terça-feira, abril 24, 2007

Negritude




By Bruce Davidson,
Alabama 1963

O blues é negro.
O jazz é negro.
O samba é negro.
A capoeira é negra.

A ópera é branca, e xoxa.

Os tambores são negros.
O candomblé é negro.
A Bahia é negra.
Deus é negra.

Seus deuses e santos são brancos,
Mas não são os nossos.

Zumbi era negro.
Miles Davis era negro.
Gil é negro.
Mandela é negro.

Hermeto Pascoal é albino, mas é negro.

A paz é branca, mas é passageira.
A dor é negra, e é permanente.





Rota de fuga


Começamos a namorar na escola. Ambos com nossas espinhas e ilusões de adolescente. Alguns dias depois do primeiro beijo ela faz o ultimato:


- Meus pais querem conhecer você.

Já o sabia inevitável, mas tinha que acontecer logo ali na primeira semana?, pensei.

Combinamos para uns dias depois, tinha que me preparar.

- Ok, na sexta, antes de irmos para o cinema passo na tua casa. Visita rápida, por favor. Supliquei.

Cheguei lá, suando um pouco. Apertei a campainha, mão trêmula. A mãe abriu a porta. Entrei com passos tímidos.

- Ela está no quarto e já vem. Você quer tomar algo?
- Água gelada por favor.
- Um minutinho, fique à vontade.
- Onde é o banheiro? Preciso lavar as mãos.
- Se for só para lavar as mãos pode usar o lavabo ali no corredor.

Na verdade, o nervosismo estava causando alguns efeitos colaterais indesejados, dor-de-barriga, aguda. Obviamente não expus os reais motivos para a busca do banheiro e toquei para o lavabo.

Fecho a porta e me deparo com a amarga realidade, sobre o vaso um bilhete: interditado. A dor-de-barriga não deu ouvidos. Comecei a suar frio. Tinha que improvisar. Olhei para a pia de louça branca. A pia olhou para mim... me ajeitei como deu. Um fedor desgraçado, e alguns ruídos tomaram conta do banheiro. Suspirei aliviado. A pia quase cheia. Que merda!, pensei. Abri a torneira. Algumas gotas apenas... a mãe bate à porta e avisa:

- O pedreiro está consertando o banheiro, talvez não tenha água na pia...

Filha-da-puta! Agora que ela me avisa... o pânico toma conta de mim... com as gotas que caíam da torneira e um tufo de papel tento me limpar. A mãe, e a filha, batem à porta.

- Tudo bem?!?

Claro que não, pergunta imbecil. Mas não respondi. A raiva só não era maior do que o constrangimento. Me ajeito na pia, tento me limpar novamente. As mãos tremem e me sujo ainda mais. A situação está ficando fora de controle. Elas batem novamente à porta.

- Você está bem? Quer ajuda?

Se quero ajuda? Claro, uma máquina de teletransporte. Só penso em fugir dali, sem ter que passar pela sala. Olho esparançoso para o basculante. Não cabe, não dá para fugir. Tento o vaso. Não percebo que está solto. Cai e quebra. A água do cano começa a jorrar. Tento futilmente tapar com a mão. Corro até a pia, ainda tento me limpar. Me desequilibro no chão molhado e a pia cai. Merda por todos os lados. Agora são dois canos jorrando. Elas batem mais forte à porta.

- Aconteceu alguma coisa? Você está bem?!?

O desespero aumenta. A água e a merda se misturam no chão. Começa a subir. Molho os pés. Piso em alguma coisa mole... aarrrgh!!! Tento subir a calça, mas o zíper trava na cueca. Era só o que me faltava. Vejo que começa a vasar por debaixo da porta o líquido marrom. Elas gritam do lado de fora.

- Abra a porta!

Desespero. Só penso em fugir dali. Abro e saio correndo nu, empunhando a calça, as mãos sujas de merda e os pés molhados. Um dilúvio me acompanha a caminho da saída.

- Eu sou maluco, eu sou maluco!!!... grito em rota de fuga.


Mudei de escola. Mudei de cidade. Nunca mais a vi. Uff!



PS: aos amigos...


segunda-feira, abril 23, 2007

Miles Davis - the genesis of a second God











Interviews with: Chick Corea, Herbie Hancock David Liebmann, Pete Cosey etc. They all played with Miles when he met Jimmi Hendrix, Santana, others, and became electric.


Plus the Master himself, Miles Davis.

"I played one way so long that I just had to change my way. In order to give it to you. So you will like it."

"It was no longer jazz, and they were asking jazz critics to evaluate Miles."

"Play through it. There are only two vibes. The vibe on the stage and the vibe out there. Play it."





Impressões

Olé!

My type of bar. Great tapas. Real Sangria. Belas chicas. True Gazpacho. Live music. And the owner, drunker than me.




Apenas um

É terno meu caminhar,
Mas eterno seria cantar.
Não sou menestrel,
E não creio em bruxas ou céu.



A vida que me consome,
Um dia findará.
Carregarei apenas um nome,
E ao pó tudo retornará.



Não será morte lamentada,
Tampouco festejada.
Não haverá muita gente,
Apenas um, que errou de parente.

Nova República


Ilustre leitor deste bufão verborrágico virtual, convoco-o para uma nova Cruzada Psicodélica. E como várias outras, pela manutenção do statu quo. Devemos fundar o Movimento Pela Preservação do Presente, que um dia ali na frente será passado. Lançaremos nossa Cruzada e faremos nossa voz chegar a terras distantes. Seremos vitoriosos e fundaremos a Nova República (ou talvez a Velha Monarquia).

Nossa lista parcial de reinvindicações:

- Sede do novo governo: uma casa em Santa Tereza com varanda grande, vista para o Corcovado e Pão-de-Açúcar. (a grande revanche do comunista Niemeyer foi ter construído o Palácio da Alvorada).

- Rede de Transporte: o bondinho de Santa Tereza, que sacoleja devagar há décadas. (viagem interplanetária à velocidade da luz deve dar um enjôo desgraçado).

- Rede de Comunicações: radinhos de pilha, com chiado, para escutar jogo de futebol. (home theaters holográficos de última geração não entram no Maracanã).

- Prato oficial: feijoada do Mineiro, torresmo de entrada, e uma garrafa de Salinas. (dieta sintética balanceada deve ter gosto de cabo de guarda-chuva).

­­- Sistema de ensino: Neruda e Fernando Pessoa lidos em edições antigas, compradas em sebo. (esta história de livros implantados durante o sono deve ser coisa de maluco).

- O novo hino: um samba do Cartola, escolhido em audiência pública na sede da Mangueira. (quem contratou Joaquim Osório Duque Estrada?!?).

- Musa da Nova República: uma morena cheirosa, de bunda grande, e que saiba cozinhar e sambar. (as mulheres-robôs, modelo Angelina Jolie deveriam ter chulé, já de fábrica).

Avante com a nossa Cruzada!

Morte aos infiéis!


PS:Inclusive já tenho um Marquês em mente
para o posto de Embaixador na ONU.

domingo, abril 22, 2007

Inspirações



Carl Jung, “pai da psicanálise moderna”


O homem e seus símbolos, o último livro que ele escreveu.



Sabe máquina de caça-níqueis?


Quando você acerta no jackpot caem várias fichas.

Voltas-tu?





Poeira.

Sótão.

Baú.

Agenda velha.

Capa puída.

Página amarelada.

Um envelope.

Um postal.

Uma mancha.

Uma gota do teu perfume?

Uma gota do teu suor?

Fecho a agenda.

Fecho os olhos.

Abro os braços.


Voltas-tu?


Monólogos intercalados


Se conheceram na festa da vizinha. Ele chegando, ela saindo. Trocaram telefones, ele ligou dois dias depois. Ela meio-fina, ele meio-grosso. O diálogo, monólogos intercalados:

- Estou descobrindo a cozinha oriental, seus aromas picantes. E adoro sushi da Califórnia.
- Também gosto de japonês, mas nunca tem farinha nem ketchup.


- Li outro dia na manicure que na Itália eles não usam colher para comer espaguete, apenas o garfo.
- Por isso que eu corto o meu com faca, e meto ketchup.


- E eu sempre fui dengosa para comer. Quando criança mamãe brincava de trenzinho com a colher cheia de papinha.
- Meu velho nunca me forçou a comer. Um dia ele explicou à mesa: ou goela abaixo ou cu acima, esta porra vai parar no estômago.


- Adorei as cervejas belgas aromatizadas, aqueles suaves toques de frutas vermelhas.
- Não tinha nenhuma amargosa. Queria uma lapada de pau-de-nêgo.


- E meu pai me dava todos os animais que eu pedisse. Ganhei uma cracatoa no aniversário de 10 anos.
- Eu tinha um pato de borracha na banheira, furado de um lado.


- Na escola eu ganhava todas as gincanas. Um dia eu fui até para a Disney.
- Na oitava série tinha um concurso de caretas. Dois inscritos. Tirei o segundo lugar. Duas semanas no Piauí. O primeiro prêmio era apenas uma.


- Meu pai adora os cubanos.
- Prefiro os bahianos. Conhece manga-rosa?


- Já experimentou foie gras? Mamãe trouxe uma lata de Paris.
- Tem uma buchada de bode ali na feira que é um arraso. E tem farinha até de Nazaré.




Livre-tradução, busco


Tomara

que não termine

a tinta

que tilinta

no tanque...


sábado, abril 21, 2007

Aldeia Global

Vinham de todas as partes. Não fiz um censo naquele antro de luxúria, mas havia diversas colombianas, filipinas, vietnamitas, tailandesas, chinesas, ganenses, russas etc. As filipinas e colombianas predominavam. Dividiam o espaço de certa maneira, colombianas, e seus seios fartos, à direita, filipinas, sem bunda, à esquerda.

Um sociólogo dos anos ’70 talvez citasse a opressão dos antigos colonizadores e a luta de classes para explicar a opção por aquela vida difícil e efêmera.

A realidade era mais fugaz:

“No money, no honey”, explicou-me Sofia, uma russa.

Saí entendendo tudo.

(...)

Acordei ao seu lado, ou deveria dizer, sob ela. Tinha a cabeça repousada no meu peito. Ela ajeitou o lençol sobre si. Me dei conta do frio. Ar-condicionado forte, lençóis úmidos de nós mesmos. Virei-me para desligar o ar. Estiquei o braço e alcancei o botão sem acordá-la. Mirei o espelho no teto, quarto de motel. Nos recebia com suas vantagens de logística e sua impessoalidade asséptica. Lamentei que nossos encontros, freqüentes, tivessem que se dar ali. Mas eu morava em prédio antigo, sem garagem, entrada única, porteiro omnipresente, e fofoqueiro. A óbvia diferença de idade certamente chamaria a atenção. Estaríamos expostos. Além do mais, seu rosto angelical, traços finos e sorriso inocente sugeriam uma idade ainda menor. Poderia ser minha filha, diriam, mas não era. Não os tinha. Órfã de antigos colegas de trabalho, acidente de ônibus. Excursão para a praia. Perdeu os freios na descida da serra. Nenhum sobrevivente. Alguns menos afortunados ainda agonizaram por vários dias em hospitais. Deveria estar naquele ônibus também. Noitada grande na véspera, dormi demais. Acordei com o telefonema de um amigo que soube que eu perdera aquele ônibus. Julgava-me morto até então. Após a morte foi criada pela avó. Esta displicentemente zelosa, e nos últimos tempos conivente passiva com nossos encontros. Havia muito perdera a vergonha daquele enlace. Escorreu depressa, ampulheta de alta vazão. Nunca compreendi quando e onde tudo começou. Mesmo se um dia fosse julgado por este crime de amor, mesmo que o juiz me intimasse a responder, ou que o promotor reiterasse a acusação, ou que arcanjos ou santos me inquirissem no final dos tempos, no juízo final, apocalíptico, cristão, nem lá poderia responder. Não sei dar conta, senhor merítissimo. Não posso precisar, senhor promotor. Não encontro resposta na alma, senhor arcanjo. Que me leves o Diabo, senhor santo! Não havia jeito, por mais que escrutinasse a mente. Procurei olhares fortuitos, sorrisos tímidos, toques inusitados, mas nada que pudesse dar data do início daquela paixão que me consumia a carne e o espírito. Desde a morte dos pais, embora pouco presente, me investi na figura de tio. Vez por outra ligava para a avó para ter notícias suas. Ajudava um pouco nas despesas. Levava-a aos cinemas, lanchonetes e zoológico, como compete aos tios. Vi a puberdade brotrar-lhe. Os primeiros sutiãs. O celular que se transfomou em extensão do corpo. A forma como começou a olhar os outros garotos da mesma idade. A primeira visita ao ginecologista. Certo dia, ao ver os olhares trocados com outro guri, senti ciúmes. Como uma revelação satânica me dei conta da mudança: tornara-se mulher, objeto de desejo. A partir deste dia comecei minhas penitências. Evitei contatos. Não respondia emails. Martirizava-me, penintenciava-me por aquele desejo proibido. Procurei preces, terapia, à toa. Nas terapias discutia fábulas. Rememorava que nos primeiros longas da Disney, as personagens Pateta, Mickey ou até o próprio Pluto, se deparavam entre diabos e anjos, sugerindo-lhes escolhas diferentes, ao pé-do-ouvido. Ao contrário dos coloquiais happy-endings de Hollywood, no meu caso, o Diabo venceu a peleja. Um dia reencontrei-a num bar. Festa de amigos seus. Parei para vê-la. Brevemente, pensei. Como um viciado terminal, a abstinência da sua presença me consumia. Como um alcóolatra em rehabilitação cometi o pecado terminal: uma dose apenas. Embriaguei-me dela. Poucos convidados, bar simples, patê de atum, bolo caseiro e cerveja gelada. Havia um violeiro. Acho que tocava bem. Era boa pinta e as moças disponíveis, solteiras ou não, clamavam por uma fração do seu pensamento. Ele, falsamente alheio, dedilhava um 7-cordas. Todas menos ela. Obstinadamente seguia não apenas seus passos mas também seus olhares. Na minha embriaguez buscava alcançar seus pensamentos. Devaneios. Dancei alguns sambas com ela. A formação de balé não acompanhava meu falso carioquês. Mas ainda assim trazia seu corpo junto ao meu. Passei a entender a expressão sublime amor. Fui ao banheiro. Na volta não a vi mais. Procurei ansioso. Sentia o ar faltar, e o coração bater mais depressa. Eventualmente ela emergiu de um canto escuro, um rapaz a acompanhava. Senti ciúmes. Cogitei em ir até ela e iniciar uma discussão. Futilidade. Prostei-me resignado. Ela se aproximou. Jeito maroto, olhar de falsa timidez. Dançamos mais. Bebia mais. Já não disfarçava a vontade de tê-la nos braços. De olhos fechados trazia-a junto a mim. Fantasiava a realidade de tê-la comigo. Despedidas. Carona oferecida. Carona aceita. Partimos. Caminhamos até o carro. Abri a porta para ela. Fitei-a sem dizer palavra. A lua cheia iluminava. Seus olhos brilhavam. Pensei em roubar-lhe o primeiro beijo ali mesmo. Ela parecia corresponder. Confuso, nada fiz. Uma música qualquer no rádio. Seguia a baixa velocidade. Fazia das minhas para que o ponteiro dos segundos seguisse mais arrastado. Segurava sua mão. A minha transpirava. Desliguei o rádio. Restou o barulho do vento apenas, e nosso silêncio. O turbilhão de pensamentos me assolava, a culpa, a vergonha, e o desejo. Chegamos à sua casa. Calada, ela me pegou pela mão e me fez entrar. A vó viajara na véspera. O anjo me guiava na casa escura. Fomos até seu quarto. Acendeu uma vela. Fechou a porta. Beijou-me. Senti as pernas tremerem. Beijava-me mais. Confuso, ébrio, excitado. Fez sinal para que levantasse os braços. Tirou minha camisa. Acariciava o peito, brincava com os mamilos. Agachada abriu o zíper da calça, me tocou novamente... Deitamos já nus na cama pequena. Era como sob medida para nossos corpos unidos. Não sei descrever o que se passou. Era como se uma revelação divina tivese sucedido. Num clarão vi sua face contraída, seu corpo suado em movimento, e um grito de prazer. Acordei no dia seguinte na mesma posição em que nos encontrávamos naquele motel. Nossos encontros se tornaram quase que diários. As horas e os minutos não faziam mais sentido. Meus momentos se definiam apenas pela sua presença ou pela sua ausência. Pensei em fugir para terras distantes, Passárgada talvez. Ajeitei sua cabeça no meu peito. Um sorriso escorria dos lábios. Não pensei mais sobre o futuro ou até onde poderíamos levar nosso amor proibido. Hoje estávamos ali. Bastava. Fechei os olhos.

Adormeci.


PS: “A chapeuzinho-vermelho
sempre quis ser comida
pelo lobo-mau.”

Maurício Dantas, o bem-assombrado.

Aldeia Global

Eis que em Saigon um dos restaurantes chiques é uma churrascaria. Serviço cordial, carta de vinhos de bom tamanho e comida boa. O feijão, preto, caldo grosso, pedaços de linguiça defumada boiando. Divino. A picanha, apesar dos esforços, só serviu para me deixar com saudades do Fogo de Chão, que também é For Export.

Os donos, um sueco e uma vietnamita.

PS: não tinha farinha :(....


Tempos Modernos





A cidade tinha duas boates apenas, mais um sem número de karaokes e casas de massagem que se prestavam a outros fins. Festa grande naquela noite. Acontecia uma vez por mês apenas. Pensei em não ir, dia longo, para trás e pela frente. No caminho do albergue, no entanto, um casal conhecido me convida e propõe dividir o taxi. Aceito. Na chegada música boa, gente bonita, casarão victoriano, piscina e pista de dança ao ar-livre. “Tava bombando”, diria algum primo. Procurei a cerveja gelada, e achei meu lugar na pista. Uma holandesa por perto, vários amigos seus ao redor, olhares trocados, cantada barata, começamos a dançar juntos. Depois vieram beijos e carícias. Em certa altura pergunto-lhe:

Vamos para onde depois?

Querido, eu não vou a lugar nenhum, sou casada...

Oops, como assim?...

E aquele meu amigo ali que eu te apresentei há pouco é meu marido....

((Duplo Oops))...

O marido se aproxima, se beijam, e ela nos apresenta novamente.

(((Triplo Ooops))).... com licença mas eu preciso de outra cerveja, isto está ficando muito complicado para mim... onde eu cresci tinha apenas pastel de queijo ou de carne na rodoviária... era tudo muito simples...

Saí sem entender direito.

sexta-feira, abril 20, 2007

Inspirações





Não leu Bukowski?

Ainda dá tempo.


My Life


My Life


E se você amasse o filho que não conheces,


e que não conhecerás,


o quê você diria a ele?

Paradoxo






Há cidades ricas com seus cidadãos velhos e parques novos, porém vazios de crianças.
Há cidades pobres com seus jovens, quase cidadãos, mas sem parques, novos ou velhos.



Alguns economistas chamam isto de assimetria de informação.
Outros indicam um desequilíbrio entre oferta e procura.
Alguns mais ousados, como Stiglitz, escancaram e ousam dizer que está tudo errado com esta tal de globalização, e a não distribuição de renda e cidadania resultantes.



Acho que era Nelson Rodrigues – que não cansa de ser lembrado pelas mazelas humanas que [d]escrevia – quem dizia que a realidade é sempre mais dura do que a ficção.


Sábias palavras.


Inspirações



By Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, 2001,

Não é bola de cristal mas explica muito do inexplicável.


Aí eu fui para Macau...:)











Forte do Monte















Siesta








Parque Luís de Camões














Antigo Senado











Igreja de São Paulo











Ah bom...















Torre de Macau










Quando o velho encontra o novo.




Às vezes dá certo, às vezes não.






Ocaso





Macau

A alma mais jovem que antes, influência dos netos indubitavelmente. A mente mais experiente, em certo sentido talvez. O espírito mais feliz, questionável ilusão. A carcaça que me cobre, no entanto, já não responde mais aos meus estímulos.

Aguardo o ocaso, sem a ansiedade de outrora. Há de vir a seu tempo. Na lembrança trechos de um Fernando Pessoa aprendido em escola daquela redondeza. Coisas que acalentam meu espírito enquanto meu tempo de deixar de ser não vem.

(...)“A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.”


PS: A alcova,Cancioneiro, FP.



quinta-feira, abril 19, 2007

Inspirações





José Saramago, Nobel de literatura 1998,

é provavelmente o melhor escritor da nossa língua-mãe

desde Fernando Pessoa e Machado de Assis.

Ensaio sobre a cegueira, é uma obra de arte.

E para melhorar o Fernando Meirelles ainda vai transformar em filme. Êba!


PS: pena que seja produção canadense
e vão gravar em inglês,
:( .


Inspirações





“O valor das coisas não está no tempo que duram,

mas na intensidade com que acontecem.

Por isso existem

momentos inesquecíveis,

coisas inexplicáveis

e pessoas incomparáveis.”

Fernando Pessoa

PS: vários textos de FP aqui.

segunda-feira, abril 16, 2007

Angkor....:) Esplendoroso!

Angkor.

Antiga capital do império Khmer.
Mais de 70 monumentos.
Alguns quilômetros quadrados de extensão.
O templo principal,
Angkor Wat,
o maior templo religioso do mundo.








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The heart of darkness


Phnon Penh, Cambodia.

Ex-escola, transformada em centro de torturas.

Khmer Rouge, 1975-1978.

Mais de 17.000 (talvez mais de 20.000...) entraram.

SETE sobreviveram.

Paradoxo da involução

E tinha aquela professora de ciências no primeiro grau que me ensinou sobre como funciona a vida:

- A polenização das flores pelas abelhas e outros insetos é fundamental para explicar a evolução das espécies. Com a fertilização cruzada, pólens de diferentes plantas se misturam durante o processo de fertilização. Isto dá a oportunidade para que diferentes espécies apareçam e as mais adaptadas sobrevivam.

Anos mais tardes, quando as aulas de ciência viraram aulas de biologia, tínhamos aula de genética. O professor falava da teoria evolucionária e explicava porque os filhos não eram apenas cópias idênticas dos pais.

- A mutação genética e o “caos ordenado” da primeira reprodução de DNA no zigoto é fundamental para explicar a nossa evolução. Como os genes podem se combinar de formas diferentes, e há proteínas dependentes de vários pares de genes para serem produzidas, isto dá oportunidade para um número astronômico de combinações possíveis. Com o processo de mutação, onde o caos aumenta, estes genes podem se combinar em infinitas possibilidades. Os mais adaptados acabam sobrevivendo.

Me ocorre que as tais forças liberais que pregam a livre concorrência ao extremo, e a redução do papel do estado, baseiam-se nos mesmo princípios, Viva a concorrência entre empresas, indivíduos e países. E que sobreviva o mais forte!

A idéia de proteínas ou dinossauros sucumbindo era romântica. A constatação de povos e indivíduos sucumbindo é repugnante tragédia no presente.




Miséria

Titãs

Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes
Ninguém sabe falar esperanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Todos sabem usar os dentes

Riquezas são diferentes


Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Riquezas são diferentes
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

Índio, mulato, preto, branco
Filhos, amigos, amantes, parentes
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Cores, raças, castas, crenças
Em qualquer canto miséria
Riquezas são miséria
Em qualquer canto miséria.


Bar temático

Abriu um bar na Zona Sul. Bar temático. Tava na moda. Já tinha virado até seção no Caderno 2. As paredes decoradas com fotos, lembranças de viagem, tíquetes de bagagem, guias de viagem, bugigangas diversas. Também tinha um salão de festas com computador, serpentina de chopp e telão. Qualquer um podia reservar de graça e convidar os amigos para ver as fotos da última viagem.

Entrevistaram o dono um dia. Este vivia em sua cadeira de rodas. Tinha feito daquele bar seu reduto. Morava perto. A maior parte da quinquilharia era sua, suas viagens. Havia mais um monte de doações de fregueses ávidos por ter um lugar fora da prateleira de casa onde juntar as memórias.

- Como está o bar?

- Um sucesso. O salão de festas é o ponto alto. Está sempre lotado.

- Tem muita viagem, festa, interessante?

- A mais esquisita foi um cara que veio aqui para comemorar sua viagem à Lua.

- Astronauta?

- Não, resultado de uma dieta vegetariana em Amsterdam, capim, cogumelos...

A jornalista partiu sem entender direito.

Cúmplice



Menino de rua. Dividíamos a calçada, a amizade frágil, comentários desconexos e fones de ouvido. Me encantei com seu sorriso e como agia com as outras crianças. Parecia justo e amigo.

O nome era inequívoco: Gate (to/from where?!?...). Não me arrisquei a perguntar a origem. Escrito em Khmer fazia mais sentido.

Me surpreendia com a fluência em inglês deste e dos outros guris. Me contou dos seus 10 anos de vida, dos dois irmãos e duas irmãs. Me garantiu ainda que ia à escola todos os dias, apesar da finalidade obscura. Vivia de vender livros. Às vezes vendia dois por dia, raras vezes mais de três, e às vezes nenhum.

Não comprei os livros piratas que vendia. Além de papo-furado, duas Coca-colas e umas músicas do Led Zeppelin, complementei com um dólar, por via das dúvidas.

PS:Infecção ótica ou cardíaca?.




Pontes


Muito tempo atrás, longe era fora do Plano Piloto. Depois eu descobri as viagens interestaduais e longe passou a ser depois de Salvador. Um dia saí do Brasil e longe virou depois da fronteira, do outro lado da Ponte da Amizade, onde se atravessa a pé.

Continuei atravessando pontes a pé por aí, Brooklyn Bridge em New York, Golden Gate em San Francisco, Le Pont St. Michel em Paris, Charles Bridge em Praga, mais de uma dúzia em Veneza, Harbour Bridge em Sydney, e outras tantas por aí.

Coleciono também um quilo de dessabores e uns cem gramas de inimizades, também atravessados a pé.

Mas ainda, muito tempo atrás, longe mesmo, era na Cochichina. Consegui chegar na Cochinchina, que uma dia já foi Saigon. Mas ainda não atravessei nenhuma ponte.



Obviedades



Um tosco altar, improvisado. Pedras catadas daquele templo antigo sobrepostas. Traços de uma civilização que já foi a maior daquelas bandas. Reminiscências em forma de granito. Duas velas e algum incenso. O gringo deposita umas moedas na caixinha enferrujada. Ao sair vê o menino que estava sentado ali no canto, vigiando o altar, e a caixa. Resolve perguntar antes de sair:

- Que Deus é este?

- O Deus do Dinheiro.

- Nunca ouvi falar... como assim?

- É que um dia tive um sonho, e o Deus do Dinheiro mandou que eu construísse este altar, arranjasse as velas e o incenso, que ele me ajudaria.

- E aí?

- Nada a reclamar, e a cotação baixa do dólar ainda está ajudando.

O gringo partiu sem entender direito.

.

domingo, abril 15, 2007

A baguette

No cruzamento enxergo aquela moto velha entregando pães. Ao volante um homem igualmente idoso, roupas rotas, um sorriso torto e a ausência de vários dentes.

Dos antigos colonizadores sobraram as muitas cicatrizes, e a baguette dourada enfiada nos sacos plásticos.

Pensamentear



Thich Quang Duc,
monge budista

Saigon, 1963 .





Que se destile toda a dor


até que sobre apenas uma gota do fel primal.


E guarde-a bem guardada.



PS: Tupperware?

Profissão: miséria humana

Naquele mercado de chagas, pústulas, amputações, necroses, pus, cicatrizes de armas químicas, membros decepados por minas, tudo era exposto aos fregueses.

-Quem dá mais?!?, demandava um dos mendigos


PS:Seria um dealer?

Profissão: crianças






































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Tempos Modernos

Tenho um amigo brilhante que mora no Rio. A nossa amizade é de fato muito antiga. Data do tempo em que achávamos chique comer manjubinha no Albericos de Ipanema, que já nem existe mais, depois ir roncar na praia. E se ele duvida eu forço a amizade:

- E ainda é do tempo que você gostava de mulher que nem eu.

Livre-tradução, busco

Arranjar

Ganja

No Cambodja

É canja,

Manja?

Profissão: putas











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sábado, abril 14, 2007

Efêmero

A porta pantográfica se fechou atrás de mim. Coisa de prédios antigos do centro que as conservam junto com seus ascensoristas igualmente seculares. Virei-me e nossos olhos se cruzaram. Os tinha brilhantes, mas um pouco tristes. Dor antiga já cicatrizada, arrisquei. Continuava a fitá-la, cada vez mais confortável com seu olhar. Ela correspondia. Aos poucos íamos nos apaixonando sem trocar palavras. Um suspiro, uma leve coceira na testa, o suor escorrendo pelas costas, o sorriso contido, olhares cúmplices. Pensei em estender a mão, dizer o nome, pedir-lhe o telefone. Mas o ascensorista nos findou a ilusão. Anunciava o térreo. Todos saíram. Desci mais um andar até a garagem.

Segui sozinho.