quarta-feira, março 07, 2007

No contra-fluxo da pororoca



O amigo e colega de apartamento chegou em casa excitado por descrever sua primeira viagem de trabalho por aquela renomada empresa americana de consultoria.

- Pois é Zerundis, passei a vida inteira como estudante. Tu não imaginas o constrangimento que era toda vez que chegava no hall do hotel e me deparava com aquele cartãozinho de check-in. Logo ali no meio, o campo, “profissão”, e apesar dos quase trinta tinha que escrever: estudante. Ontem me vinguei, lasquei lá com letras quase viris: Consultor, com C maiúsculo mesmo.

Mas como dizia o profético Zé Simão, tucanaram o negócio. Já não há mais garis, somente consultores de limpeza pública; nem tampouco limpadores de fossa, mas consultores de higiene domiciliar; vendedor de côco na praia já era, são consultores de hidratação agora; telefonistas ou operadoras de telemarketing então, nem pensar. Quando ligamos para um daqueles malfadados “0800” esperamos para ser atendidos com aquela musiquinha de ante-sala de ginecologista e a gravação padrão: “todas as nossas consultoras no momento estão atendendo outros clientes. Assim que terminarem de estar resolvendo as questões deles estaremos falando com você. E não vão desligando porque a sua ligação está sendo muito importante para nós.” E viva o gerundismo…

Sigo no contrafluxo da pororoca. Quando vem a minha vez de preencher o tal cartão não me arrisco mais a ser confundido, lasco lá: estudante. É mais seguro.

Pensamentear


Mergulho numa montanha de algodão doce, à medida que o avião se aproxima do solo de uma Lisboa nublada.

O Tejo daqui de cima parece maior do que o Atlântico. Não é este que desemboca, que finda, no mar, mas aquele que se complementa com a sua chegada.



Brincadeira de criança



Um colega chinês me contou uma antiga tradição de sua região. Quando o fedelho completa um ano de idade os pais tentam adivinhar o seu futuro. Espalham um monte de coisas pela sala (por exemplo: livros, caneta, pincel, piano de plástico, carrinho de bombeiro, bússola, calculadora, arma de plástico, chapéu de militar, cigarros, giz, e outras coisas do gênero), e largam o pirralho no meio para ver o que ele escolhe. Depois passam horas elocubrando sobre o futuro da criança.

Imagino se a moda deste oráculo existisse em Pindorama. No meu caso pelo menos penso que não daria muito certo esta história. Imagino que colocaria a Playboy da Maitê Proença embaixo do braço, a arma na cintura, e ia vender cigarro picado na esquina...

Como mãe sofre.


terça-feira, março 06, 2007

Marquesitice

o tal Marquês


Uma outra alma depenada, quer dizer, sem dó mesmo, nem de si, que acompanhou-nos na maratona etílica com o Marquês, foi certeira: pra sair com o Marquês só com caderninho à mão. Como não havia caderninho, nem guardanapo de papel, restaram-me as reminiscências no dia seguinte, além de uma baita ressaca, vôo perdido, arrependimento pelo podrão dividido às 5 da manhã, gosto de charuto na boca, logo eu que não fumo, etc. Êta noitada boa!

O fidalgo tentou se redimir no dia seguinte. Ou talvez pactuar nosso silêncio. Convidou-nos para um passeio à beira-mar em sua BMW nova (menos o retrovisor direito, o qual extraviou-se na noite anterior entre as 2 e 3 da manhã...), chapa diplomática e outros mimos.

O dia foi supimpa. Mas desconfiei que havia algo de errado quando nos convidou para conhecer seu apartamento ali na Lapa. Prédio secular, CD raro do John Coltrane, e varanda com vista para o Tejo e a Basílica. Tudo conforme manda o protocolo.

“Drinks?”, inquiriu.

“O quê tens aí Ó gajo?” retruquei.

“Vocês têm que conhecer o Magnífico. Comprei pro meu chefe mas ainda tem um pouco.”

Não sei não, mas quando alguém te convidar para conhecer o Magnífico na sua alcova, desconfie que de fato algo de podre no reino da Dinamarca.




PS: o Magnífico desceu redondo!

Pensamentear



Tem homem que coloca mulher no pedestal só para olhar debaixo da saia.


Veríssimo

Marquesitice


Tem época que dá tudo errado, fica uma merda. Mas quando tudo descambar mesmo e começar a chover caralho, procure logo um pequeno e se ajeite... nunca se sabe o que vem por aí... long-john, postinho, pé-de-mesa... convem não vacilar.


Tubarões e aviões



Tempos modernos... quando comecei a viajar mundo afora havia poucas companhias aéreas por aí, e quase todas, embora privadas, eram tidas como representantes de seus países, missões diplomáticas aladas, esquadrilhas aéreas da paz, sempre bem-vindas em bases não-militares d’aquém e d’além-mar. Carregavam não apenas seus cidadãos mas via de regra o próprio nome do país: Swissair, Aerolineas Argentinas, British Airways, Singapore Airlines, KLM Royal Dutch Airlines, só para ficar em algumas mais conhecidas.

Brotaram então as discount airlines para tripudiar o statu quo e desafiar a inteligência dos passageiros. Pois tente alguém me explicar como elas todas conseguem oferecer passagens para qualquer grande cidade européia por alguns Euros – ou um par de chopps em moeda local à taxa de câmbio do dia?!?

Aí lembrei de uma piada antiga de humor negro e resolvi reciclá-la. Aliás, eu que não sou doutor, imagino que reciclagem de piadas deva estar na seleta categoria de crimes contra a humanidade, inafiançáveis.


No aeroporto local as centenas de parentes e amigos se aglomeravam no pequeno balcão. Xingavam, choravam e exigiam informações sobre os passageiros do vôo que caíra no mar infestado de tubarões. Nenhum sobrevivente.

Logo ali perto dos destroços submersos dois tubarões dialogavam: "pensando bem, para uma companhia de segunda, a comida até que estava de primeira."




Marquesitice



Logo ali em Cascais, no Restaurante Porto Santa Maria, ouvíamos o mar verde se desfazendo em espuma contra os rochedos. Fitando o que lhe restava de um Cartuxa Gran Reserva 1997 profetizou: "toda a metafísica do mundo está contida nesta taça."

Suores



Ah se eu pudesse... secaria as minhas glândulas e as preencheria com tua seiva. Teria teu cheiro sempre perto de mim.


Sodade



No leito de morte o amargo na boca não era de ansiedade do desconhecido que pairava logo ali adiante. Era sim das reminiscências de tudo o que vivera, dos lábios que mordera, dos perfumes que cheirara e das peles que tocara.


Marquesitice

Passei um final de semana inusitado na companhia de um nobre fidalgo, natural das terras mais meridionais, ali do sul, extremo sul.... do Piauí. As histórias foram tantas que não resisti a transcrever algumas.

Contou o causo de um oficial de chancelaria em Genebra. O dito aguardava ansioso pelo Embaixador para assinar uns documentos que precisavam chegar ao Itamaraty o mais rápido. Aguardava na ante-sala havia horas pelo fim da reunião que discutia as tarifas na OMC. Num intervalo o Embaixador saiu da sala e o oficial conseguiu lhe enfiar os papéis sob a pluma. Inconformado com a demora pergunta:

- Senhor Embaixador, por quê a demora?

- O assunto é complexo...

- Mas por quê não votam logo este troço depois de tanta discussão?

- Tem que ser por consenso, é difícil....

- Consenso?!? Mas deste jeito esta joça não sai. Vocês estão discutindo isto há quantos dias?

- Veja bem, começou na reunião do GATT de ’47, uns 60 anos atrás....

Irreversible Blog

Escher


Blog é um negócio esquisito, começa de trás pra frente. Você lê primeiro a ultima paródia. Sei lá entende?!?

Parece aquele filme francês noir, Irreversible. Você tem que ler tudo, na sequência, até o final, digo, início, para entender como tudo acaba, digo, começa.

Pensamentear


Namorado é como empregada doméstica. Bom, bom, bom mesmo… não tem. Pega um mais ou menos e vai ajeitando.



Enquanto os bons não chegam vá passando tempo com os mais ou menos.

AFrisso

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Cadê você?



Cheguei agora dos bares

Procuro em cada canto e não te encontro

Quero saber de ti

Com quem estiveste
O que bebeste
Que coisas comeste
Que cheiros experimentaste

Quero saber de ti

Tenho sede
Quero ouvir tua voz
Tocar tua pele
Quero ver tua alma

Quero finalmente morder teus lábios
E descobrir que gosto eles têm.

Pensamentear



Life is like a box of chocolates,
you never know what you are going to get next.

Gump, Forrest Gump

Mensagem de um náufrago



A nau capitã ali encalhou,
no teu recife.

Icei as velas, chamei o vento, fiz promessa à Iemanjá, clamei por sereias, magos e outros deuses. Em vão. Singrara os mares em outros tempos, mas dali a âncora recusava a mover-se, presa ao fundo do leito,
teu leito.

Cansado das viagens, das batalhas que enfrentara, o coração com suas feridas, algumas cicatrizes, algumas ainda abertas, buscava colo,
teu colo.

Dei-me por vencido, me rendi, caminhei até você, coloquei-me junto às pegadas,
tuas pegadas.

Busquei descansar, resignado, atraído pelo canto,
teu canto.

Procurei energia, bebi do mel, alimentei-me da carne,
tua carne.

Um dia o vento soprou mais forte, as velas rasgaram, a âncora se soltou, parti. Na boca guardava o gosto,
teu gosto.

Num último gesto lancei a garrafa, dentro dela um grito, para que ela te encontrasse e gritasse:

apenas meu corpo não está aí junto ao teu corpo.

Blue Velvet

David Lynch




PS: se não viu, veja, se já viu veja de novo…
Isabella Rossellini, ;-)

Pensamentear

Nyemeyer

Ah tempo maldito,
por quê não corres mais rápido o teu destino?!?

Seca o leito do rio,
corres logo ao mar,
logo ali onde o Tejo desemboca.


Dali

Chame Gente

Ah! imagina só que loucura
Essa mistura
Alegria, alegria é o estado
Que chamamos Bahia
De Todos os Santos, encantos e Axé,
Sagrado e profano,
O Baiano é carnaval
Do corredor da história,
Vitória, Lapinha, Caminho de Areia
Pelas vias, pelas veias, escorre o sangue e o vinho,
Pelo mangue,Pelourinho
A pé ou de caminhão não pode faltar a fé,
O carnaval vai passar
Da Sé ao Campo-Grande somos os Filhos de Gandhi,
De Dodô e Osmar
Por isso chame, chame,
Chame, chame gente
Que a gente se completa enchendo de alegria
A praça e o poeta
É um verdadeiro enxame,
Chame chame gente
Que a gente se completa enchendo de alegria
A praça e o poeta
Ah!...a praça e o poeta.

Moraes Moreira

PS: simples, a música mais bonita do carnaval

Magruitte


Homem sem face

Foges daí! Vai-te embora pra Passárgada!

domingo, fevereiro 11, 2007

Cartola, o Mestre



Pensamentear


“Amigos são aqueles que conseguem extrair o que há de melhor de dentro de nós.”

Maurício Dantas, o bem assombrado


A Rosa



Já posso sentir teu cheiro...
Finalmente, o teu cheiro....
Queria cheirá-lo todo de uma vez...
E guardá-lo só pra mim...

Queria uma rosa só minha...

E que de manhã ela brilhasse com o sol...
E que o sol secasse o orvalho...
E que bebesse da água que a terra dá...
E que fizesse sombra pra mim...

Uma graminha crescendo aos seus pés...
Quem sabe um dia teria coragem de pegar na sua mão...
E cresceria junto ao seu caule...
E finalmente beijaria suas petálas...

Um dia...
Um beijo.

Pensamentear



Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

All the lonely people

Where do they all come from?

All the lonely people

Where do they all belong?

Beatles

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Pensamentear

Tô chegando…

Dali

No princípio faltavam meses,

depois vieram o contar das semanas,

hoje já conto os dias,

em breve haverá apenas as horas

e os minutos que nos separam

Cálice






Impressionível!

Monólogo de Orfeu


Vinicius de Moraes

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!

Vinicius de Moraes / Antonio Carlos Jobim


PS: Ouvi isso há pouco, declamado, pela

Maria Bethânia num disco do Vinícius dos anos 70.

Coisa fina!

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Navegar é preciso, viver não é preciso


“Para toda a humanidade e no decorrer de todos os tempos, o mar tem sido o grande símbolo do inconsciente. As ilhas do outro lado do mar, os reinos exóticos e as terras distantes, sempre representaram, o Grande Desconhecido. A atração que sentimos por estes lugares tão cheios de mistérios, de magia, de tapetes voadores e gênios, tem um significado interior profundo. É a nostalgia das profundezas misteriosas e inexploradas de nossa psique, das potencialidades ocultas dentro de nossa alma – aquilo que jamais conhecemos, jamais vivemos ou ousamos.”

Robert Johnsohn, psicólogo jungiano

Conheci Bryan neste ano-novo no sul da Tailândia. Convidou-nos para drinks a bordo de seu barco. Éramos cinco no total. Fiquei incumbido dos Mojitos com hortelã fresca e rum Havana Club, ao som de MPB de ótima qualidade. CD comprado na fronteira com o Vietnam, me explicou. Devia ter mais ou menos a minha idade. Irlandês de nascimento, cidadão dos mares por escolha. Contou-me que mora em seu pequeno veleiro há sete anos, singrando solitário pelos mares do sul. É seu segundo veleiro, o primeiro era ainda menor, me disse. Tinha estórias de pescador para encher um livro, mas recusava-se a escrevê-las. Tinha um bom coração, parecia-me feliz com a vida que escolhera. Contou-me das duas vezes que decidiu desistir, em ambas as vezes depois de dias de tempestade em alto mar quando duvidava que sobreviveria. Porém, uma vez em terra firme, algo o impulsionava de volta, não era ali o seu lugar. Onde seria então? Ainda a descobrir.

Um de seus amigos ali era Paul, inglês de nascimento, samaritano ambulante por escolha. Alguns anos atrás Paul teve um sério acidente de moto. Passou tempos em coma, e por algum descuido recusou-se a aceitar o aperto de mão da morte. Um dia acordou, sem memória. Nunca voltou a recuperá-la integralmente. Aprendeu sobre seu passado, quem um dia foi, quem eram seus amigos, o que havia feito em sua outra vida etc, como lia um livro, seu livro. Embora redescobrisse todas estas coisas eram ainda distantes de si, eram coisas de seu personagem, um outro myself. Um dia recebeu alta do hospital. No banco uma indenização pelo acidente lhe aguardava, complementada pela pensão por invalidez. Decidiu começar a escrever outro capítulo de sua vida, uma outra razão para estar vivo. Decidiu ainda em vida tornar-se anjo. Sua primeira missão foi voar para o sul da Tailândia, PhiPhi island, depois do Tsunami de 2004. Trabalhou como voluntário com o que pôde. Desde então segue o destino das tragédias. Terremoto, furacões etc, onde possa ir, e continuar seu trabalho de voluntário.

Recordo-me do Almir Klink, nosso navegador solitário tupiniquim. O que buscam estes homens? Do que fogem? O que os leva a estas escolhas? Pergunto-me se poderia fazer o mesmo.... concluo que já o faço, em certa medida, mas sem a ousadia de desafiar o mar. Consolo-me com a idéia de que Brasília não tem mar, daí não poder ter me tornado navegador dos sete mares. Fuga.

Cinco de março de 1991, meu dia oficial de partida para o mundo. Primeiro destino, com escala em Assuncion del Paraguay, vôo da LAP (Lineas Aereas Paraguayas, a.k.a., Latas Aéreas Peligrosas) rumo a Miami. Desde então já dei a volta ao mundo algumas vezes, visitei todos os continentes, à exceção da Antártida, e passei por uns 40 países. Os carimbos nos passaportes e as marcas na alma o provam. Solitário continuo minha caminhada. Coleciono aqui e acolá as imagens do que vivi, os gostos que provei, os aromas que cherei, as peles que toquei. Estranhamente me é raro olhar fotos antigas. Elas aguardam lá, empoeiradas no armário ou no hard disk. Há apenas o consolo de que um dia, caso algo similar a Paul me ocorra, haverá muito do livro de memórias para ler em meu leito de hospital. Vários nomes, datas, lugares e sentimentos a redescobrir, um outro myself.




Devanearte

Admirável mundo novo?





Mais arte arteira no site www.devanearte.com

Pensamentear

“Não precisamos de inimigos,

nós damos conta do recado sozinhos.”

Maurício Dantas, o bem assombrado


Há pessoas que mantêm o seu botão de auto-destruição permanentemente ligado, ou pelo menos em standby, à espreita de que algo terrivelmente bom lhes aconteça.

Despedida em dois atos







"E assim, chegar e partir são só dois lados da mesma moeda"
Milton


Querida,

Parto hoje. Não sei bem o por quê mas escolhi por não te ver pela última vez, ontem.

Decidi por motivos que nem mesmo meus sonhos jungianos poderiam decifrar, de apenas guardar seu último sorriso. Aquele, radiante, como se você tivesse o sol embebido nas vísceras, ali aos pés do escada do estacionamento em Madrid. Assim decidi guardar minhas últimas reminiscências de você.

São cruéis as coisas deste mundo: tempo e distância. Não sei quando voltarei a vê-la. Mas, resolutamente, terei sempre dentro de mim nossos vívidos momentos. Ali, nos parques, nas fontes, no terraço, sã e doente, ébrios e sóbrios, sob o sol ou a lua. Indubitavelmente guardarei as certezas do passado e as esperanças do futuro.

Não te esquecerei.

Besos,

(livre tradução do original)

Querida,

I leave today. Cannot determine why but have chosen not to see you one last time, yesterday.

Decided it for reasons that not even my Jungnian dreams could decipher to only keep your last smile. That, radiant, as if you had the sun embedded in your flesh, in the steps of the garage. That's how I've decided to keep my last memories of you.

They are cruel the things of this world: time and distance. I don't know when I'll be able too see you again. But, resolutely, I'll keep to myself our vivid moments. There, at the park, at the fountains, at the terraza, healthy and sick, drunk and sober, under the sun and under the moon etc. Unmistakably will carry with me the certainties of the past and the hopes of the future.

Will not forget you.

Besos,

terça-feira, janeiro 23, 2007

Total system failure






Destas coisas práticas do dia-a-dia muitas tive que aprender sozinho. É que perdi meu pai há muitos anos. Não sei precisar bem quando, mas o fato é que isto se deu vários anos antes da sua morte. Esta última sim, devidamente registrada num tal atestado de óbito. Inclusive consta lá: falência múltipla de órgãos. E vale o escrito.

Eu tive um computador que isto também lhe ocorria. É que com uma freqüência crescente me dava sinais de que seu fim se aproximava. Ali bem diante dos meus olhos estampava: total system failure.

Certo dia, exauridas as tentativas de recovery, enterrei-o logo ali. Este sem o tal atestado de óbito.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Sonhar o sonho [im]possível

Klimt


Hoje sonhei que fazíamos amor no canto escuro de uma praça em Lisboa. Você usava uma saia um pouco acima do joelho, meio estampada, meio quadriculada. Uma camiseta branca mostrava os ombros, o pescoço e o colo, nus. Um colar e um par de brincos brilhavam menos que tua pele dourada. Agachado, removi tua calcinha. Ali e em outras vezes você tentava me impedir, mas sem muita convicção. Talvez apenas com a intensidade suficiente para não me fazer desistir. Meus dedos navegavam pelo teu clítoris molhado. Abri o zíper da calça e me ajeitei no banquinho de cimento. Me olhavas confusa, ébria como eu dos Verdes e Tawnys. Você de pernas abertas sobre mim brilhava junto com a lua. Lhe penetrei devagar. Me excitava mais com cada músculo que teu rosto contraía. Mordia teu pescoço, ombros e seios. Nossos gemidos, suores e gozos cresciam juntos. Gozamos ao mesmo tempo. Ficamos ali ofegantes sem saber direito onde estávamos. Você ainda sentada sobre mim.

Acordei.

Pensamentear

Outro dia falaram que converso muito com estranhos. Repliquei que não, apenas falo com amigos, alguns dos quais ainda não conheci.

sábado, novembro 25, 2006

A culpa é do Demiurgo, ou será do mordomo?!?

Tiago Botelha


Estamos sempre buscando um culpado, haja ou não culpa a ser imputada. Imagino que deve ser culpa da tradição cristã esta história de buscar uma culpa. Aliás, vale ressaltar que enquanto cristãos já nascemos com a culpa, afinal "Ele morreu na cruz para nos salvar". Nos fala o santo ensinamento do determinismo das coisas, e de como Deus, sendo basicamente um "cara sangue bom", nos colocou neste mundo maravilhoso para que dele pudéssemos desfrutar, à sua imagem e semelhança, e seríamos felizes para sempre. Assim, levamos a vida e se algo de mal nos acontece apelamos logo para o "foi Deus quem quis". Mas a coisa não estava muito boa de ser explicada, haja vista tanta desgraça aqui na terra para os seus filhos e herdeiros, que acrescentou-se o tal do "livre-arbítrio". O que no mínimo, "livrou a barra do sangue bom". Afinal, Ele fez tudo perfeito, à sua imagem e semelhança, mas coube a nós, de posse da nova liberdade de escolha, botar tudo a perder. Assim, no Genêsis, nos pegaram com a boca na botija, ou teria sido na maçã?!?, e acabou o paraíso. Buscou-se ainda aliviar a nossa situação com o aforismo "perdoa-lhes Senhor, eles não sabem o que fazem", mas já estava feito.

Seguimos espiando as nossas culpas, ou procurando imputá-las a outrem. Desta forma sobra muito diletantismo e pouca tomada de responsabilidade em nossas próprias mãos. Começo pelo Chico, "Jesus Cristo ainda me paga/ um dia ainda me explica / como pôde por no mundo esta pobre coisica / vou correr o mundo afora e dar uma canjica /que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca/.../ Deus me fez um cara fraco desdentado e feio / pele e osso simplesmente quase sem recheio/ mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio / dou pernada a três por quarto e nem me despenteio".

Mas nem para tudo h
á culpa. Um dos problemas que temos é achar que há "coisas certas" para tudo. Ledo engano. O mundo não é geométrico euclidiano, da mesma forma que não é físico newtoniano, apenas aparentam ser. E como somes meio míopes, "e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem", tomamos estas como representação da nossa realidade.

Ent
ão lembrei do Demiurgo, afinal tinha que colocar a culpa em alguém... é que muito tempo atrás, antes do "filho do sangue bom" aparecer por estas paragens, havia uns gregos meio malucos. E o tal do Platão dividia o mundo em dois: o mundo das idéias e o mundo das coisas. No mundo das idéias, tudo era único, suave, perfeito, passível de reducionismo etc. Mas apareceu o Demiurgo que fez uma cópia do mundo das idéias, e criou o mundo das coisas. E como toda cópia... deixou a desejar ao original.

Trago um exemplo. Vocês devem se lembrar daquela hist
ória que a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180 graus. Pois bem, tentaram medir os ângulos internos na época do Platão, ou melhor, desde a época de Platão, e nunca chegaram a exatos 180. Os marceneiros melhoraram a confecção dos triângulos, os aparelhos de medida foram também aperfeiçoados, mas até hoje não dá 180 exato, pelo menos não até à enésima casa decimal. Mas o Platão explicava, provavelmente sentado no banco da ágora ateniense, fumando do cachimbo, que na verdade a soma do triângulo ideal totalizava sim 180 graus, mas a cópia do Demiurgo, bem... sem comentários. Antes que os mais apressados coloquem a culpa nas falsificações Made in China aviso que não é por aí.

O mordomo, este sim, j
á há muito não atende o meu último pedido de mais um martini com três azeitonas neste boteco metido a besta, muito menos outro guardanapo para prolongar a paródia. Dele sim é a culpa.



PS: o Bush também dividiu o mundo em dois, seus aliados e seus inimigos, mas a
í a culpa é dele, e o problema é nosso....

segunda-feira, outubro 30, 2006

História com dragão é mais legal


Talvez eles ainda não tenham descoberto, mas sou um estranho em suas terras. De onde venho as mulheres caminham, as sereias nadam, mas nenhuma delas voa. Lá também há apenas um Dragão de verdade, mas só um santo brinca com ele, e na Lua. Crianças nem adultos são permitidos.




A memória do futuro será toda virtual?

Escher


Ao meu neto preferido, no leito de morte, lhe deixarei as minhas memórias, músicas, fotos, vídeos, imagens tridimensionais holográficas etc, tudo gravado naquele pedacinho de silício.

Com aquilo que lhe sobrou do existencialismo de Sartre, ele busca uma loja de antiguidades. Compra uma dessas geringonças que ainda leêm códigos-fonte de anos atrás.

Chega em casa de posse da máquina. Procura um canto onde repousá-la, liga, procura um lugar para se sentar, serve-se de um relaxante, se ajeita no sofá e assiste. Vê vídeos de sua infância. Certo de ser humano, desliga e deita-se. Ainda pensa no avô, sorri, e fecha os olhos.

Caetano virou Professor



A cabeleireira grisalha impunha respeito. Agrege-se à isto aquele olhar de sabedoria. E os óculos de armação fina ali na ponta do nariz,... estava um arraso, como ele mesmo diria. E acho que não via os fiéis súditos na platéia. Permitia apenas que do seu, emanasse o olhar.

Era feliz por saber que Caetano era Brasileiro, que era Bahiano, que era de Santo Amaro da Purificação. Imagino que Santo Amaro, casa de D. Canô, seja o menor dentre os maiores municípios tupiniquins.

Me perdoem o pedantismo, mas é que Câmara Cascudo tinha razão: o brasileiro ainda é a melhor coisa que esta terra dá.


PS: o sapo nos convida para + 4 anos no brejo. ;-(

Pensamentear

Soltem os loucos! Nós precisamos deles ao nosso redor.

Assim saberemos que somos normais.

Mas não se esqueçam de deixá-los facilmente identificáveis.

Assim não nos confudiremos.

terça-feira, outubro 03, 2006

Dadá e o sapo

“Se macumba ganhasse jogo,
campeonato bahiano acabava empatado”.
Dadá Maravilha, a.k.a. Dario José dos Santos

Começo a duvidar da onipotência de “Seu Dadá”. Logo eu que quase o considero santo, um dos santos do nosso futebol e de nosso folclore. Noto que Dadá é daquelas figuras que só poderiam ter nascido no Brasil, ou melhor, em Marechal Hermes no Rio de Janeiro. Se não exisitissem nossas paragens tupiniquins, do jeitinho que elas são, Dadá não existiria. É mais ou menos aquela história de que “os Desuses só existem se você acreditar neles”. Mas há a Terra Brasilis e há Dadá. Mas Dadá hoje é menos Deus do que ontem. Explico melhor.

Tem gente séria por aí que estuda como teorias, científicas por exemplo, evoluem. Em particuar quando há “ruptura de paradigmas”, como diria um destes estudiosos, Kuhn, é que há o surgimento de novos modelos. Teorias, que oferecem uma forma melhor de explicar aquele fenômeno. Usualmente estas rupturas aparecem quando uma teoria prediz um certo fenômeno, e provas e experimentos distintos começam a produzir resultados não condizentes com a teoria. Se o prejuízo for pequeno dá para fazer um “remendo” na teoria e continuar a tocar a vida, mas se o buraco for grande, então o jeito é colocar aquela teoria “fora-de-linha” e chamar outra para "rodar".

Nem acreditei quando acordei, manhã aqui, noite aí. Fui dormir meio mais ou menos depois de uma longa noite em vários bares, e triste pelo futuro cinzento que pairava sobre a minha cidade-natal. Mas ao contrário do que dizia Dadá, parece que macumba ganha jogo sim, até na Bahia. Afinal, tente algum santo me explicar como diabos o Paulo Souto conseguiu perder, onde já estava "tudo ganho", e o “picolé-de-chuchu" desdenhou das pesquisas e chegou bem na frente de todas. E tirou o doce da boca do príncipe - quer dizer, sapo.

Torço para Dadá continuar errando, tudo bem que depois da eleição a gente renegocia o passe celestial dele, arranjo um indulto etc, mas por enquanto vamos cuidar para que o príncipe receba o beijo da morte, vire sapo, e volte para o brejo, lá para o fundo do brejo.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Despedida

Corto os pulsos. Saltam as veias. Por um instante consigo perceber onde foram seccionadas pela låmina. Então, já não via, a não ser a vida que me escorria por ali. O chão começa a ficar molhado. Um fio de sangue alcança um dos dedos do pé. Sinto um calafrio. O corpo começa a amolecer. Procuro me ajeitar na cadeira - um fio de dignidade ou orgulho talvez. Os pensamentos se tornam confusos. Será o princípio irreversível do fim? Esta manhå quando acordei nåo pensava que a noite terminaria assim.Tudo terminara. Nunca pensei na morte, talvez pos isto meus pensamentos se assombravam de si mesmo. Já nåo pensava no futuro, projeções, conjunturas, cenários, nåo mais. Revivia o passado, a uma velocidade incomensurável. Minha mente insistia em exibir este filme mais uma vez. Sarcástica, ela passava o filme a seu modo próprio. Começara do início, tenra idade. Escolhia crieteriosamente em quais passagens se deter por uns momentos a mais. Confuso no início, logo entendi sua lógica: escolhera os momentos mais felizes da minha vida. Suspirei aliviado longamente, talvez o meu último suspiro. Valera a pena ter vivido. Meus algozes, bem, eles venceram esta batalha. E meus olhos se fecharam para este mundo.

Segue e Tanto



No recanto do meu canto,
Choro tanto que fico tonto.
Santo é o momento
Que vou pronto e fico santo.
Num ponto,
O encanto emana do santo pranto.
Seco, no entanto,
Promete derramar no próximo pranto.
Desisto de tanta dor no meu canto.
Segue seco tanto sofrimento.

domingo, setembro 24, 2006

Tian Tan Budha
















Neste último Domingo fui até um monastério budista. Antes que alguns afobados se adiantem, não me converti ao Budismo. Embora ache “bonita” esta história de abondanar as tentações mundanas em busca de uma paz interior etc, confesso que vou precisar de algumas vidas a mais - se é que elas de fato existem - para alcançar este nível. Afinal, tem carnaval na Bahia todo ano, e outras cositas mais que nossas paragens oferecem.

O tal do Grande Buda - ou Tian Tan Buddha para os íntimos destas paragens - está localizado na Ilha de Lantau, do lado do aeroporto de HK. Esta estátua é uma das maiores do mundo ao ar-livre. O passeio foi jóia, com direito a umas duas horas de caminhada morro abaixo. Aliás, tenho um casal de amigos queridos que têm um sítio em Teresópolis. A descida, com direito a cachoeira, mata virgem etc, era a cara do sítio e do parque nacional, Serra dos Órgãos, próximo.

A estátua tem um monte de significados pela posição das mãos, espressão facial, orelhas etc. Além da construção em si que levou uns dois anos, passaram um ano só estudando o modelo e seus símbolos, no sentido Jungiano do termo. Ficou bonito o negócio!

Havia também uma exposição de um templo que estão projetando construir, a ser chamado de “Templo dos mil Budas”. Não entendi direito por quê Mil Budas, mas deixa pra lá...Curioso era a forma de arrecadação: por $x seu ancestral tem direito a um nome na parede, por $2x, uma placa,..., por $10x o nome escrito numa das colunas. Me faz recordar o museu da imigração em Ellis Island, New York, do lado da Estátua da Liberdade (aliás o passeio da Estátua é uma furada. O museu é muito mais interessante). Lá tem uma história parecida. Quando resolveram construir o museu, umas décadas atras, pegaram a lista dos imigrantes que passaram pela ilha quando ela funcionava como centro de imigração nos séculos 19 e 20, se não me engano, e foram atrás dos descendentes pedindo doações. Quanto maior a doação, maior o nome do bisavô, tataravô etc, na placa. Mais famosa do que esta só os Papas que venderam indulgências para construir a Basílica de São Pedro no Vaticano.


E na Terra Brasilis, se pagares a um Deputado para um de seus renomados projetos, o quê
é que o cidadão leva?!? Ultimamente vem causando plaquinha na sede da PF.

Uma das muitas curiosidades foi ter encontrado um monte de símbolos no monastério similares à malfada suástica nazista. Lembrei de ter lido que o Hitler não tinha inventado a suástica, mas simplesmente ursupado de tradições ancestrais. Na verdade a suástica é um símbolo tradicional no hinduísmo e budismo, representando “bem-estar” ou “boa sorte”, descobri.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Piada Boa!!!

Com a câmera na mão


Casamos novos. Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê.

Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico.

Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento. Invadi a sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir ao filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram o meu orgulho.

Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro. Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto mais uma vez com a câmera ao ombro.

As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho.






Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do meu urologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata.

Eu lá, com as pernas naquelas malditas perneiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e a mulher gritando:

- Ah! Doutor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!

Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar.

O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema:

- Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar. Vou dar um close agora...

Alcancei um sapato no chão e joguei na maldita.

-Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.

Cora Coralina III

NÃO SEI...


Não sei... se a vida é curta...
Não sei...
Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

colo que acolhe,

braço que envolve,

palavra que conforta,

silêncio que respeita,

alegria que contagia,

lágrima que corre,

olhar que sacia,

amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.

CORA CORALINA

Cora Coralina II

POEMINHA AMOROSO


Este é um poema de amor tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos de luta e de brisa e de céu...
E eu, quero te servir a poesia numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo. Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer, não importa.
Já está declarado e estampado nas linhas e entrelinhas deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que te deixará pasmo, surpreso, perplexo...

eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."

Cora Coralina I

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginase não entraves seu uso aos que têm sede.
Cora Coralina (Outubro, 1981)

terça-feira, setembro 05, 2006

Reminiscências de um brasiliense viajante I



“As aves daqui gorjeiam mas não gorjeiam como as de lá”


Deve ser mesmo da natureza humana comparar velhas e novas moradias. E pela mesma via procuramos relacionar o novo ao que possuímos de velhas experiências, conscientes ou inconscientes. Ou talvez seja apenas por saudosismo e puro banzo.

Eu aqui, do pouco que há para me fazer lembrar da terra natal, procuro encontrar, ou criar no meu imaginário, pontes para o meu passado, Brasília, por assim dizer.

Estou na casa de amigos de um amigo asutraliano/irlandês. A casa, grande e muitíssimo bem localizada – vista para o mar, bairro chic etc – não é nem feia nem bonita, embora prática. Faz-me recordar aquelas casas quadradadas ali das “700” (nota: quem não conhecer Brasília e achar que isto é algum codigo secreto, tudo bem, relaxe).

Atrás há um prédio lindo, moderníssimo, de uns 30 ou 40 andares – não ando tão ocioso assim, ao contrário do que pensam alguns, para tê-los contado de fato. Ele é de vidro exposto, e está num ponto acima da casa, na rua de trás, e obviamente todo de frente para o mar. Imagino como deve ser verde o mar visto ali de cima. À noite, uma série de pontos de luz multi-coloridos, e verticalmente alinhados ao longo das colunas, dão-lhe vida. É bonito de se ver. O formato, embora esteja perfilado ali para o mar (Ah, como eu queria que Brasília tivesse praia....), lembra-me a Catedral, ali como uma mão aberta, espalmada para trás.

Meu ilustre anfitrião explicou-me com olhos ainda arregalados, apesar de ser provavelmente a enésiam vez que devia relatar o caso, que naquele prédio ninguém morava.

Seria assombrado, pensei em perguntar-lhe, mas ele calou meu pensamento. Com os olhos ainda bem abertos me contou que a dona – isto mesmo, o prédio todo com suas várias dúzias de apartamentos vazios, pertence a uma mulher destas bandas – ainda não havia decidido qual o melhor uso para o edifício.

Para arrematar ele descreveu seus dois vizinhos. De um lado uma bela mansão, de uns 400 metros quadrados de área útil, toda de granito externo e onde morava apenas uma senhora de 78 anos, e seus servos. A mansão, construída pelos filhos da mesma, continha apenas um único quarto. Quando ela morresse, eles provavelmente reconstruiriam a casa.

Do outro lado, uma casa similar à sua, igualmente bem localizada mas de gosto questionável. Estava há dez anos vazia, sem ser alugada. Estimou meu anfitrião em quatro milhões de euros a receita não auferida com o aluguel.

Bom, neste ponto encerraram-se as semelhanças com a terrinha.