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sábado, abril 21, 2007

Aldeia Global

Vinham de todas as partes. Não fiz um censo naquele antro de luxúria, mas havia diversas colombianas, filipinas, vietnamitas, tailandesas, chinesas, ganenses, russas etc. As filipinas e colombianas predominavam. Dividiam o espaço de certa maneira, colombianas, e seus seios fartos, à direita, filipinas, sem bunda, à esquerda.

Um sociólogo dos anos ’70 talvez citasse a opressão dos antigos colonizadores e a luta de classes para explicar a opção por aquela vida difícil e efêmera.

A realidade era mais fugaz:

“No money, no honey”, explicou-me Sofia, uma russa.

Saí entendendo tudo.

Aldeia Global

Eis que em Saigon um dos restaurantes chiques é uma churrascaria. Serviço cordial, carta de vinhos de bom tamanho e comida boa. O feijão, preto, caldo grosso, pedaços de linguiça defumada boiando. Divino. A picanha, apesar dos esforços, só serviu para me deixar com saudades do Fogo de Chão, que também é For Export.

Os donos, um sueco e uma vietnamita.

PS: não tinha farinha :(....


sexta-feira, abril 20, 2007

Paradoxo






Há cidades ricas com seus cidadãos velhos e parques novos, porém vazios de crianças.
Há cidades pobres com seus jovens, quase cidadãos, mas sem parques, novos ou velhos.



Alguns economistas chamam isto de assimetria de informação.
Outros indicam um desequilíbrio entre oferta e procura.
Alguns mais ousados, como Stiglitz, escancaram e ousam dizer que está tudo errado com esta tal de globalização, e a não distribuição de renda e cidadania resultantes.



Acho que era Nelson Rodrigues – que não cansa de ser lembrado pelas mazelas humanas que [d]escrevia – quem dizia que a realidade é sempre mais dura do que a ficção.


Sábias palavras.


Inspirações



By Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, 2001,

Não é bola de cristal mas explica muito do inexplicável.


segunda-feira, abril 16, 2007

Pontes


Muito tempo atrás, longe era fora do Plano Piloto. Depois eu descobri as viagens interestaduais e longe passou a ser depois de Salvador. Um dia saí do Brasil e longe virou depois da fronteira, do outro lado da Ponte da Amizade, onde se atravessa a pé.

Continuei atravessando pontes a pé por aí, Brooklyn Bridge em New York, Golden Gate em San Francisco, Le Pont St. Michel em Paris, Charles Bridge em Praga, mais de uma dúzia em Veneza, Harbour Bridge em Sydney, e outras tantas por aí.

Coleciono também um quilo de dessabores e uns cem gramas de inimizades, também atravessados a pé.

Mas ainda, muito tempo atrás, longe mesmo, era na Cochichina. Consegui chegar na Cochinchina, que uma dia já foi Saigon. Mas ainda não atravessei nenhuma ponte.



quarta-feira, janeiro 24, 2007

Navegar é preciso, viver não é preciso


“Para toda a humanidade e no decorrer de todos os tempos, o mar tem sido o grande símbolo do inconsciente. As ilhas do outro lado do mar, os reinos exóticos e as terras distantes, sempre representaram, o Grande Desconhecido. A atração que sentimos por estes lugares tão cheios de mistérios, de magia, de tapetes voadores e gênios, tem um significado interior profundo. É a nostalgia das profundezas misteriosas e inexploradas de nossa psique, das potencialidades ocultas dentro de nossa alma – aquilo que jamais conhecemos, jamais vivemos ou ousamos.”

Robert Johnsohn, psicólogo jungiano

Conheci Bryan neste ano-novo no sul da Tailândia. Convidou-nos para drinks a bordo de seu barco. Éramos cinco no total. Fiquei incumbido dos Mojitos com hortelã fresca e rum Havana Club, ao som de MPB de ótima qualidade. CD comprado na fronteira com o Vietnam, me explicou. Devia ter mais ou menos a minha idade. Irlandês de nascimento, cidadão dos mares por escolha. Contou-me que mora em seu pequeno veleiro há sete anos, singrando solitário pelos mares do sul. É seu segundo veleiro, o primeiro era ainda menor, me disse. Tinha estórias de pescador para encher um livro, mas recusava-se a escrevê-las. Tinha um bom coração, parecia-me feliz com a vida que escolhera. Contou-me das duas vezes que decidiu desistir, em ambas as vezes depois de dias de tempestade em alto mar quando duvidava que sobreviveria. Porém, uma vez em terra firme, algo o impulsionava de volta, não era ali o seu lugar. Onde seria então? Ainda a descobrir.

Um de seus amigos ali era Paul, inglês de nascimento, samaritano ambulante por escolha. Alguns anos atrás Paul teve um sério acidente de moto. Passou tempos em coma, e por algum descuido recusou-se a aceitar o aperto de mão da morte. Um dia acordou, sem memória. Nunca voltou a recuperá-la integralmente. Aprendeu sobre seu passado, quem um dia foi, quem eram seus amigos, o que havia feito em sua outra vida etc, como lia um livro, seu livro. Embora redescobrisse todas estas coisas eram ainda distantes de si, eram coisas de seu personagem, um outro myself. Um dia recebeu alta do hospital. No banco uma indenização pelo acidente lhe aguardava, complementada pela pensão por invalidez. Decidiu começar a escrever outro capítulo de sua vida, uma outra razão para estar vivo. Decidiu ainda em vida tornar-se anjo. Sua primeira missão foi voar para o sul da Tailândia, PhiPhi island, depois do Tsunami de 2004. Trabalhou como voluntário com o que pôde. Desde então segue o destino das tragédias. Terremoto, furacões etc, onde possa ir, e continuar seu trabalho de voluntário.

Recordo-me do Almir Klink, nosso navegador solitário tupiniquim. O que buscam estes homens? Do que fogem? O que os leva a estas escolhas? Pergunto-me se poderia fazer o mesmo.... concluo que já o faço, em certa medida, mas sem a ousadia de desafiar o mar. Consolo-me com a idéia de que Brasília não tem mar, daí não poder ter me tornado navegador dos sete mares. Fuga.

Cinco de março de 1991, meu dia oficial de partida para o mundo. Primeiro destino, com escala em Assuncion del Paraguay, vôo da LAP (Lineas Aereas Paraguayas, a.k.a., Latas Aéreas Peligrosas) rumo a Miami. Desde então já dei a volta ao mundo algumas vezes, visitei todos os continentes, à exceção da Antártida, e passei por uns 40 países. Os carimbos nos passaportes e as marcas na alma o provam. Solitário continuo minha caminhada. Coleciono aqui e acolá as imagens do que vivi, os gostos que provei, os aromas que cherei, as peles que toquei. Estranhamente me é raro olhar fotos antigas. Elas aguardam lá, empoeiradas no armário ou no hard disk. Há apenas o consolo de que um dia, caso algo similar a Paul me ocorra, haverá muito do livro de memórias para ler em meu leito de hospital. Vários nomes, datas, lugares e sentimentos a redescobrir, um outro myself.




terça-feira, setembro 05, 2006

Reminiscências de um brasiliense viajante I



“As aves daqui gorjeiam mas não gorjeiam como as de lá”


Deve ser mesmo da natureza humana comparar velhas e novas moradias. E pela mesma via procuramos relacionar o novo ao que possuímos de velhas experiências, conscientes ou inconscientes. Ou talvez seja apenas por saudosismo e puro banzo.

Eu aqui, do pouco que há para me fazer lembrar da terra natal, procuro encontrar, ou criar no meu imaginário, pontes para o meu passado, Brasília, por assim dizer.

Estou na casa de amigos de um amigo asutraliano/irlandês. A casa, grande e muitíssimo bem localizada – vista para o mar, bairro chic etc – não é nem feia nem bonita, embora prática. Faz-me recordar aquelas casas quadradadas ali das “700” (nota: quem não conhecer Brasília e achar que isto é algum codigo secreto, tudo bem, relaxe).

Atrás há um prédio lindo, moderníssimo, de uns 30 ou 40 andares – não ando tão ocioso assim, ao contrário do que pensam alguns, para tê-los contado de fato. Ele é de vidro exposto, e está num ponto acima da casa, na rua de trás, e obviamente todo de frente para o mar. Imagino como deve ser verde o mar visto ali de cima. À noite, uma série de pontos de luz multi-coloridos, e verticalmente alinhados ao longo das colunas, dão-lhe vida. É bonito de se ver. O formato, embora esteja perfilado ali para o mar (Ah, como eu queria que Brasília tivesse praia....), lembra-me a Catedral, ali como uma mão aberta, espalmada para trás.

Meu ilustre anfitrião explicou-me com olhos ainda arregalados, apesar de ser provavelmente a enésiam vez que devia relatar o caso, que naquele prédio ninguém morava.

Seria assombrado, pensei em perguntar-lhe, mas ele calou meu pensamento. Com os olhos ainda bem abertos me contou que a dona – isto mesmo, o prédio todo com suas várias dúzias de apartamentos vazios, pertence a uma mulher destas bandas – ainda não havia decidido qual o melhor uso para o edifício.

Para arrematar ele descreveu seus dois vizinhos. De um lado uma bela mansão, de uns 400 metros quadrados de área útil, toda de granito externo e onde morava apenas uma senhora de 78 anos, e seus servos. A mansão, construída pelos filhos da mesma, continha apenas um único quarto. Quando ela morresse, eles provavelmente reconstruiriam a casa.

Do outro lado, uma casa similar à sua, igualmente bem localizada mas de gosto questionável. Estava há dez anos vazia, sem ser alugada. Estimou meu anfitrião em quatro milhões de euros a receita não auferida com o aluguel.

Bom, neste ponto encerraram-se as semelhanças com a terrinha.