sexta-feira, abril 25, 2008
domingo, dezembro 09, 2007
Vozes da Seca

Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do poder
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chover
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem comer
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barragem
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudagem
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiagem
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa coragem
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãoComposição: Luiz Gonzaga / Zé Dantas
Extraia o sumo: CD Luiz Gonzaga e Fagner ABC do Sertao 1988
sábado, dezembro 08, 2007
Jardins de Iemanjá
Mestre Marçal

"mas eu não posso sair daqui sem o meu sorriso".
Acharam a dentadura depois, numa caixa de sapatos.
Extraia o sumo: CD Mestre Marçal, TV Cultura Programa Ensaio
Peter Drucker

The 21st century will be the century of choices, (… not the century of the internet).
Once upon a time, at a mountain in Nepal

From Setu, a holyman:
You are very lucky to be here. This is a heavenly place. You should be thankful to be here. Because of your parents and ancestors you are able to be here today. So, be also thankful for them.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Groene ogen
sábado, novembro 17, 2007
quarta-feira, outubro 24, 2007
Linda Um e Linda Dois
Havia duas, uma loira e uma morena, igualmente soberbas. Pensava em matemática, herança antiga, vício antigo. Houve quem já a considerou a "mãe de todas as ciências". Felizmente há o mundo além das ciências, ditas exatas. Há cheiros, gostos e amores, que rogo, nunca possam ser transladados para insípidos algoritmos. Além da beleza ímpar que ambas possuíam, nada mais podia inferir, nem de onde vinham nem para onde iam. Na ausência de inspiração melhor ocorreu-me chamar-lhes apenas de 'Linda Um e Linda Dois'. Saliento que neste caso Dois não é maior do que Um. E que se preservem os limites da matemática.
segunda-feira, abril 30, 2007
Um ex muita coisa
Quando criança eu era comunista. Não rias, é verdade. Sonhava com um mundo melhor, com um governo mais justo e honesto. Coisa de menino asmático que ficava em casa lendo os russos Gorky (A mãe), Chekov, o inglês George Orwell (A revolução dos bichos), Graciliano Ramos (Vidas Secas) e outros autores que falavam da tal “opressão da classe trabalhadora por burgueses e/ou monarcas”. A trilha sonora que me acompanhava nesta época, ali pelos meus dez ou doze anos de idade, era composta primordialmente de Chico Buarque (várias músicas), e Geraldo Vandré (apenas uma, repetida incessantemente). Influência benigna de uma Tia querida que se gabava de ter todo os LPs do Chico.
Ainda vivíamos numa ditadura. Eu percebia algumas coisas, muitas não entendia. Uns anos mais tarde, comunista mais aguerrido, acabei me metendo com movimentos estudantis. Organizava passeatas, protestos, mas ainda não pintávamos nossas faces. Esta bela inovação veio bem depois, pela mão de outros estudantes secundaristas.
Iniciava o movimento na minha escola, no começo da Asa Sul, e puxava o cordão até o final da Asa, parando em cada uma das muitas escolas secundárias no percurso. Depois voltávamos às centenas pela W3 rumo ao Congresso. Corri da polícia, seus gases e cães algumas vezes. Era mais rápido e tinha mais sorte naquela época, nunca me alcançaram.
Em Brasília havia panelaços, buzinaços e outros protestos pseudo-organizados. Não havia “torpedos ou instant messaging” naquela época, não sei como fazíamos.
Fogo-fátuo: geração espontânea dos gases emanados de um corpo em decomposição. O sistema já apresentava sinais claros de findar-se. Houve a emenda das Diretas-Já, que perdemos, e a última eleição do colégio eleitoral, que vencemos.
Havia um pulha, desconectado do tempo, Newton Cruz, comandante do CMP (Comando Militar do Planalto). Num dos buzinaços ali na esplanada desceu do seu gabinete no Ministério do Exército, pegou um dos soldados de prontidão na entrada, e caminhou até a avenida. Parou um dos muitos carros que buzinavam ali. Ordenou ao pobre soldado que apontasse a metralhadora que trazia para o rosto do pobre motorista. Armada a cena, troça do motorista: toca esta merda da buzina agora, toca se você for homem! Ato de covardia insana. O motorista tocou a buzina assim mesmo.
Vencemos a ditadura, e perdemos o Tancredo. No dia da sua internação, véspera da posse, dormia na casa da Tia, pronto para as celebrações do dia seguinte. De madrugada o primo me acorda anunciando que o Tancredo tinha sido internado. Mandei que ele parasse de inventar histórias e me deixasse dormir. Ele insistiu com a história maluca. Eventualmente acordei e fui até à sala. Assistíamos a TV incrédulos. Ainda incrédulos fomos até a entrada do Hospital de Base. Confirmamos a internação. Ninguém acreditava naquilo. Morreu meses depois.
Muita coisa se passou desde então. Já tinha abandonado o comunismo há tempos, mas o PT cuidou de enterrar o sonho.
terça-feira, abril 24, 2007
IINN – Neurociências
Imagine que você fosse um neurocientista renomado, um dos mais conceituados no mundo. E que você tivesse um prédio de pesquisa, com vários laboratórios, algumas dúzias de estudantes de pós-doutorado, doutorado e mestrado trabalhando para você. Imagine que você fosse professor titular de uma das dez maiores universidades americanas, com vários artigos publicados nas mais renomadas revistas científicas. E que um dia a insanidade lhe acometesse e você resolvesse fundar um centro de pesquisa internacional numa pequena cidade do nordeste. E que esta loucura fosse contagiosa e você arranjasse mais dois mosqueteiros.
Alguns te chamariam de visionário, e muitos te chamariam de louco, certo?!?
Pois que vivam os loucos!
Miguel Nicollelis, Claudio Mello e Sidarta Ribeiro, os três mosqueteiros.
O primeiro é palmeirense, e professor da Duke University. Os outros dois, de melhor estirpe, flamenguistas, vêm de Brasília, da UnB. O último, pós-doutor em neurobiologia, é diretor de pesquisas do centro, professor de capoeira e escritor nas horas vagas...
PS: eles são loucos mesmo,
querem abrir outros centros de pesquisa no nordeste...
segunda-feira, abril 23, 2007
Miles Davis - the genesis of a second God
Interviews with: Chick Corea, Herbie Hancock David Liebmann, Pete Cosey etc. They all played with Miles when he met Jimmi Hendrix, Santana, others, and became electric.
Plus the Master himself, Miles Davis.
"I played one way so long that I just had to change my way. In order to give it to you. So you will like it."
"It was no longer jazz, and they were asking jazz critics to evaluate Miles."
"Play through it. There are only two vibes. The vibe on the stage and the vibe out there. Play it."
domingo, abril 22, 2007
Inspirações

O homem e seus símbolos, o último livro que ele escreveu.
Sabe máquina de caça-níqueis?
Quando você acerta no jackpot caem várias fichas.
Voltas-tu?
sábado, abril 21, 2007
(...)
Acordei ao seu lado, ou deveria dizer, sob ela. Tinha a cabeça repousada no meu peito. Ela ajeitou o lençol sobre si. Me dei conta do frio. Ar-condicionado forte, lençóis úmidos de nós mesmos. Virei-me para desligar o ar. Estiquei o braço e alcancei o botão sem acordá-la. Mirei o espelho no teto, quarto de motel. Nos recebia com suas vantagens de logística e sua impessoalidade asséptica. Lamentei que nossos encontros, freqüentes, tivessem que se dar ali. Mas eu morava em prédio antigo, sem garagem, entrada única, porteiro omnipresente, e fofoqueiro. A óbvia diferença de idade certamente chamaria a atenção. Estaríamos expostos. Além do mais, seu rosto angelical, traços finos e sorriso inocente sugeriam uma idade ainda menor. Poderia ser minha filha, diriam, mas não era. Não os tinha. Órfã de antigos colegas de trabalho, acidente de ônibus. Excursão para a praia. Perdeu os freios na descida da serra. Nenhum sobrevivente. Alguns menos afortunados ainda agonizaram por vários dias em hospitais. Deveria estar naquele ônibus também. Noitada grande na véspera, dormi demais. Acordei com o telefonema de um amigo que soube que eu perdera aquele ônibus. Julgava-me morto até então. Após a morte foi criada pela avó. Esta displicentemente zelosa, e nos últimos tempos conivente passiva com nossos encontros. Havia muito perdera a vergonha daquele enlace. Escorreu depressa, ampulheta de alta vazão. Nunca compreendi quando e onde tudo começou. Mesmo se um dia fosse julgado por este crime de amor, mesmo que o juiz me intimasse a responder, ou que o promotor reiterasse a acusação, ou que arcanjos ou santos me inquirissem no final dos tempos, no juízo final, apocalíptico, cristão, nem lá poderia responder. Não sei dar conta, senhor merítissimo. Não posso precisar, senhor promotor. Não encontro resposta na alma, senhor arcanjo. Que me leves o Diabo, senhor santo! Não havia jeito, por mais que escrutinasse a mente. Procurei olhares fortuitos, sorrisos tímidos, toques inusitados, mas nada que pudesse dar data do início daquela paixão que me consumia a carne e o espírito. Desde a morte dos pais, embora pouco presente, me investi na figura de tio. Vez por outra ligava para a avó para ter notícias suas. Ajudava um pouco nas despesas. Levava-a aos cinemas, lanchonetes e zoológico, como compete aos tios. Vi a puberdade brotrar-lhe. Os primeiros sutiãs. O celular que se transfomou em extensão do corpo. A forma como começou a olhar os outros garotos da mesma idade. A primeira visita ao ginecologista. Certo dia, ao ver os olhares trocados com outro guri, senti ciúmes. Como uma revelação satânica me dei conta da mudança: tornara-se mulher, objeto de desejo. A partir deste dia comecei minhas penitências. Evitei contatos. Não respondia emails. Martirizava-me, penintenciava-me por aquele desejo proibido. Procurei preces, terapia, à toa. Nas terapias discutia fábulas. Rememorava que nos primeiros longas da Disney, as personagens Pateta, Mickey ou até o próprio Pluto, se deparavam entre diabos e anjos, sugerindo-lhes escolhas diferentes, ao pé-do-ouvido. Ao contrário dos coloquiais happy-endings de Hollywood, no meu caso, o Diabo venceu a peleja. Um dia reencontrei-a num bar. Festa de amigos seus. Parei para vê-la. Brevemente, pensei. Como um viciado terminal, a abstinência da sua presença me consumia. Como um alcóolatra em rehabilitação cometi o pecado terminal: uma dose apenas. Embriaguei-me dela. Poucos convidados, bar simples, patê de atum, bolo caseiro e cerveja gelada. Havia um violeiro. Acho que tocava bem. Era boa pinta e as moças disponíveis, solteiras ou não, clamavam por uma fração do seu pensamento. Ele, falsamente alheio, dedilhava um 7-cordas. Todas menos ela. Obstinadamente seguia não apenas seus passos mas também seus olhares. Na minha embriaguez buscava alcançar seus pensamentos. Devaneios. Dancei alguns sambas com ela. A formação de balé não acompanhava meu falso carioquês. Mas ainda assim trazia seu corpo junto ao meu. Passei a entender a expressão sublime amor. Fui ao banheiro. Na volta não a vi mais. Procurei ansioso. Sentia o ar faltar, e o coração bater mais depressa. Eventualmente ela emergiu de um canto escuro, um rapaz a acompanhava. Senti ciúmes. Cogitei em ir até ela e iniciar uma discussão. Futilidade. Prostei-me resignado. Ela se aproximou. Jeito maroto, olhar de falsa timidez. Dançamos mais. Bebia mais. Já não disfarçava a vontade de tê-la nos braços. De olhos fechados trazia-a junto a mim. Fantasiava a realidade de tê-la comigo. Despedidas. Carona oferecida. Carona aceita. Partimos. Caminhamos até o carro. Abri a porta para ela. Fitei-a sem dizer palavra. A lua cheia iluminava. Seus olhos brilhavam. Pensei em roubar-lhe o primeiro beijo ali mesmo. Ela parecia corresponder. Confuso, nada fiz. Uma música qualquer no rádio. Seguia a baixa velocidade. Fazia das minhas para que o ponteiro dos segundos seguisse mais arrastado. Segurava sua mão. A minha transpirava. Desliguei o rádio. Restou o barulho do vento apenas, e nosso silêncio. O turbilhão de pensamentos me assolava, a culpa, a vergonha, e o desejo. Chegamos à sua casa. Calada, ela me pegou pela mão e me fez entrar. A vó viajara na véspera. O anjo me guiava na casa escura. Fomos até seu quarto. Acendeu uma vela. Fechou a porta. Beijou-me. Senti as pernas tremerem. Beijava-me mais. Confuso, ébrio, excitado. Fez sinal para que levantasse os braços. Tirou minha camisa. Acariciava o peito, brincava com os mamilos. Agachada abriu o zíper da calça, me tocou novamente... Deitamos já nus na cama pequena. Era como sob medida para nossos corpos unidos. Não sei descrever o que se passou. Era como se uma revelação divina tivese sucedido. Num clarão vi sua face contraída, seu corpo suado em movimento, e um grito de prazer. Acordei no dia seguinte na mesma posição em que nos encontrávamos naquele motel. Nossos encontros se tornaram quase que diários. As horas e os minutos não faziam mais sentido. Meus momentos se definiam apenas pela sua presença ou pela sua ausência. Pensei em fugir para terras distantes, Passárgada talvez. Ajeitei sua cabeça no meu peito. Um sorriso escorria dos lábios. Não pensei mais sobre o futuro ou até onde poderíamos levar nosso amor proibido. Hoje estávamos ali. Bastava. Fechei os olhos.
Adormeci.
PS: “A chapeuzinho-vermelho
sempre quis ser comida
pelo lobo-mau.”
Maurício Dantas, o bem-assombrado.
sexta-feira, abril 20, 2007
Paradoxo

Há cidades ricas com seus cidadãos velhos e parques novos, porém vazios de crianças.
Há cidades pobres com seus jovens, quase cidadãos, mas sem parques, novos ou velhos.
Alguns economistas chamam isto de assimetria de informação.
Outros indicam um desequilíbrio entre oferta e procura.
Alguns mais ousados, como Stiglitz, escancaram e ousam dizer que está tudo errado com esta tal de globalização, e a não distribuição de renda e cidadania resultantes.
Acho que era Nelson Rodrigues – que não cansa de ser lembrado pelas mazelas humanas que [d]escrevia – quem dizia que a realidade é sempre mais dura do que a ficção.
Sábias palavras.

Inspirações

By Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, 2001,
Não é bola de cristal mas explica muito do inexplicável.





