sexta-feira, abril 20, 2007

My Life


My Life


E se você amasse o filho que não conheces,


e que não conhecerás,


o quê você diria a ele?

Paradoxo






Há cidades ricas com seus cidadãos velhos e parques novos, porém vazios de crianças.
Há cidades pobres com seus jovens, quase cidadãos, mas sem parques, novos ou velhos.



Alguns economistas chamam isto de assimetria de informação.
Outros indicam um desequilíbrio entre oferta e procura.
Alguns mais ousados, como Stiglitz, escancaram e ousam dizer que está tudo errado com esta tal de globalização, e a não distribuição de renda e cidadania resultantes.



Acho que era Nelson Rodrigues – que não cansa de ser lembrado pelas mazelas humanas que [d]escrevia – quem dizia que a realidade é sempre mais dura do que a ficção.


Sábias palavras.


Inspirações



By Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, 2001,

Não é bola de cristal mas explica muito do inexplicável.


Aí eu fui para Macau...:)











Forte do Monte















Siesta








Parque Luís de Camões














Antigo Senado











Igreja de São Paulo











Ah bom...















Torre de Macau










Quando o velho encontra o novo.




Às vezes dá certo, às vezes não.






Ocaso





Macau

A alma mais jovem que antes, influência dos netos indubitavelmente. A mente mais experiente, em certo sentido talvez. O espírito mais feliz, questionável ilusão. A carcaça que me cobre, no entanto, já não responde mais aos meus estímulos.

Aguardo o ocaso, sem a ansiedade de outrora. Há de vir a seu tempo. Na lembrança trechos de um Fernando Pessoa aprendido em escola daquela redondeza. Coisas que acalentam meu espírito enquanto meu tempo de deixar de ser não vem.

(...)“A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.”


PS: A alcova,Cancioneiro, FP.



quinta-feira, abril 19, 2007

Inspirações





José Saramago, Nobel de literatura 1998,

é provavelmente o melhor escritor da nossa língua-mãe

desde Fernando Pessoa e Machado de Assis.

Ensaio sobre a cegueira, é uma obra de arte.

E para melhorar o Fernando Meirelles ainda vai transformar em filme. Êba!


PS: pena que seja produção canadense
e vão gravar em inglês,
:( .


Inspirações





“O valor das coisas não está no tempo que duram,

mas na intensidade com que acontecem.

Por isso existem

momentos inesquecíveis,

coisas inexplicáveis

e pessoas incomparáveis.”

Fernando Pessoa

PS: vários textos de FP aqui.

segunda-feira, abril 16, 2007

Angkor....:) Esplendoroso!

Angkor.

Antiga capital do império Khmer.
Mais de 70 monumentos.
Alguns quilômetros quadrados de extensão.
O templo principal,
Angkor Wat,
o maior templo religioso do mundo.








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The heart of darkness


Phnon Penh, Cambodia.

Ex-escola, transformada em centro de torturas.

Khmer Rouge, 1975-1978.

Mais de 17.000 (talvez mais de 20.000...) entraram.

SETE sobreviveram.

Paradoxo da involução

E tinha aquela professora de ciências no primeiro grau que me ensinou sobre como funciona a vida:

- A polenização das flores pelas abelhas e outros insetos é fundamental para explicar a evolução das espécies. Com a fertilização cruzada, pólens de diferentes plantas se misturam durante o processo de fertilização. Isto dá a oportunidade para que diferentes espécies apareçam e as mais adaptadas sobrevivam.

Anos mais tardes, quando as aulas de ciência viraram aulas de biologia, tínhamos aula de genética. O professor falava da teoria evolucionária e explicava porque os filhos não eram apenas cópias idênticas dos pais.

- A mutação genética e o “caos ordenado” da primeira reprodução de DNA no zigoto é fundamental para explicar a nossa evolução. Como os genes podem se combinar de formas diferentes, e há proteínas dependentes de vários pares de genes para serem produzidas, isto dá oportunidade para um número astronômico de combinações possíveis. Com o processo de mutação, onde o caos aumenta, estes genes podem se combinar em infinitas possibilidades. Os mais adaptados acabam sobrevivendo.

Me ocorre que as tais forças liberais que pregam a livre concorrência ao extremo, e a redução do papel do estado, baseiam-se nos mesmo princípios, Viva a concorrência entre empresas, indivíduos e países. E que sobreviva o mais forte!

A idéia de proteínas ou dinossauros sucumbindo era romântica. A constatação de povos e indivíduos sucumbindo é repugnante tragédia no presente.




Miséria

Titãs

Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes
Ninguém sabe falar esperanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Todos sabem usar os dentes

Riquezas são diferentes


Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Riquezas são diferentes
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

Índio, mulato, preto, branco
Filhos, amigos, amantes, parentes
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Cores, raças, castas, crenças
Em qualquer canto miséria
Riquezas são miséria
Em qualquer canto miséria.


Bar temático

Abriu um bar na Zona Sul. Bar temático. Tava na moda. Já tinha virado até seção no Caderno 2. As paredes decoradas com fotos, lembranças de viagem, tíquetes de bagagem, guias de viagem, bugigangas diversas. Também tinha um salão de festas com computador, serpentina de chopp e telão. Qualquer um podia reservar de graça e convidar os amigos para ver as fotos da última viagem.

Entrevistaram o dono um dia. Este vivia em sua cadeira de rodas. Tinha feito daquele bar seu reduto. Morava perto. A maior parte da quinquilharia era sua, suas viagens. Havia mais um monte de doações de fregueses ávidos por ter um lugar fora da prateleira de casa onde juntar as memórias.

- Como está o bar?

- Um sucesso. O salão de festas é o ponto alto. Está sempre lotado.

- Tem muita viagem, festa, interessante?

- A mais esquisita foi um cara que veio aqui para comemorar sua viagem à Lua.

- Astronauta?

- Não, resultado de uma dieta vegetariana em Amsterdam, capim, cogumelos...

A jornalista partiu sem entender direito.

Cúmplice



Menino de rua. Dividíamos a calçada, a amizade frágil, comentários desconexos e fones de ouvido. Me encantei com seu sorriso e como agia com as outras crianças. Parecia justo e amigo.

O nome era inequívoco: Gate (to/from where?!?...). Não me arrisquei a perguntar a origem. Escrito em Khmer fazia mais sentido.

Me surpreendia com a fluência em inglês deste e dos outros guris. Me contou dos seus 10 anos de vida, dos dois irmãos e duas irmãs. Me garantiu ainda que ia à escola todos os dias, apesar da finalidade obscura. Vivia de vender livros. Às vezes vendia dois por dia, raras vezes mais de três, e às vezes nenhum.

Não comprei os livros piratas que vendia. Além de papo-furado, duas Coca-colas e umas músicas do Led Zeppelin, complementei com um dólar, por via das dúvidas.

PS:Infecção ótica ou cardíaca?.




Pontes


Muito tempo atrás, longe era fora do Plano Piloto. Depois eu descobri as viagens interestaduais e longe passou a ser depois de Salvador. Um dia saí do Brasil e longe virou depois da fronteira, do outro lado da Ponte da Amizade, onde se atravessa a pé.

Continuei atravessando pontes a pé por aí, Brooklyn Bridge em New York, Golden Gate em San Francisco, Le Pont St. Michel em Paris, Charles Bridge em Praga, mais de uma dúzia em Veneza, Harbour Bridge em Sydney, e outras tantas por aí.

Coleciono também um quilo de dessabores e uns cem gramas de inimizades, também atravessados a pé.

Mas ainda, muito tempo atrás, longe mesmo, era na Cochichina. Consegui chegar na Cochinchina, que uma dia já foi Saigon. Mas ainda não atravessei nenhuma ponte.



Obviedades



Um tosco altar, improvisado. Pedras catadas daquele templo antigo sobrepostas. Traços de uma civilização que já foi a maior daquelas bandas. Reminiscências em forma de granito. Duas velas e algum incenso. O gringo deposita umas moedas na caixinha enferrujada. Ao sair vê o menino que estava sentado ali no canto, vigiando o altar, e a caixa. Resolve perguntar antes de sair:

- Que Deus é este?

- O Deus do Dinheiro.

- Nunca ouvi falar... como assim?

- É que um dia tive um sonho, e o Deus do Dinheiro mandou que eu construísse este altar, arranjasse as velas e o incenso, que ele me ajudaria.

- E aí?

- Nada a reclamar, e a cotação baixa do dólar ainda está ajudando.

O gringo partiu sem entender direito.

.

domingo, abril 15, 2007

A baguette

No cruzamento enxergo aquela moto velha entregando pães. Ao volante um homem igualmente idoso, roupas rotas, um sorriso torto e a ausência de vários dentes.

Dos antigos colonizadores sobraram as muitas cicatrizes, e a baguette dourada enfiada nos sacos plásticos.

Pensamentear



Thich Quang Duc,
monge budista

Saigon, 1963 .





Que se destile toda a dor


até que sobre apenas uma gota do fel primal.


E guarde-a bem guardada.



PS: Tupperware?

Profissão: miséria humana

Naquele mercado de chagas, pústulas, amputações, necroses, pus, cicatrizes de armas químicas, membros decepados por minas, tudo era exposto aos fregueses.

-Quem dá mais?!?, demandava um dos mendigos


PS:Seria um dealer?

Profissão: crianças






































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Tempos Modernos

Tenho um amigo brilhante que mora no Rio. A nossa amizade é de fato muito antiga. Data do tempo em que achávamos chique comer manjubinha no Albericos de Ipanema, que já nem existe mais, depois ir roncar na praia. E se ele duvida eu forço a amizade:

- E ainda é do tempo que você gostava de mulher que nem eu.

Livre-tradução, busco

Arranjar

Ganja

No Cambodja

É canja,

Manja?

Profissão: putas











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sábado, abril 14, 2007

Efêmero

A porta pantográfica se fechou atrás de mim. Coisa de prédios antigos do centro que as conservam junto com seus ascensoristas igualmente seculares. Virei-me e nossos olhos se cruzaram. Os tinha brilhantes, mas um pouco tristes. Dor antiga já cicatrizada, arrisquei. Continuava a fitá-la, cada vez mais confortável com seu olhar. Ela correspondia. Aos poucos íamos nos apaixonando sem trocar palavras. Um suspiro, uma leve coceira na testa, o suor escorrendo pelas costas, o sorriso contido, olhares cúmplices. Pensei em estender a mão, dizer o nome, pedir-lhe o telefone. Mas o ascensorista nos findou a ilusão. Anunciava o térreo. Todos saíram. Desci mais um andar até a garagem.

Segui sozinho.


Inspirações

by Frida Kahlo

O pincel quase seco repousava sobre a mão,

esta imóvel.

A tela continuava imaculada,

virgem por assim dizer.

Os pulsos abertos,

igualmente secos.


Miséria é vendida em diferentes tamanhos



They were about five or six years-old, hard to tell.

One had a pink dress, the other orange.

Two smiles were shining from their mouths.


The feet, without shoes.

The noses, dripping.

Hands and feet, dirties.

The playground, a dumpster.


They smiled.

The lens closed on them.

5 ou 6 anos talvez, difícil precisar.

Uma de vestido cor-de-rosa, a outra de laranja.

Os sorrisos sobre os lábios.


Os pés descalços,

os narizes escorrendo,

mãos e pés imundos.

O quintal, o lixão.


Sorriam.

Olhavam para a abertura da lente,

que se fechava sobre elas.

Caos




Caos.

Fumaça.

Buzinas.

Motos.

Carros.

Ônibus.

Cães cagando nas ruas.

Cães transando nas ruas.

Ruídos.

Poluição visual.

Poluição sonora.

Poluição.

Fedores.

Cheiros podres.

Cheiros azedos.

Cheiros fétidos.

A cidade fede.

Abaixo o boné.

Ligo o iPod. Lounge. Nu Jazz. Chill out.

Ajeito o óculos-de-sol.

Fecho a armadura.

Vou.

Fui.

Tempos modernos

Antigamente, ao se embarcar em vôos domésticos, perguntavam se você estava armado. E se estivesse parece que o piloto levava a dita em custódia. Depois aboliram facas, canivetes e afins. Chegou o momento de proibir ferramentas – vai que um louco resolve desparafusar o avião durante o vôo –, isqueiros e cortadores de unha. Nunca entendi a proibição dos cortadores de unha. Sim, aquelas terríveis armas. Imagino quantos homicídios já foram cometidos com estes cruéis utensílios.

A última, desde o ano passado, foi proibir líquidos, gels, sprays, inclusive perfumes e desodorantes. Deviam chamar a “Lei da Nhaca”, cheiroso não entra, e se entrar não fica.

Imagino o que vem pela frente. Mas ressalvo que futurologia não é a minha praia. É coisa para profissionais como economistas, videntes, pais-de-santo, e é claro, a mocinha da previsão do tempo.

No futuro pode ser assim:

- O quê você comeu hoje? (feijoada não entra, e ainda citam a convenção de Genebra sobre armas químicas).

- Você já passou na fila do raio-x? (vai que alguém resolve engolir o cortador de unha para cometer um atentado).

- Você assistiu a algum noticiário nas últimas horas? (incitação à violência não).

- Qual o resultado do seu psicotécnico? (doido só com atestado).

- Qual a sua opinião sobre o governo dos Estados Unidos da América? (“Veja bem...”)

- Você já cagou hoje? (e o cortador de unhas, onde foi parar?!?)

- Você já usou drogas, nesta ou noutra vida? (é melhor garantir a abrangência da pergunta).

E a lista continua.

E finalmente haverá o dia em que check-in de vôo internacional comecará 24 horas antes do embarque. Quarentena no aeroporto. Dieta e reações controladas.

Primeira classe: suíte

Classe executiva: poltrona de couro reclinável

Classe econômica: banco de aeroporto

PS: nóis sofre mas nóis goza, Zé Simão.




Miséria é vendida em diferentes tamanhos



Ele se vira para ela e diz:

É ultrajante abusar do serviço deste pobre homem. O que ele está cobrando para nos levar pedalando, em sua sua tosca carruagem sobre rodas, é uma miséria. Me recuso a compactuar com esta exploração.

Seguiram de taxi, com ar condicionado.

O dono da bicicleta não jantou naquela noite.

Miséria é vendida em diferentes tamanhos

Cambodia

A menina de 3 ou 4 anos deixa cair os chicletes no chão. Ele se esforça para não ver, a criança suja aos seus pés, e a mãe alguns passos atrás.

Não compactuo com exploração de crianças por mães preguiçosas. Não compro chiclete.


Elas não comeram naquela noite.


To be Brazilian




I explained while staring at her eyes:

I have wished to be many things in life,

these days, I just want to be Brazilian,

from Brasilia.

To be Brazilian is a gift.

It’s like a burning passion.

Some have it, others don’t.

Some have and loose it.

Others don’t have it, but earn,

C’est la vie.

Expliquei enquanto lhe fitava os olhos:

Já quis ser muita coisa na vida,

hoje só quero ser brasileiro,

de Brasília.

Ser brasileiro é um dom.

É como uma grande paixão.

Uns têm, outros não têm,

Uns têm e perdem,

Outros não têm, e conquistam.

C’est la vie.

PS: a maior vantagem de ser brasileiro no exterior
é que Brazilian se escreve com letra maiúscula.

Pensamentear

Te detesto,

Apenas porque te adoro,

Se tivesse raiva,

Apenas amá-la-ia