galera. Demandas não faltavam: o Flamengo estava na pindaíba, segundo os jornais americanos a floresta amazônica ia ficar do tamanho da floresta da Tijuca, Fidel ainda estava vivo, a África continuava uma lástima, o Bush foi reeleito, o sapo barbudo idem, o aquecimento global prometia praia em Brasília (jóia!), mas o fim de Ipanema (nunca!), e a lista não tinha fim. A outra preoucupação obviamente era achar um jeito de contactar a galera: Mãe Meninha do Gantois faleceu há muitos anos, o oráculo de Delfos aposentou-se (stress?), as companhias telefônicas pararam de distribuir catálogos onde antigamente se encontrava quase tudo. No desespero lembrei do sobrinho que era gerente numa empresa de informática em Brasília. Liguei para o garoto à cata de alguma sugestão. Ele recomendou o Google. Falei que lembrava do AltaVista, MetaCrawler, Netscape e outros. Ele explicou que já tinham levado o mesmo fim que Delfos.
Meio desconfiado, e sem entender as forças ocultas que existiam por detrás deste novo oráculo, ataquei-o assim mesmo. Segui as coordenadas do sobrinho e achei o dito. Sem muita cerimônia digitei lá: how can I talk to God? (não sabia se o cara era monoteísta ou não, mas resolvi ser conservador na pergunta). As respostas, digo, links, que se seguiram, foram mais ou menos as seguintes:
Kids Talk About God - An Online Service Helping Christians Inspire ...
I want to talk to God and ask why!
BBC - Press Office - George Bush on Elusive Peace
Nine Ways Not to Talk about God, by Raimon Panikkar
Após apertar alguns botões aqui e acolá optei pelo iGod (não vi nenhum logo da Apple, mas ainda assim fiquei na dúvida se tinha o dedo do Steve Jobs na parada).
Anunciava no sutiã - aquele negócio que suporta o título, não o outro suporte - em inglês, “arrependimento facilitado”. Gostei. Tinha umas coisas meio atrasadas mesmo. Apertei o botão onde dizia: aperte aqui. Abriu uma janela que anunciava: você está falando com Deus. Tentei algumas coisas antes, para testar. O diálogo foi assim, em inglês:
- Eu: Detesto o Bush (I hate Bush).
- Deus: Honestamente acho que você deve se sentar, tomar um calmante e repensar as coisas (I honestly think you should sit down, take a stress pill, and calmly think things over). Eu: É eu sei, é duro aguentar o cara.
- Eu: Eu detesto o Lula (I hate Lula).
- Deus: Por quê você o detesta tanto? (Why do you hate it so much?) Ai eu pensei: Tá maluco?!? Você é terapeuta, Deus ou cego?
- Eu: Espero que o Flamengo ganhe. (I hope Flamengo wins).
- Deus: Por quê você tem esperanças? (Why do you hope for it?) Ai eu pensei: É eu sei, tá difícil.
- Eu: Você pode facilitar as coisas para nós? (Can you make things easier for us?)
- Deus: Sim eu posso facilitar muitas coisas para vocês. (Yes I can make things easier for us). Ai eu pensei: Massa! Agora estamos conversando.
- Eu: Como? (How?)
- Deus: Eu me programei a mim mesmo para isto. (Myself programmed me for it) Ai eu pensei: Convencido. Só quero ver depois.
- Eu: Garantido? (Guaranteed?)
- Deus: Como você ouviu falar sobre Deus? (How did you hear about God?) Ai eu pensei: Iiii, desconversou.
- Eu: Na bíblia. (In the bible).
- Deus: Foi muito tempo atrás. (That was a long time ago). Ai eu pensei: Tô sabendo, mas ainda não lançaram uma edição atualizada.
- Eu: E o aquecimento global? (What about global warming?)
- Deus: Pensarei a respeito e depois te respondo. (I will think about it and get back to you.). Ai eu pensei: Fugiu da raia de novo.
- Eu: Conversamos mais tarde. (Talk to you later)
- Deus: Te vejo mais tarde! (See you later!)
Fiquei animadíssimo com o contato inicial. Pensei em voltar logo ao boteco do portuga, juntar o eleitorado e fazer uma prestação de contas parciais do meu desempenho até o momento. Mas talvez fosse melhor pegar o terno na lavanderia antes, dadas as novas responsabilidades tinha que cuidar mais do visual. No caminho da tinturaria, imbuído do espírito de legislador divino, devidamente conectado, fiquei imaginando o primeiro salário, o aumento retroativo, o jeton, a montagem do gabinete, a base de apoio. Havia muito trabalho pela frente. Acabei decidindo ir para a praia mesmo. De lá eu ligaria para o gabinete, avisaria que não iria ao plenário hoje, enfim, começaria o trabalho. Não tinha como falhar.
P.S.: tente você mesmo o iGod.
Mas por favor não espalhe.
Ainda estou solidificando a carreira parlamentar.
Livre-tradução, busco
segunda-feira, abril 30, 2007
Um ex muita coisa
Quando criança eu era comunista. Não rias, é verdade. Sonhava com um mundo melhor, com um governo mais justo e honesto. Coisa de menino asmático que ficava em casa lendo os russos Gorky (A mãe), Chekov, o inglês George Orwell (A revolução dos bichos), Graciliano Ramos (Vidas Secas) e outros autores que falavam da tal “opressão da classe trabalhadora por burgueses e/ou monarcas”. A trilha sonora que me acompanhava nesta época, ali pelos meus dez ou doze anos de idade, era composta primordialmente de Chico Buarque (várias músicas), e Geraldo Vandré (apenas uma, repetida incessantemente). Influência benigna de uma Tia querida que se gabava de ter todo os LPs do Chico.
Ainda vivíamos numa ditadura. Eu percebia algumas coisas, muitas não entendia. Uns anos mais tarde, comunista mais aguerrido, acabei me metendo com movimentos estudantis. Organizava passeatas, protestos, mas ainda não pintávamos nossas faces. Esta bela inovação veio bem depois, pela mão de outros estudantes secundaristas.
Iniciava o movimento na minha escola, no começo da Asa Sul, e puxava o cordão até o final da Asa, parando em cada uma das muitas escolas secundárias no percurso. Depois voltávamos às centenas pela W3 rumo ao Congresso. Corri da polícia, seus gases e cães algumas vezes. Era mais rápido e tinha mais sorte naquela época, nunca me alcançaram.
Em Brasília havia panelaços, buzinaços e outros protestos pseudo-organizados. Não havia “torpedos ou instant messaging” naquela época, não sei como fazíamos.
Fogo-fátuo: geração espontânea dos gases emanados de um corpo em decomposição. O sistema já apresentava sinais claros de findar-se. Houve a emenda das Diretas-Já, que perdemos, e a última eleição do colégio eleitoral, que vencemos.
Havia um pulha, desconectado do tempo, Newton Cruz, comandante do CMP (Comando Militar do Planalto). Num dos buzinaços ali na esplanada desceu do seu gabinete no Ministério do Exército, pegou um dos soldados de prontidão na entrada, e caminhou até a avenida. Parou um dos muitos carros que buzinavam ali. Ordenou ao pobre soldado que apontasse a metralhadora que trazia para o rosto do pobre motorista. Armada a cena, troça do motorista: toca esta merda da buzina agora, toca se você for homem! Ato de covardia insana. O motorista tocou a buzina assim mesmo.
Vencemos a ditadura, e perdemos o Tancredo. No dia da sua internação, véspera da posse, dormia na casa da Tia, pronto para as celebrações do dia seguinte. De madrugada o primo me acorda anunciando que o Tancredo tinha sido internado. Mandei que ele parasse de inventar histórias e me deixasse dormir. Ele insistiu com a história maluca. Eventualmente acordei e fui até à sala. Assistíamos a TV incrédulos. Ainda incrédulos fomos até a entrada do Hospital de Base. Confirmamos a internação. Ninguém acreditava naquilo. Morreu meses depois.
Muita coisa se passou desde então. Já tinha abandonado o comunismo há tempos, mas o PT cuidou de enterrar o sonho.
domingo, abril 29, 2007
Chapa-quente
A sombra, minha sombra

Tai Chi in Hong Kong
by Lonely Planet
Pelo canto do olho vejo-a, bem perto de mim, seguindo meus passos, um a um, sem tropeçar. Não sei dançar direito, mas com ela nunca ocorreu-me de errar os passos ou pisar-lhe os pés. Já me acompanha há vários anos, quase desde quando eu vim ao mundo, cogito. Não lembro de nada desta época. Minha mãe diz que foi cesariana, e me mostrou o hospital. A súbita claridade deve ter me assustado. Mas não lembro. Contudo, imagino que já estivesse ali ao meu lado. Quando era criança brincava de fugir dela, tentava ser mais rápido, perder-me de si. Depois de várias tentativas infrutíferas consegui um dia descobrir-lhe a fraqueza. Corria rápido pela casa e me escondia num canto escuro. Ela sumia. Com o passar dos anos fui me acostumando com sua presença. Era uma amiga solidária, escutava minhas estórias, meus devaneios, em silêncio. Às vezes parecia concordar ou discordar, balançando a cabeça. Era monocromática, negra, com tons de cinza, mais claros ou mais escuros. Como eu, preferia o sol à noite. Era mais presente nestas ocasiões. Na busca de mim mesmo pensei em usá-la para tentar me compreender. Deveria ser mais fácil, uma cor, duas dimensões apenas. Pensei e penso em descrever-lhe por uma equação matemática, algum algoritmo. Talvez ajude a minha busca. E se não conseguir descobrir as respostas restará a algum que a queira estudar, na prateleira empoeirada de alguma biblioteca. Quando me for irá comigo, fiel, numa caixa escura. Dirá adeus antes da tampa se fechar.
sexta-feira, abril 27, 2007
Auto-carros e paragens
As veias levam o sangue, vida e oxigênio ali contidos.
Este vai e volta.
Os auto-carros passam de paragem em paragem, num ciclo.
Alguns passageiros descem, outros sobem.
Aguardo pelo auto-carro que a levou, sentado naquela paragem.
Desejo e afeto ali contidos...
quinta-feira, abril 26, 2007
Te dire
"Te dire cosas
que nunca dije
Te abrire una puerta
Que nunca te he abierto
Te susurrare al oido
Como nunca nadie
Para decirte
Que te quiero.
Y amarte
Y sonarte
Y beberte,
Como un rio
En mis manos
Y con mi cuerpo
Desnuda.
Te amo
Y te espero.
Y te dire cosas de otro tiempo
Y otros lugares.
Como la nina que fue
Y el hombre que eres.
Como la busqueda incansable
Que adorna mis huesos.
Y te dire cosas...
Sin decirle al viento."
Uma índia, um olhar, um encontro, uma despedida
"Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente
Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido cada dia mais curto" (...)
Minha História
by Chico Buarque
O telefone toca. Aguardo um instante antes de decidir se estou sonhando ou acordado. Prefiriria a primeira opção, mas o segundo toque não deixa dúvidas. Estico o braço na direção do som. Tateio e consigo encontrá-lo. Alô. Sim. É, mais um dia. Obrigado, valeu tchau. Ah, que horas são? Merda. Quer dizer, obrigado. Tchau. Repouso-o sobre o gancho. Resolvo abrir um olho, um pedacinho apenas. Último dia naquela cidade. No dia seguinte deveria pegar o barco e descer o rio, tempo de ir-me daquelas bandas. Com preguiça, e com ressaca, consigo chegar até o banheiro. Minutos mais tarde é possível emergir com uma aparência quase humana. Me visto, pego a carteira e o bloco de notas. Pego um taxi com destino à feira local. Meu guia de viagem indicava um bom local para visitar e recomendava comer em alguma das barraquinhas da redondeza. Chego ainda meio zonzo, mas consigo encontrar uma lanchonete onde o taxi me abandonou. Peço um suco de frutas da região, uma daquelas que não se parecem com nada que você já experimentou antes. Pego e pago. Saio. O calor e a umidade castigam minha carne desidratada. Começo a caminhar pela feira. Frutas esquisitas, odores idem. Caminho devagar, o corpo ainda se recupera. Levanto os olhos do copo de suco e a vejo. Estava numa barraca de peixes, comprava alguns. Tinha a pele morena, cabelos negros compridos, bunda grande, seios menores. Havia várias índias como ela por ali, mas tinha algo mais, nao sabia o quê. Caminhei na sua direção, quase hipnotizado. Imagino que o coração continuou a bater, que meus olhos piscaram, que o pulmão seguia inspirando e respirando, mas isto é mera suposição. Parecia uma daquelas cenas de filme em que tudo fica em silêncio e a lente vai se aproximando da personagem. Não via muito mais além dela. Pareciam figuras distorcidas, imagens fora de foco. Perto dela tropecei numa criança. Despertei. Fiquei sem graça, pedi desculpas à crianca e à mãe. Ela parecia achar graça também. Obviamente percebeu que eu não era daquelas bandas. Um gringo bobo, quiçá. Aproveitei para vê-la mais de perto. Usava óculos escuros grandes e nenhuma maquiagem. Lábios, olhos bochechas, queixo, nariz, testa, orelhas, cabelo. Escrutinava tudo. Ela meio acanhada, sorriu. Consegui dizer oi. Ela replicou o monossílabo. Pensei em dizer algo, mas nada conseguia ser elaborado. "Deu pau no sistema", diria algum primo. Ocorreu-me de perguntar-lhe sobre os peixes que comprava. Pergunta tola, mas eu não conseguia produzir nada melhor do que aquilo naquela hora. Estava anestesiado ainda, pela sua beleza, integral, charmosa, cheirosa, discreta. Seus lábios se moviam, parecia responder minha pergunta. Procurei escutar. Do pouco que meus tímpanos fizeram chegar ao cérebro, o resto se perdeu por aí, entendi que tinha ou trabalhava num restaurante. Aproveitei a deixa e disse que estava com muita fome, e inquiri sobre o restaurante. Ela explicou que era um pouco longe dali, no bairro fulano de tal. O nome me fez lembrar de algo. Abro o caderninho de anotações e confirmo que havia uma igreja naquele bairro também por visitar, segundo o guia. Invento uma estória que estou indo para aquelas bandas visitar a tal igreja. Ela finge acreditar. Ofereço para ajudar a carregar as sacolas. Relutante ela aceita. Passamos em mais algumas barracas onde ela compra mais alguns itens. No caminho me contou que era filha única, e junto com a mãe mantinham um pequeno restaurante. Não era muita coisa mas dava para pagar as contas. Estudava pela manhã, sonhava ser bióloga. Tinha esta curiosidade pela vida que brota, cresce e um dia se vai. Mexia nos cabelos enquanto falava. Eu ficava absorto, às vezes escutava o que ela dizia, outras vezes não fazia questão. O corpo respondia confuso, cheirava seus olhares, olhava sua boca, ouvia seu perfume... Anunciou que estavam encerradas as compras e que deveria buscar um lotação para chegar em casa. Fez menção de despedir-se. Acordei assustado do meu transe. Disse que não e me ofereci para irmos de taxi. Argumentei que estava indo mesmo para aquelas bandas, e que as sacolas estavam muito pesadas. Ela tentou dizer que não, mas eu já havia alcançado um taxi, e aguardei-a com a porta aberta. Com um riso tímido ela aceita e entra no taxi. Indica ao motorista o endereço. Chegamos, pago e abro a porta. O lugar é simples. Algumas mesas de metal, daquelas oferecidas pelas companhias de cerveja, panos quadricalados cobrindo-lhes a nudez, saleiros e paliteiros de plástico sobre os panos. A mãe, uma índia que ainda trazia os traços da beleza de outrora, aguardava sentada nos degraus. Ela nos apresenta. A mãe me olha com um certo ar de desconfiança. Pergunta de onde sou, e franze o cenho quando replico. Fico sem entender porque. Ela percebe e vem ao meu resgate. Na mão traz o cardápio, nos lábios um sorriso. Menu simples como o resto do lugar. Sem olhar peço um daqueles peixes frescos que acabamos de comprar, à moda da casa, o que quer que isto seja. A mãe responde entre dentes que vai levar muito tempo para preparar. Replico que não tenho pressa. E que afinal estava ali para visitar a tal da igreja. A mãe vira as costas e parte rumo à cozinha. Ela sorri incomodada pela rispidez da mãe. Não ligo. Fico apenas olhando para seus lábios, brilhantes, carnudos, morenos como o resto da sua pele. Ela me indica o caminho da igreja e diz que quando voltar o peixe estará pronto. Nos despedimos. Ela sorri mais uma vez antes de virar-se e ir ter com a mãe na cozinha. Sigo na direção que ela me indicou. Fico vagando pelas esquinas olhando para dentro, revendo o filme que gravara na mente, com suas imagens. Encontro um boteco. Me aboleto no balcão simples e peço uma cerveja gelada. O dono me traz junto com um copo, que talvez já tenha sido de geléia ou requeijão. Um pedacinho do rótulo ainda não havia sido lavado. Bebo rápido a primeira, peço uma segunda, depois uma terceira. Faço as contas e penso que já é hora de voltar ao restaurante. Peço a conta ao dono. Jogo as moedas sobre o balcão. Antes de sair, e para certificar-me, pergunto ao dono onde é o restaurante. Ele indica com o dedo e complementa com duas frases curtas. Era próximo. Sigo naquela direção. Meus pensamentos ainda monotemáticos, ela apenas. Viro a última esquina e a vejo em pé à porta. Ela acena e sorri. Retribuo. Não em resposta a ela, mas por mim mesmo. Estava feliz, infantilmente feliz. Chego. O lugar está vazio, é cedo para as jantas e tarde para os almoços, mas não me tocava com nada disto. Não sabia bem ao certo se ainda tinha fome, mas também de nada valeria a observação. Ela vem da cozinha trazendo os pratos. Caminha de uma forma elegante. Percebo que trocou de roupas e tomou banho. Ainda trazia os cabelos úmidos. Tinha uma camiseta curta, ombros nus, e uma saia azul leve, com alguns bordados e algumas miçangas, um pouco cigana. Coloca os pratos sobre a mesa e me deseja bom apetite. Sorri. Olho para seu rosto e me dou conta, não tinha mais os óculos escuros, no lugar das pupilas e da íris apareciam duas safiras azuis, transparentes, brilhantes. Fico de boca aberta olhando para eles. Penso em dizer algo mas as palavras me faltam novamente. Ela sorri e sai. Fico olhando para lugar nenhum, perdido, ébrio. Algum tempo depois ela retorna. E rindo pergunta se eu vou comer alguma coisa. Os pratos estavam sobre a mesa, como ela os havia deixado. Tento me recompor, me sirvo e começo a comer. Processo mecânico sem nenhuma importância. A alma se saciava dos seus olhares. Olho novamente para ela e com frases incompletas falo alguma coisa dos seus olhos. Meio sem jeito ela explica que foi herança do pai. E ao fim da frase nota que foi a única herança do pai. Sinto uma gota de amargura escorrer daquele comentário. Perguntei sobre os pais. Parece incomodada com a pergunta. Olha para o chão. Conta que nunca conheceu o pai. Deste tinha apenas as histórias da mãe e uma foto onde apareciam abraçados. Explicou-me que os pais se conheceram um dia na rua. Ele, um gringo de passagem por ali, engenheiro de um projeto próximo. Namoraram alguns dias, até que ele partiu. Pegou o barco, como os outros homens daquele lugar, e desceu o rio. Nunca mais voltou. A mãe, que não sabia da vida que já carregava no ventre, despediu-se dele no porto. Foi a última vez que se viram. Foi assim que ela me contou. Sentia a tristeza ali nos seus olhos azuis. Pensei em dizer algo. Finalmente conversamos sobre a escola e os planos. Ela também sonhava em um dia descer o rio, conhecer o mundo do outro lado. Falava de descer o rio e ir ter no mar, imenso ouviu dizer, e se perder no mar. E um dia voltar para contar tudo à mãe. Consegui terminar de comer enquanto conversávamos. Bebia dos seus olhos. Percebia que também olhava para mim, um olhar distinto. Tento perguntar o que fazer por ali, a que horas ela estaria disponível, onde poderíamos caminhar. Ela disfarça. Eu insisto. Ela responde que não há muito o que fazer. Bairro humilde, sem grandes atrações. Respondo que não tenho pressa. Ela finalmente dá a entender que poderíamos ir até a sorveteria, que fechava depois do seu restaurante. Disse que sim. Combinamos para mais tarde. Relutante, pago e parto. Vejo seus olhares doces, e o ar de reprovação da mãe, antes de virar a esquina. Aceno. Volto ao bar de antes. Continuo a beber. Uma mesa de sinuca velha. Pego um dos tacos e coloco meu nome na lista de próximas. Jogo algumas partidas, venço a maioria, sigo bebendo. A certa altura o dono do bar indica que são horas de fechar. Pergunto as horas: merda! Esqueci. Pago e corro até a sorveteria. Encontrei-a quase partindo, olhos tristes. Chego até ela esbaforido, peço desculpas. Ela sorri e aceita. Entramos, pedimos os sorvetes e fomos caminhar na beira do cais. É noite de lua cheia. Sua pele morena reluz. Seus olhos azuis concorrem com o brilho da lua. Brilham mais que as estrelas, sem dúvida. Continuamos a caminhada. Preencho o silêncio com minhas histórias, minhas viagens, as coisas que existem do lado de lá do rio. Ela escuta, acha graça. Gosto do seu gosto. Faço menção de pegar-lhe a mão. Ela não faz menção de correr. Procuro um canto no muro do cais. Me viro para ela e sem dizer palavra beijo-lhe. Ela retribui. Sinto o gosto doce dos lábios, e o perfume da sua pele se entranha pelas minhas narinas. Abraço-a mais forte. Ela também. Ficamos ali não sei quanto tempo, um tempo curto, curto demais para minha existência. Não falamos mais palavras, deixamos que as mãos e o resto de nossos corpos o façam. Ela me pega a mão e diz com os olhos que devo segui-la. Caminho tortuoso, becos escuros, aperto mais a sua mão. Chegamos à sua casa. É tarde e todos parecem dormir na vizinhança. Ela entra devagar e indica com a mão que a espere. Volta rápido com um cobertor largo. Não entendo, a noite é quente. Me leva para detrás da casa. Sobe por uma escada pequena, enferrujada. Vou atrás. Alcançamos a laje. Ela abre o cobertor, deita e me convida com os braços abertos. Vou ao seu encontro. Aperto-a mais. Ilusão de fundir nossos corpos, talvez. Carinhos e beijos. Buscamos silêncio, interrompidos por alguns gemidos, exclamações de nossas almas. Aos poucos retiramos as vestes que nos cobrem. Ficamos nus. Os carinhos seguem. A lua, lá de cima, nos olha. Deveria estar sorrindo também. Beijos, carinhos, gemidos... me ajeito para dar meu corpo a ela... fazemos amor. Acordo no dia seguinte. Ela ao meu lado. Os raios do sol, poucos, lilazes, vermelhos, refletem sobre o rio, que enxergo dali de cima. A lua foi esconder-se. Beijo-a mais uma vez. Ela sorri sem abrir os olhos. Me abraça. Fazemos amor novamente. Penso que o Sol também deve estar sorrindo. Catamos nossas roupas. Descemos a escada. Ela me acompanha até a esquina. Emito as primeiras palavras em muitas horas. Explico que vou ao hotel, pegar minhas coisas e embarco mais tarde. Ela abaixa a cabeça em silêncio. Abraço-a. Sinto a camisa molhada, das suas lágrimas. Os olhos azuis se cobrem de uma cor vermelha. Beijo-a longamente, uma última vez. Parto. Saco um taxi até o hotel. No caminho a confusão de pensamentos me assola. Sigo mecânico, a rota mais fácil que não passa pelo coração. Peço ao taxi que me espere. Subo, pego minhas coisas, pago o hotel e retorno ao taxi. Indico-lhe o caminho do porto. Pago o taxi. Procuro meu barco. Dezenas de pessoas passando com suas malas e mercadorias. Alguns chegando, outros partindo. A mesma viagem. Vou ao barco. Ordeno aos neurônios que silenciem o coração. Doce ilusão. Meus pensamentos não se descolam dela. Era como uma imagem semi-transparente, tudo o que meus olhos viam, daquele cais, daqueles barcos, tinha um anteparo, uma imagem, seu sorriso, seu olhar. Subo no barco. Procuro meu lugar. Largo as coisas lá. O barco anuncia a partida. Vou ao convés. Busco o ponto mais alto. Olho para a cidade. Olho para o cais. Vejo-a ali, acenando para mim. Algumas lágrimas molham o rosto de ambos. Não tenho certeza se é alguma artimanha da minha mente, ou se de fato ela está ali aos pés do cais. Aceno assim mesmo. Com o vento soprando na sua direção envio beijos. O barco solta as suas amarras e começa a se distanciar do ancoradouro. Busco a popa. Grito para ela:
“Eu volto, um dia...”





